O Cristo de todos, o Jesus de cada um

Diário de um desespero – ou quase – XXIX

João Carlos Pereira

Era julho de 1980 e Belém estava em polvorosa. Não cabia em si de alegria e de expectativa. No dia 8, a cidade receberia, explodindo de alegria, o papa João Paulo II. A visita do romano pontífice, que foi canonizado apenas cinco anos após sua morte, em 2013, nos deu a chance de poder dizer que já vimos um santo de carne e osso, com sua pela branquíssima, quase cor-de-rosa, seu sorriso de anjo, a forma silenciosa de dizer de amor apenas pelo olhar. Tudo bem que houve problemas por aqui e o Vaticano quase coloca a estada em Belém num rodapé do relatório de sua primeira viagem do Brasil. Mas a cidade jamais esquecerá as horas em que João de Deus passou entre nós.

Numa rua próxima ao local onde foi armado o altar da missa, depois rebatizada com seu nome, duas crianças conversavam perto de mim. O papo era entre eles e até para os miúdos a visita do Papa tinha interesse. Eu estava lá, acho que esperando um táxi, não me lembro mais, e pude ouvir bem o papo reto e sério dos dois. O assunto era o único do qual se falava naquele tempo, por aqui: a visita do Papa.

Um dos meninos, criado em família católica, exaltava a importância do fato, mostrando uma consciência que não possuía, mas repetida com ares de quem sabe das coisas. O outro, vindo de uma casa evangélica, escutava calado, com a cara fechada, jeito de poucos amigos. De repente, o que não se pronunciava tomou a palavra e resolveu encerrar a pregação infanto-teológica com um argumento maravilhoso: “olha, o Papa pode até ser católico, mas Jesus é crente!” Eu só não morri de rir porque ia acabar com a seriedade que o momento exigia.

Hoje é domingo e eu sinto muita falta de não poder me encontrar com Jesus – o crente – na igreja católica, numa forma que apenas os que recebem a sagrada comunhão conhecem: eucaristicamente. De casa, diante da televisão, eu O percebo e acolho de maneira espiritual, fazendo a comunhão a distância, por causa da pandemia. Domingo é dia de missa, como os outros podem ou deveriam ser, mas todo dia é dia de Jesus na vida da gente, e não importa em que religião seja manifestado ou louvado. O Jesus crente do menino é o mesmo católico de quem escolheu pertencer à Igreja romana ou de quem não vai a lugar algum, ou bate tambor, recebe caboclo ou preto velho, senta em mesa branca ou mesmo não acredita nEle ou não O conhece. Jesus é Jesus, o Cristo de Deus, o próprio Deus, segunda pessoa de uma trindade santa, e isso é tudo. Pelo menos para mim.

Antes da pandemia, quando eu podia andar livre pelas ruas, a pé, vi, nas caixas de linhas telefônicas do meu bairro, pregados nas portinholas, um cartaz onde se lia: “se Jesus fosse branco, não teria morrido na cruz”. No mínimo curiosa, a frase está repleta de verdade e de preconceitos atuais. Jesus não era branco como a inscrição garante, podem ter certeza. Mas iria para a cruz de qualquer forma, porque esse era o projeto de Deus. Ele veio ao mundo para beber deste cálice e não se afastou um centímetro. Preto, branco, amarelo, azul, qualquer que fosse sua cor de pele, terminaria no chamado “madeiro infame”, porque assim estava escrito.

Ao longo dos séculos, toda a gente que nEle crê tenta, de alguma forma, provar sua divindade ou exaltar sua humanidade. Verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Jesus de Nazaré era judeu e ia à sinagoga. Como era ou deixava de ser, não importa, mas seu rosto foi mostrado de tantas formas, que parece que nunca estamos falando da mesma pessoa.

Os profissionais que trabalham com reconstituição facial, usaram crânios encontrados na região onde Ele viveu, dois mil anos atrás, como matrizes para uma recriação de sua imagem. Parece bem diferente do “tradicional”, mas era o que a ciência podia oferecer. Em cada etapa da história, o rosto de Cristo é revelado de um jeito. O cinema o consagrou em variados artistas, mas o povo curte mesmo é o loiro de olhos azuis que, decididamente, não deveria ser. Se fosse, haveria problema?

