Histórias que entram por uma porta e saem por outra

Diário de um desespero – ou quase – XXVI

João Carlos Pereira

Tenho tentado me proteger o máximo possível do corona vírus e do noticiário produzido por causa dele. A coisa está tão feia, tão feia, que durmo com medo e acordo apavorado. Se, eventualmente, preciso sair para alguma coisa inevitável, ou mesmo uma voltinha de carro, apenas para não enlouquecer, fico num estado de nervos que dá pena. Olho meu carro com desconfiança e faz quase um mês que não encontro os vizinhos no elevador.

Durante o dia, a minha crise não é tão grande, porque tenho muito o que fazer. Escrevo, reescrevo, escrevo novamente, respondo e-mails, agradeço os zap que recebo, por causa da distribuição da crônica diária a mais de 500 pessoas, vejo filme, série, leio dois livros ao mesmo tempo, me embalo na rede, cozinho três vezes por semana, volto para o computador, reescrevo, ajusto o texto que posto depois das 18 horas e só então descanso. A essa altura, já estou com a cabeça tão cansada, que não rendo mais para qualquer atividade que envolva o pensamento.

Escrever é um trabalho pesado, uma espécie de estiva mental. Demanda, inclusive, disposição física. Preparar três, quatros páginas de texto estético não é brincadeira. Para quem vive da palavra e leva a sério seu ofício, – podem perguntar para o Edyr Augusto, para o Salomão Laredo, para a Edy-Lamar, que outra atividade não têm a não ser a de escritor em tempo integral – a tela em branco do computador, a folha limpa de um caderno representam um desafio imenso. Diante deles, vivo o enigma da esfinge que propôs o “decifra-me ou te devoro”.

Fazer literatura é processo difícil, penoso, angustiante, quase cruel. Alguém perguntará se não entra o componente de prazer nessa receita. Claro que sim, porque não me tenho na conta de uma pessoa masoquista. Escrever é bom, muito bom. Não fosse, não estaria neste mundo há mais de 40 anos. Mas se há uma comparação possível, é como fazer um filho. O primeiro momento (o primeiro mesmo) é só prazer. Depois vêm todas as dificuldades. Todo dia é um novo aprendizado para os dois lados. Quando o filho está pronto para o mundo? Só Deus sabe. Quando o texto, esse filho feito de palavras, está pronto? Muito difícil saber.

Corrijo, recorrijo, revejo um monte de vezes e só libero para publicação quando entro na prorrogação do prazo. Agora, para complicar, do meu próprio prazo. Ou crio rotina e disciplina, ou me estrepo. Para piorar, o revisor automático acha que é meu parceiro e que escrevemos a quatro mãos. Sonho dele… De vez em quando se intromete e causa estragos. Meu pior concorrente, contudo, sou eu mesmo. Como minha cabeça é mais ligeira do que os dois dedos com que digito, quase sempre deixo solta no ar uma palavra que, quando vou reler, penso que está no lugar e não está. Como se dizia antigamente, foi passear no Bosque. Tenho que caçá-la a laço, descobrir o sentido que camuflou, a ideia que escondeu.

Meu modelo de escrita é o romancista Graciliano Ramos. O homem conseguia secar seus textos com impressionante capacidade de cortar. Uma vez, disse que escrever é como fazer o trabalho das lavadeiras da beira do rio. Elas molham a roupa, ensaboam, esfregam e depois torcem, torcem, torcem, até que pareçam secas. Em seguida, repetem a operação. E fazem tudo de novo uma outra vez, até que a peça saia da água limpinha, cheirosa e quase seca. Na prática de escritor, o Graciliano fazia exatamente isso. Nunca considerava boa uma página que não tivesse sido reescrita pelo menos dez vezes.

Se ainda há quem acredite que minhas crônicas nascem prontas, lamento desapontar. Elas apanham tanto, antes de ganhar a luz, que me dá até pena. Fosse um ser humano, sujeito à sensibilidade na hora de cortar, apareceriam cheias de ataduras, de tantos golpes que levaram. Eu sigo meu professor Graciliano e corto, corto, corto, reescrevo sem pena. Às vezes, o resultado não me agrada e simplesmente deixo um trabalho inteiro de lado, para que apodreça e morra no esquecimento, ou para tentar melhorá-lo depois. Mas, eventualmente, nada se salva. Ontem mesmo cometi um gesto dessa natureza.

