A notícia em tempo real e os desafios do agora

Diário de um desespero – ou quase – III

João Carlos Pereira

Não sei se o risco de sair de casa, com os vidros do carro fechados (ou deveriam estar abertos?) para dar uma voltinha, ver gente circulando (pouca, é verdade), olhar rua (vazias, mais vazias do que tarde de domingo do Círio), é maior do que permanecer (in)quieto, vendo o tempo passar, como se estivesse em uma solitária. Verdade que não é uma solitária, porque estou acompanhando, mas o que se passa dentro de mim é devastador. Parece que, de tempos em tempos, sou levado a bater minha cabeça contra as barras de uma grade invisível.

As brincadeiras domésticas já perderam um bocado da graça e o confinamento, graças ao bom Deus, ainda não chegou a gerar atritos, mas ouvir, a todo minuto, proibições e lembretes de que pertenço a dois grupos de risco não é fácil. A conversa é monotemática, as reportagens na televisão dão volta em torno do planeta, abordando o mesmo assunto e, nas redes sociais, verdades convivem com fake news com uma facilidade que incomoda.

Tenho a impressão – acho mesmo que é o tédio que está me fazendo tirar conclusões amalucadas – de que, pela manhã, as redes sociais procedem como as padarias: produzem material bem cedo e passam a manhã distribuindo o que saiu do forno. Na parte da tarde, a coisa esfria. O telefone já não apita tanto e a fábrica de notícias e de “notícias” parece diminuir o ritmo. O que mais me irrita nisso tudo é que todo mundo parece ansiar pela a primazia na informação, ou da “informação”, e toma postagem repetida.

Quando comecei em jornal, há quase 40 anos, a briga se dava entre “O Liberal” e a “A Província do Pará”, com larga vantagem para “O Liberal”. Na época se falava em 80% de vantagem. O “Diário do Pará” apareceu depois, entrou na disputa com vontade e se firmou. Mesmo assim, ninguém gostava de levar furo. Na linguagem jornalística, dar um furo significa sair na frente com uma notícia exclusiva. Até a internet aparecer, isso era quase uma obsessão.

Entre os dois jornais havia uma disputa enorme em todas as áreas. De dentro, observávamos melhor e mais de perto o ringue dos repórteres policiais. Do nosso lado havia um colega que fazia o que fosse preciso para “furar” o concorrente. Como cada um luta com as armas que possui, o outro não tinha o menor pudor de, após fotografar o que desejava, alterar a cena de um crime. Se isso atrapalhava ou não o trabalho da polícia, era problema da polícia. Os repórteres, inclusive os de rádio, invariavelmente chegavam antes dos agentes da lei. O “furo” estava acima de qualquer coisa. A vaidade, também.

E assim caminhava a humanidade, numa época em que se dizia que, se se espremêssemos um jornal, sairia sangue, tamanho o volume de notícias da chamada “área policial” ou do mundo-cão. Não era apenas texto nu e cru. A quantidade de fotos tão cruéis como reais, ou tão reais quanto cruéis, sem nenhuma preocupação com o estômago do leitor, era, perdoem a comparação, o molho. Raro o dia em que não aparecia a imagem de um “presunto” – um cadáver – do jeito em que foi encontrado: ou fresquinho, tipo morto pouco antes da foto ser feita, ou em estado avançado de decomposição. Eram outros tempos, vamos combinar, que nada têm a ver com a ética do século XXI.

A forma de fazer jornal mudou, o “furo” continua a ser importante, mas perdeu campo para as redes sociais, da qual ninguém escapa e nem se esconde. Tudo é, como diria o Ivo Amaral, em cima do lance.

Os caminhos dos veículos de comunicação, na hora presente, são uma grande incógnita. Os jornais trazem as notícias de ontem e os comentários estão atrelados ao dia anterior. Não há espaço para longas análises, porque ninguém mais tem paciência ou tempo. Fazer projeções, hoje, é um inútil exercício de futurologia. Melhor abrir um tarô ou um jogo de búzios.

Dificilmente a televisão mostra algo que ainda não tenha estado nas redes sociais. O rádio, que já esteve condenado à morte, quando a televisão apareceu, criou musculatura e continua tão presente em tempo real como as transmissões “ao vivo” da TV. Com uma diferença: quando acaba o “ao vivo”, o rádio prossegue. A internet, sem filtros, é caminho aberto para a verdade e para os delírios. As revistas e os jornais on line se renovam minuto a minuto, mas, no instante seguinte, já carecem de atualização.

Está tudo muito complicado, eu sei, mas é preciso viver o presente para ver aonde iremos parar. O jornalismo e seus meios buscam entender o aqui e agora. Os jornalistas, porém, serão sempre fundamentais, qualquer que seja o processo. Mas não apenas nós. Nós e nossos colegas que nos ajudam: o motorista, a produção, os técnicos, os operadores, os editores, o pessoal da oficina, estamos juntos, no mesmo barco da notícia. Nesta hora, então, viramos mais do que profissionais. Somos o exército da informação.

Pena que já tenho mais de 60 anos e sou obrigado a ficar fora do campo de batalha.

Belém do Pará, 23 de março de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
Facebook
| Blog

Imagem: Menino Jornaleiro – Hildegard Rosenthal, 1940.

Crônica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: