Uma família que contava versos

Diário de um desespero – ou quase – IV

João Carlos Pereira

O cenário era Belém, em 1940. Aproximando mais a câmera, numa tomada virtual, que não existiu, aparecem duas meninas brincando de roda, na calçada de sua casa, na Cidade Velha. Um pouco mais adiante, dois meninos surgem, jogando futebol, com bola feita de meia. A rua não se chamava mais Santarém, e como muitas do bairro, que homenageavam cidades portuguesas e passaram a reverenciar um famoso-não-se-sabe-quem, foi renomeada para “Rodrigues dos Santos”. Da janela, a única que olhava a rua, fazendo par com a porta, como se fosse criatura caolha, tipo o Camões, uma professora abnegada reparava os filhos, enquanto o marido escrevia versos.

Nos céus de uma cidade sem edifícios, que guardava os limites mais importantes nas cercanias da Catedral e do Theatro da Paz, não muito mais além, avião não fazia parte da cena. E os que surgiam, anunciavam o terror da guerra. Quando se ouvia o ronco dos motores, ninguém mais ficava desabrigado, porque havia o risco de ser gente inimiga. As mães corriam os filhos para dentro. As brincadeiras acabavam ao primeiro som vindo do alto, que não fosse trovão. As famílias que, por acaso, proseavam na porta, sentadas em cadeiras de vime, delicioso hábito naquele tempo em que a TV não existia aqui e a PRC-5, fundada em 1928, era única emissora local, recolhiam tudo e iam se abrigar.

Usei o verbo abrigar, mas poderia ter optado por proteger, guardar, escudar, acolher, agasalhar, albergar, resguardar e mais quantos sinônimos houver, porque, se os alemães, de fato, desejassem acabar com Belém, como quiseram fazer com Paris, bastaria que soltassem meia dúzia de bombas e tudo estaria consumado. Até onde sei, nenhuma residência possuía abrigos antiaéreos. Dentro ou fora de casa, as pessoas morreriam do mesmo jeito. O instinto de preservação, porém, falava mais alto.

Com os filhos por perto, a mãe, professora, reunia todos na sala acanhada e colocava a meninada para estudar versificação. Também dizia poemas e, juntos, representavam pequenas cenas trazidas pela catequese de padres espanhóis, que atuavam em São Joãozinho. Até a menor de todas, a mais zitinha, contava nos dedinhos as sílabas dos versos. Poesia, oração, estudo, alegria, brincadeiras e, sobretudo, amor, muito amor, aliviavam a pobreza daquela casa que, somente tempos depois, viu chegar um piano, verdadeiro luxo que a cultura francesa de “belle époque” instalou entre nós. Quando os carregadores trouxeram com o instrumento, comprado com imenso sacrifício, a vizinhança, que era uma espécie de continuação da casa ao lado, duvidou que coubesse na pequenina sala. Uma senhora, em tom de brincadeira, comentou: “mana, até a minha sala ficou mais espremida por causa desse piano”. Quando a menina tocava, a rua inteira se enchia de alegria.

Com o dinheiro pouco e regrado, a mãe se consumia com o pagamento do aluguel, porque era uma desonra atrasar um dia sequer. Com jeito jocoso, mas em forma de verdadeira oração, um dos meninos, que depois seria médico famoso na cidade, dizia: “São José, nos dê um chalé”. O outro, que alcançou o desembargo, completava: “São João, nos dê um porão”. Eram líricas alusões ao teto próprio com que sonhavam, para que se livrassem do senhorio.

Eu nasci 19 anos depois dessa história, na mesma rua para a qual a família se mudou. Era a saudosa João Diogo, que nada tinha a ver com o índio Juan Diogo, da aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, mas reverência ao filho do primeiro presidente Cabano, Félix Antônio Clemente Malcher, e várias vezes presidente da Câmara de Belém. Nossos vizinhos habitavam uma casa como porão, um par de janelas com duas folhas cada e guarda-corpos de ferro, sala, alcova, outra sala, um jardim interno, corredor com os quartos, banheiro, cozinha e dispensa. São João ouviu as preces de um dos meninos e lhe deu o que pediu.

Como, naquele tempo, vizinho era quase parente, eu acabei virando neto da professora que, no dia de São João, atava um fita vermelha no meu bracinho de criança, como forma de homenagear o santo que lhe havia oferecido um porão. A professora sábia e muito culta, que educou e formou sete filhos, se transformou na minha “vovó” Francisquinha.

O número 26 de rua João Diogo era o lar dos Menezes, onde o patriarca, o poeta Bruno, escreveu alguns de seus poemas mais bonitos e compôs todo o livro “11 Sonetos”, com o qual conquistou o prêmio nacional “Cidade de Ilhéus”. As meninas que brincavam de roda na porta eram Lenora e Marília, a primeira professora, pianista, concertista de nível internacional, a segunda, freira e poeta premiada. Os meninos viraram o médico José e o desembargador Stélio, ambos Menezes, claro.

Soube dessas histórias conversando com minha amiga Lenora, quando falávamos sobre o recolhimento à que estamos obrigados. Naquele tempo, as pessoas se isolavam do mundo com medo de um verme chamado Adolfo Hitler e se uniam em casa para ler, cantar e rezar. Hoje, estamos todos reclusos por conta de um vírus que matará muito menos gente do que ele, é verdade, mas que, diferente do ditador, nos está ensinando lindas lições de solidariedade.

Belém do Pará, 24 de março de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Djanira – Crianças soltando balão, s/d.

Crônica

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