São tantos medos, meu Deus…

Diário de um desespero – ou quase – XXVII

João Carlos Pereira

Sempre tive paixão por rede. Durante muitos anos, minha cama servia apenas como um depósito de livros. Eu gostava de me embalar alto, mas minha tia Marilu sempre me advertia para o risco e fazia lembrar da professora Mariana Chuva, que caiu da rede e teve um grave problema na coluna. Eu não podia me lembrar de uma pessoa a quem não conhecia e cujo nome, com o necessário respeito à sua pessoa, me assustava. Toda criatura que via na rua, corcunda, pensava que era ela. Esse foi um dos meus primeiros medos de menino. Havia até um uma espécie de jaculatória que ensinaram para ser recitada nesses encontros eventuais: “corcundinha, leva tua felicidade e traz a minha”. Eu repetia isso até a exaustação. Hoje acho ridículo e jamais diria a uma filha tamanha barbaridade. Ainda que ninguém ouvisse, me parece falta de respeito e de misericórdia. Mas, naquele tempo, o politicamente incorreto não existia.

Também tinha pavor que, numa noite, (porque visagens só atacam no escuro? Será que, como os vampiros, respeitam o sol?) alguma alma brincalhona resolvesse se pendurar nos punhos da minha rede e balançá-la, a mode, como diz o caboclo, me a dar um susto. Igualmente tinha pânico da caveira coberta com uma túnica e a foice na mão que, se aparecesse, seria para me levar com ela. Hoje, tenho medo do começo da noite, de alguém vir puxar meu pé e daquela correspondência da Receita Federal, que nunca chega para dizer que está tudo OK com a sua declaração, mas para avisar que algo deu errado e que a dívida começa a subir pelas paredes.

Cresci entre pessoas do interior, que sempre tinham caso de visagem para contar. Coisas que haviam acontecido com algum parente próximo, ou um vizinho. Histórias de Matinta ouvi a perder a conta. De Saci, então… A mesma tia Marilu que me fazia lembrar de sua antiga professora e acabar com a danação na rede não escondia de ninguém que, numa viagem ao Marajó, para passar férias na fazenda de dona Juracy Bastos, uma das criaturas mais bondosas que conheci na vida, uma santa, a bem dizer, embrenhou-se na mata com um grupo de amigos. Pelas tantas, não conseguiam voltar. Rodavam, rodavam, rodavam e o caminho, de todos velho conhecido, parecia interditado. Alguém, então, se lembrou que aquilo só podia ser arte do Saci. Juntando gravetos do chão, fez uma espécie de trançado e jogou para o mato. Enquanto o Saci se distraía com aquilo, desfazendo os nós, conseguiram voltar.

O Marajó deve ser um repositório de histórias que precisam ser contadas. Meu amigo Breno Castro já me narrou algumas, mas ali é lugar para sentar com um gravador, para quem usa essa técnica, e recolher tudo. Eu ainda me valho do meu caderno de anotações. A ilha é um ninho primoroso, precioso, rico de fatos reais, como as dos fazendeiros que a habitaram, ou vivenciados pela gente simples de lá. Não ouso escrever a palavra “imaginados”, porque com assombração não se brinca, nem dela se deve duvidar.

Nosso saudoso Walcyr Monteiro deixou um trabalho excepcional sobre visagens e assombrações de Belém e, provavelmente, ainda deve ter recolhido muito mais do que compilou em livros. Quem também sabia muita coisa do outro mundo era Maria Brígido, folclorista e modista de mão cheia. Ela estudava a cultura popular com afinco e dedicação. Nem o Walcyr, nem a Maria fizeram discípulos.

Adoro ouvir causos de visagem e de assistir a filmes de terror. Prefiro filmes de monstros, de fantasmas, de mistério, de casa mal-assombrada, mas fujo daqueles em que o mal é invocado, sobretudo os de exorcismo. Esses eu vejo com a mão na cara, olhando pelas brechas dos dedos e evitando as cenas de possessão. De dia, com a claridade espantando o tremor, ainda me arrisco. Mas, de noite, nem por nada. É batata: se eu vir filme desse tipo, antes de dormir, pode contar que vou ter pesadelo.