Em agosto de 2012, um senhora de 80 anos decidiu, por conta própria, sem nenhuma habilidade com pincéis, restaurar a pintura do século XIX , na parede de uma Igreja de Borja, uma cidadezinha espanhola, com menos de cinco mil pessoas, e acabou distorcendo completamente a obra de Elias García Martinez. Ficou uma coisa medonha, à qual se poderia aplicar a máxima de que a emenda ficou um milhão de vezes pior do que o soneto e o matou (o soneto, claro) de tristeza. Na verdade, após haver acabado com o trabalho, cobriu-se de tardia vergonha, pediu desculpas, mas o estrago estava feito. Não sei se restauraram a sujeira apelidada de restauro, ou se deixaram como atração turística. Era um Cristo bonito, que em nada lembrava o de Michelângelo, na Capela Sistina, mas tinha imenso valor para aquela comunidade.

Talvez a mais bonita de todas as faces de Jesus tenha sido produzida no século XVII, pelo holandês Rembrandt, hoje no acervo de um museu em Berlim. É “A cabeça de Cristo” , pintada em 1640. O rosto aparece levemente inclinado, o olhar se perde no nada, os cabelos são longos, fartos e cacheados, a barba é curta e o bigode, estreito. Há pelo menos doze versões devocionais circulando pelo mundo, em ângulos diferentes, mas o original é maravilhoso e dá a impressão de ser um jovem judeu. Não por acaso, o artista morava no bairro judeu de Amsterdã e a gente que via passar devia guardar as linhas do rosto do seu Cristo. Se as vestes fossem atualizadas, seriam jeans ou camiseta de algodão. Um Cristo vivo, presente, comprometido com os mais pobres e com as questões verdadeiramente humanas.

Há muito tempo, comprei, num sebo carioca, um livro com imagens de Jesus, realizadas ao longo dos séculos. Me impressiona ver como os artistas, devotos ou não, perceberam e conceberam os contornos do Crucificado de maneiras tão diversas. Cada época teve o seu Cristo-modelo, mas Ele paira sobre todas, servindo de inspiração, não estética, mas de vida.

Não sei – quem sou eu para saber? – mas acho que, se Jesus viesse agora, poderia até não acabar de vez com as igrejas, porque isso seria muito radical, mas seguramente colocaria um basta na desunião entre os cristãos e acabaria com dissenções, frearia os embates entre progressistas e tradicionalistas e tiraria de cena todas as teologias que falam mais de ganhos na Terra do que no Céu. Os milagreiros de plantão teriam de prestar contas com Ele, em nome de quem diziam agir. E por falar nessas pessoas, por que ainda não começaram a recuperar a saúde de quem está com corona vírus, acabando com os hospitais de campanha para mostrar seu poder na televisão? Jesus ia fazer uma faxina tão completa, que era capaz de não restar pedra sobre pedra. Seria todo mundo enquadrado na verdade e não nas falsas promessas.

Acho que, numa segunda vinda, além de colocar ordem na casa, Jesus iria mostrar que o homem foi feito à Sua imagem e semelhança e não o contrário. A imperfeição é nossa, não dEle.

Hoje é domingo e vou comungar espiritualmente. Gostaria que fosse em espécie, mas é impossível, porque igualmente vivemos o distanciamento eucarístico. Contudo, se a fé surge como suplemento aos sentidos, ela completa o que falta, me trazendo Jesus – o crente, do meninozinho lá do começo – mas igualmente o católico, o dos cultos afro-brasileiros, o kardecista, o das igrejas irmãs ou separadas, o que existe nas imensas catedrais góticas, basílicas monumentais, nas pequeninas capelas do interior, nos oratórios domésticos, nas casas de oração do mundo, o que conhece os coração dos que O acolhem, e protege os que creem nEle, ou não, os das crianças e dos velhos, das criaturas angustiadas que somos todos nós, dos heterossexuais, dos gays, dos pobres e ricos, dos vivos, dos mortos e dos que vão morrer, que também somos todos nós – para aquietar minha alma fatigada, agora flagelada pela pandemia.

Se não quero pegar corona vírus no corpo e ter meus pulmões detonados pelo agora apresentado como inimigo invisível, muito menos desejo expor minha pobre alma aos perigos mais invisíveis e potencialmente mais mortais que esse diacho chamado (porque batizado não foi) de corona.

Como nela não posso passar álcool 70, me protejo com Jesus, o Cristo de Deus. O Redentor.

Belém, 19 de abril de 2020

79º Aniversário de Roberto Carlos

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Rembrandt (1606-1669) — Cabeça de Cristo,c. 1648 — Gemäldegalerie, Berlim

Crônica

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