Clarice, Quintana e a síndrome de Guma

Diário de um desespero – ou quase – XIX

João Carlos Pereira

Um dia, Olga Borelli participava da organização de um evento beneficente, quando teve a ideia de colocar à venda livros de Clarice Lispector. Para estimular a procura, imaginou que, se estivessem autografados pela autora, ganhariam o que hoje se chama de “plus” e teriam outro significado. Sem conhecer Clarice, procurou-a e conseguiu o que pretendia. Dias depois, Olga levou-lhe umas flores para agradecer tamanha disponibilidade e recebeu uma carta da escritora, na qual pedia que fosse sua amiga. A partir da admiração e de um gesto de cortesia, brotou um afeto tão bonito, que nem a morte ousou frear.

Clarice morreu em 1977 e, alguns anos depois, Olga veio a Belém para uma apresentação de dança, se não estou enganado. Ficou hospedada em um hotel no centro da cidade e lá me recebeu. Eu era repórter de “O Liberal” e tinha imensa curiosidade em conhecê-la. Na época, seu livro “Clarice Lispector – esboço para um possível retrato” fazia um grande sucesso, mas, curiosamente, não mereceu reedição. Conversamos longamente e, num certo momento da entrevista, eu disse: “você sabia que a Clarice se hospedou nesse hotel?”. Ela fez um breve silêncio, emocionou-se e, depois de respirar fundo, fez uma revelação: “não sabia, mas tinha certeza disso. Eu senti muito a presença da Clarice, logo que cheguei”.

Nunca comentei sobre isso, assim como deixei de escrever, por respeito ou pudor, uma porção de coisas que, aos poucos, vou tendo coragem de relatar. Uma delas foi a bronca que levei de Carlos Drummond de Andrade, devido a uma pergunta que lhe fiz sobre Mario Faustino. Preservei como segredo, até agora, a conversa com o poeta mineiro, mas não vejo mais sentido para esse cuidado. Outra hora narrarei o acorrido. Ontem, um fato ligado às duas, sem nenhuma importância para mim, mas que, por alguma razão, voltou à memória, me deixou pensando na vida, mais do que normalmente já faço.

Olga e Clarice viraram amigas íntimas. Olga sabia tudo de sua vida, inclusive detalhes que parecem insignificantes, mas que fazem as delícias de qualquer biógrafo. Ela conhecia a cor do batom de que a autora de “A vida íntima de Laura” mais gostava, por exemplo, e onde havia feito uma anotação (podia ser no talão de cheques ou em um guardanapo de papel), que poderia servir de ponto de partida para um novo livro. Clarice tomou-se de tamanha dependência da presença de Olga que, uma vez, ligou para ela, agoniada, na Bahia, dizendo que não estava nada bem e precisava conversar. Olga largou tudo que estava fazendo e voou para o Rio. Quando chegou, a encontrou ótima, feliz da vida, rindo e comendo camarão. Questionada sobre a mudança repentina, ouviu uma explicação no melhor jeito Clarice Lispector de ser: “desculpe, Olga. Eu melhorei”.

Ainda não cheguei a esse nível de oscilação de humor, por causa dos dias em que estamos vivendo, mas percebo alguma coisa mudando em mim. Acordo tranquilo e, quando não tenho compromisso de ministrar aula virtual ou de fazer comentário na televisão, a partir de um cantinho, na cozinha, começo a escrever cedo. Se, eventualmente, preciso preparar o almoço, a aventura gastronômica inicia-se às 11 horas, a fim de que, antes das 13, esteja tudo pronto. De tarde dou um cochilo e volto a escrever. Como sou dorminhoco, se não colocar o despertador, capaz que entre pela noite e comprometa o sono que, por conta disso, anda desregulado.

Entre uma atividade e outra, gosto de me esparramar na rede e fico lendo. À medida que a noite se aproxima, começa a me dar uma angústia. Um medo, uma ansiedade, uma inquietação se apoderam de mim. Talvez seja a incerteza do dia seguinte ou a consciência de que deveria ter aproveitado melhor o tempo perdido. Leio, escrevo, vejo filme, vejo série, vejo noticiário e as horas não avançam. Não durmo como gostaria. Me falta aquele sono reparador e cedíssimo estou de pé. O que me impressiona é que amanheço em paz, um pouco cansado, é verdade, como se tudo estivesse em plena normalidade.

Imagino que esse comportamento não seja pauta para nenhuma junta psiquiátrica, mas me preocupo. Sei que a hora não é para foguetórios e oba-oba, mas é desse modo que vivo. Quando acordo na madrugada, às vezes me dá vontade de fazer igual à Clarice Lispector, que padecia de uma insônia terrível. Ela revelou, numa entrevista, que, ao perder o sono, no meio da madrugada, tentava, inutilmente, recuperá-lo. Conformada, levantava-se, fazia um café e dava a noite por encerrada.

Quem também se libertou da algema das horas foi o poeta Mario Quintana. Como morava sozinho, num quarto de hotel, necessitou, num certo momento, após haver completado 80 anos, de um acompanhante. Quando alguém soube que Elena, sobrinha de Mário, estava procurando um profissional para esse fim, não demorou para que um grupo de admiradores do poeta se oferecesse para a missão. Uma fila de rapazes e moças, dispostos a atendê-lo, qualquer que fosse a hora do dia ou da noite, apareceu na frente do seu hotel. Trabalho mais do que voluntário: trabalho apaixonado.

Como dormia muito, é provável que Mario Quintana nem visse qual dos seus “cuidadores” estava de plantão. Era tanta gente, que havia largo revezamento e, muitos deles não chegavam a conversar com o poeta. Bastava velar seu soninho de menino envelhecido. Mal abria os olhos, pedia a refeição que o organismo desejava. Podia ser seis da manhã, mas, se a fome fosse grande, queria almoço. Se, ao meio-dia, a vontade de tomar um chá surgisse, era chá que lhe serviam. Desbragadamente, foi experimentando a liberdade das limitações impostas pela idade.

Eu igualmente ando cheio de limitações e de chateações motivadas pelo isolamento. Quando comecei a escrever esta série, comparei minha vida à da onça do Museu Goeldi, que vivia confinada em seu viveiro, sozinha, rosnando para quem se aproximasse, na hora em que estivesse muito estressada por causa do aperreio dos visitantes. Ela se chamava Guma, era um macho e se recuperava de uma cirurgia, quando morreu, terça-feira passada. Nada a ver com coronavírus, felizmente. Eu tomava conta dele, de minha sacada, e acho que era o cheiro da carne que lhe serviam a razão para haver tantos urubus na copa da árvores do parque. Agora, sem Guma, capaz de tomarem outro rumo e as garças que espantaram, com sua feiura e sua agressividade, retornem ao antigo ninhal.

Todo mundo me diz para ter calma, porque “isso” vai passar. Claro que vai. Meu sonho é que termine amanhã, mas enquanto for obrigatório me afastar do mundo, tentarei aceitar, com improvável serenidade, a proximidade da noite. Só não dá para fazer como o poeta e comer o que quiser, na hora inadequada. Isso, como se dizia antigamente, é muito luxo para um pobre marquês.

Como não possuo (nem preciso de) título de marquês e meu maior galardão é ser aposentado, acabo de descobrir que sofro da síndrome de Guma, um mal, até onde sei, desconhecido pela ciência, mas muito comum em quarentenas como a de agora.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Transfiguração da Onça em Cor Expressionista – Angel San Martín, 1994.

Crônica

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