Como estava com uma crônica adiantada, me dei uma relativa folga. À noite fui ver o texto e me deu tanta vontade de esganá-lo, que o coloquei de quarentena. Era sobre comida e pessoas que têm o divino toque das panelas. Também relatava meus pratos favoritos e aqueles que mais gosto de fazer, com destaque para o carro-chefe, um coq-au-vin, bem diferente do que é servido na França, onde a receita surgiu para ser adaptada à realidade brasileira. Achei o texto tão cansativo, que me deu uma espécie de indigestão.

Quando eu fiz vestibular, em 1978, a redação havia sido incluída como parte integrante da prova de português e literatura. O candidato recebia o papel oficial e um borrão. Tinha uma hora exatamente, de 8 às 9, para preencher as 30 linhas. O tema era facílimo e jamais me esqueci dele: “conte uma experiência de sua vida”. Estava na cara que era uma narração e eu havia me preparado muito bem, com as professoras Marlene Vianna e Concita Magno Bentes, que não passavam a mão na cabeça de ninguém. Comigo, então, não havia refresco. Gostavam do meu texto e por isso me apertavam o máximo. Devo imensamente a elas.

Comecei às 8 em ponto e, vinte minutos depois, estava com a redação prontinha. Era um texto tão idiota, tão bobinho, que o desespero começou a subir pelas minhas pernas. A redação era o retrato da minha vida: uma pasmaceira total. Não havia vivido o suficiente para contar qualquer coisa que valesse a pena ler. Agoniado, resolvi, corajosamente, mudar tudo. Tinha apenas quarenta minutos para fazer borrão e passar a limpo. Ou faria uma coisa, ou faria outra. O jeito era enfrentar a realidade com uma mentira.

A primeira redação, se bem (ou mal) me lembro, porque o tempo vai criando realidades azuis para suprir lacunas que viraram pó, era sobre uma viagem que fizemos, minha tia Lívia, minha irmã e uma prima a Manaus. Apaixonada pela baianada, minha irmã deixou registrado, a caneta, no fundo da gaveta de nossa cabine, no saudoso “Rosa da Fonseca”, que Maria Bethânia e Gal Costa haviam se hospedado naquele espaço. Uma fake news, claro. A narrativa ficou tão ridícula, que eu, mesmo com a maior boa vontade e com exaltado instinto de proteção, caso tivesse que atribuir nota a ela, não daria mais do que seis. E com seis eu não entraria na universidade.

Com estava nervoso e não tinha nada para narrar que valesse a pena ser lido, resolvi entrar nos meus domínios mais conhecidos, que eram os da imaginação. Contei que meus pais e eu havíamos feito uma viagem (nunca realizada, claro) a Paris e eu descrevia os lugares como se fosse íntimo da cidade. As aulas iniciais da Aliança Francesa já estavam tendo boa serventia. O “tour” acabaria na Torre Eiffel, onde, sem saber se era possível ou não, eu me pendurava na beira de uma grade de proteção e quase matei meus pais de susto. Depois de levar uma bronca daquelas, voltamos para o hotel, de onde sairíamos, no mesmo dia, para pegar o voo. No caminho para o aeroporto, já no táxi, me encantei por um macaquinho de pelúcia, com roupinha quadriculada, pendurado no retrovisor. Achei aquilo tão bonito, a melhor lembrança de que trouxe de Paris. Era tudo fantasia, repito.

O texto podia não ser grande coisa e a história também não era um primor de originalidade, mas me rendeu nota máxima e, anos depois, já na faculdade, uma professora da área de Letras contou que se lembrava de haver lido essa história. Não teria porque mentir. Eu tive.

Tanto tempo se passou e eu me tornei cronista profissional. Escravo da palavra. Entre os segredos ou mistérios desse ofício de artesão do verbo elaborado está o de entrar por uma porta e sair pela outra, sem que o leitor, às vezes, nem perceba. O propósito, hoje, era falar sobre meus medos, meu pânico noturno, o pavor que tenho de que alguém venha me puxar o pé na cama ou embalar minha rede. Também me assustei com a história das santas almas vaqueiras, da qual ouvi falar semana passada e passaram a fazer parte das personagens dos meus temores infantis, transportados para a terceira idade.

O passado não tem jeito e insiste em se meter no presente, se imiscuir no cotidiano. Como disse meu poeta Mario Quintana, ele nunca aprende onde é o seu lugar.

Prometo, qualquer hora dessas, escrever sobre a angústia que se abate sobre mim, quando o sol se põe e a noite se instala pesadamente sobre a minha fragilidade de menino que envelheceu antes da hora e, no momento, como Proust, anda em busca do tempo perdido, como se isso fosse minimamente possível.

Belém, 16 de abril de 2020

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Ismael Nery — Origem Nº 4 – Etapa Final

Crônica

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