Categoria: Arte e Cultura

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O prazer de ir à missa e de ver pela TV

É difícil, muito difícil, ser domingo e não ter ido à missa. Não é nada assemelhado com a percepção de quebrar um hábito, de sair de uma rotina de tanto tempo. Não ir à missa é uma ausência. Uma trincheira montada diante da necessidade de caminhar ao encontro da felicidade e ficar retido a dois passos dela. Um vazio escuro, como um abismo em plena tarde.

Diário de um desespero – ou quase - II

João Carlos Pereira

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Flores e amores a quem ainda vive

Não sei se existe uma pessoa que goste de velório. Se alguém me vir num, exceto no meu próprio, cuja presença será indispensável, pode ter certeza de que o finado era muito querido, ou que tinha especial apreço pela família enlutada, como se dizia antigamente, quando ainda havia anúncio fúnebre nos rádios. Tirando isso, não faço social da morte.

Diário de um desespero – ou quase - XXX

João Carlos Pereira

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O Mata Velho, o Pega Velho e o Serra Velho

Quem contava essa história era a Lindanor Celina, que a escreveu, com todos os detalhes, no romance “Menina que vem de Itaiara”, o nome fictício de sua Bragança querida. Era a Pasárgada de Bandeira; a Aruanda de Eneida. O território livre, terreno do sonho, no qual entrava e saía sem precisar de passaporte. Itaiara é a terra do nunca. É minha Paris idealizada, quando estou por aqui. Lá tudo pode acontecer e ninguém é preso, humilhado, sofre frustração ou adoece e morre de corona vírus. É minha Paris inexistente.

Diário de um desespero – ou quase - XXVIII

João Carlos Pereira

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O Cristo de todos, o Jesus de cada um

Talvez a mais bonita de todas as faces de Jesus tenha sido produzida no século XVII, pelo holandês Rembrandt, hoje no acervo de um museu em Berlim. É “A cabeça de Cristo” , pintada em 1640. O rosto aparece levemente inclinado, o olhar se perde no nada, os cabelos são longos, fartos e cacheados, a barba é curta e o bigode, estreito. Há pelo menos doze versões devocionais circulando pelo mundo, em ângulos diferentes, mas o original é maravilhoso e dá a impressão de ser um jovem judeu.

Diário de um desespero – ou quase - XXIX

João Carlos Pereira

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São tantos medos, meu Deus…

O Marajó deve ser um repositório de histórias que precisam ser contadas. Meu amigo Breno Castro já me narrou algumas, mas ali é lugar para sentar com um gravador, para quem usa essa técnica, e recolher tudo. Eu ainda me valho do meu caderno de anotações. A ilha é um ninho primoroso, precioso, rico de fatos reais, como as dos fazendeiros que a habitaram, ou vivenciados pela gente simples de lá. Não ouso escrever a palavra “imaginados”, porque com assombração não se brinca, nem dela se deve duvidar.

Diário de um desespero – ou quase - XXVII

João Carlos Pereira

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A notícia em tempo real e os desafios do agora

As brincadeiras domésticas já perderam um bocado da graça e o confinamento, graças ao bom Deus, ainda não chegou a gerar atritos, mas ouvir, a todo minuto, proibições e lembretes de que pertenço a dois grupos de risco não é fácil. A conversa é monotemática, as reportagens na televisão dão volta em torno do planeta, abordando o mesmo assunto e, nas redes sociais, verdades convivem com fake news com uma facilidade que incomoda.

Diário de um desespero – ou quase - III

João Carlos Pereira

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Uma família que contava versos

Com o dinheiro pouco e regrado, a mãe se consumia com o pagamento do aluguel, porque era uma desonra atrasar um dia sequer. Com jeito jocoso, mas em forma de verdadeira oração, um dos meninos, que depois seria médico famoso na cidade, dizia: “São José, nos dê um chalé”. O outro, que alcançou o desembargo, completava: “São João, nos dê um porão”. Eram líricas alusões ao teto próprio com que sonhavam, para que se livrassem do senhorio.

Diário de um desespero – ou quase - IV

João Carlos Pereira

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Histórias que entram por uma porta e saem por outra

Se ainda há quem acredite que minhas crônicas nascem prontas, lamento desapontar. Elas apanham tanto, antes de ganhar a luz, que me dá até pena. Fosse um ser humano, sujeito à sensibilidade na hora de cortar, apareceriam cheias de ataduras, de tantos golpes que levaram. Eu sigo meu professor Graciliano e corto, corto, corto, reescrevo sem pena. Às vezes, o resultado não me agrada e simplesmente deixo um trabalho inteiro de lado, para que apodreça e morra no esquecimento, ou para tentar melhorá-lo depois. Mas, eventualmente, nada se salva.

Diário de um desespero – ou quase - XXVI

João Carlos Pereira

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