Não bastassem as histórias que já me atormentam o espírito, o pânico que tenho de cemitério, onde, quando preciso ir, ando sobressaltado, mais com medo de assalto do que dos mortos que por ali possam perambular, ainda dei atenção, há uns dias, para uma história sobre as santas almas vaqueiras.

Por curiosidade, ou tentação, fui atrás de saber e o máximo que consegui é que se tratava de bons vaqueiros que, depois de mortos, guardaram a profissão e andam pelo Nordeste do Brasil, ajudando as pessoas que precisam de sua ajuda. Elas, as santas almas vaqueiras, cuja oração invocatória está disponível na internet, seriam (ou são) peritas em desmanchar malfeitos, abrir caminho e proteger as casas. Dizem, até, que, de noite, lavam louça suja na pia para ajudar pessoas que moram sozinhas.

Para que, meu Deus, me diga, fui me meter a pesquisar sobre isso? Mais um medo a se alojar na minha alma. Por outro lado, não temo, pelo contrário, até peço, para, um dia, chegar em casa e, ao ligar a luz da sala, encontrar, reunidos, no sofá, meus pais, minhas tias, minha amada professora Graça Landeira, padre Luciano Ciman e d. Vicente Zico, que, de passagem pela rua, resolveram subir para me dar um abraço e bater um papo. Não sei por que estariam todos juntos e, por acaso, decidiram, ao mesmo tempo, me ver. Como isso é sonho e não verdade, não exijo lógica. Sei que esse desejo nasce da imensa saudade que tenho deles. Juro que não teria medo e espero que a visitinha não seria para avisar que minha hora está chegando. Ainda tenho muito para fazer aqui. Se Deus me der mais alguns anos, uns dez ou quinze, fico bem feliz.

Uma vez, no supermercado, na área dos iogurtes e queijos, vi desabar, do nada, uma prateleira. Como não tenho costume de achar que as almas se comunicam dessa maneira, derrubando produtos que necessitam de refrigeração, me abaixei e juntei o que era possível. Ao meu lado, uma mulher começou a esconjurar o espírito que havia feito aquilo, como se leis naturais, ou trabalho meia-sola de apertar parafusos não explicassem fenômenos dessa ordem. Meu pai, que era Kardecista, zombava desse tipo de gente e ensinava: “coitados dos espíritos, têm uma costa tão larga. Tudo é culpa deles…”

A Clarice Lispector gostava de dizer que era uma tímida ousada. Eu também me coloco nessa categoria e em outra: a de medroso com um pingo de coragem. Se precisar pegar água na cozinha, de madrugada, vou. Com preguiça, mais vou. Atravesso a sala, deixo acessa apenas uma luz e volto. O pavor da conta, no final do mês, é maior do que o de visagem. Por isso saio apagando tudo que é lâmpada. Meu pai fazia a mesma coisa e dizia que não era dono da Celpa. Hoje, eu repito seu gesto e aviso que não tenho relação estável com ninguém da concessionária, para ficar gastando energia à toa. Medo a gente controla. Consumo também.

Há uma história de visagem que eu adoro, mas não vou contar hoje porque a crônica já está meio longa. Ontem, uma pessoa reclamou que eu estava escrevendo muito. Como essa é bem comprida e cheia de detalhes, deixo para amanhã, mas adianto logo do que se trata: é o Serra Velho, uma prática estranha, da qual só tive notícia de sua realização na minha amada cidade de Bragança.

Belém, 17 de abril de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
E-mail | Facebook | Série Diário de um Desespero – ou quase

Imagem: Oswaldo Goeldi — Pesadelo, 1935 (gravura)

Crônica

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