Os esquecidos – ou quase – da História

Diário de um desespero – ou quase – XXXI

João Carlos Pereira

Hoje é um feriado do tipo tanto faz. Não é desmerecendo o valor do homenageado, Tiradentes, porque, feriado ou não, está tudo parado e os que podem continuam em casa. Morro de vergonha pelo ridículo do lugar comum, mas a data, em tempos normais, seria “enforcada”, como foi o pobre Tiradentes, gerando o chamado feriadão. Ou seja: o que vale é (ou seria) flautear, passarinhar, ninguém lembrando o gesto patriótico do grande Alferes.

Como quase todas as personagens de nossa História, Joaquim José da Silva Xavier padece de crônico e injusto esquecimento. Antes da pandemia, era mais quem condenava uma folga prolongada ao país. Um feriado na terça ou na quinta comprometiam a economia. E agora, que é feriado quase todo dia? Pior: o de hoje lembra um herói, um homem cuja memória precisa ser reverenciada. Mas quem se importa com os grandes brasileiros? A falta de consciência é tamanha, que o povo parece ter perdido a noção de dignidade, de honradez, de amor ao país. Eleição aprece brincadeira. Prova disso é o tipo de gente que tem sido colocada na cadeira mais importante da nação e nas do parlamento. Até parece que Tiradentes morreu em vão.

Se estudar a História do Brasil é considerada atividade enfadonha, porque ainda prevalece, hoje menos do que no passado, felizmente, o conceito de que se trata de matéria “decorativa”, como se bastasse memorizar os fatos para compreendê-los, o que dizer da história do Pará? Dessa mesma é que não se fala. Pouca gente é capaz de explicar a origem do nome da rua onde mora ou pela qual passa, exceção feita à avenida Nazaré. Mas pergunte qual a relevância de Henrique Gurjão, de Roberto Camelier, Magalhães Barata, Assis Vasconcelos ( e não de Vasconcelos) José Malcher, Dr. Moraes que a dúvida pairará no ar. E o que se diz das ruas, serve para prédios ou praças.

Quem foi Justo Chermont? E Batista Campos? E Milton Trindade (nome da Praça do Horto)? Por que razão o nome de Jhon Kennedy deu lugar ao de Waldemar Henrique, naquele espaço que deveria se chamar Praça do Congresso? Claro que, por ligações afetivas, defenderei até o fim o nome do meu Maestro querido – o maior compositor paraense de todos os tempos – em qualquer lugar. Mesmo que todas as honras lhe forem prestadas, ainda seremos devedores do tanto que fez pela arte do Estado.

O edifício da Alepa se chama “Palácio Cabanagem”. Os outros dois grandes imóveis que lhes são vizinhos e palácios de verdade são o “Lauro Sodré” e o “Antônio Lemos”. Não duvido que muitos dos que neles trabalham saibam a real importância das denominações, mas pouco se fala deles. Paraenses ilustres ganharam lauréis minúsculos. Para Gaspar Vianna, coitadinho, sobrou aquela triste rua no comércio. Não sei de uma artéria, de uma vila, de um beco, de uma mercearia, de uma taberna, de uma quitanda intitulada de Jayme Ovalle. O pobre do Sérgio Cardoso, um dos maiores atores deste país, perdeu, literalmente, para Tancredo Neves, quando ia ser reverenciado, emprestando seu nome ao Centur.

Os Romualdos – ambos Bispos, um de Seixas, outro Coelho – estão bem na foto. Só não sei explicar que diabo deu nesse povo, que fez um “up grade” maluco na carreira de Deodoro da Fonseca, outorgando-lhe a patente de Generalíssimo. Como dizia a Eneida, é o exagero amazônico dando as caras.

O desconhecimento das coisas, às vezes, beira o inacreditável. Uma amiga me contou que, procurando escola para a filha, indagou da pessoa que a recebeu se o estabelecimento já havia inserido história da África no currículo obrigatório. A senhora fez cara de paisagem e mostrou-se assustada com a pergunta. “História da África???” Talvez se tivesse ouvido História da Lua a reação fosse menor. “Não, por quê?” A senhora explicou que já era obrigatório e sua surpresa não foi menor, com justificativa: “Ah! é? Eu ainda não sabia…”

Ninguém se iluda, achando que este cronista se excluiu da lista dos ignorantes. Não consigo fazer a ligação correta e direta entre fatos e datas. Moro na rua 9 de Janeiro e não me lembrava de jeito nenhum que é referência ao dia do fico. Das minhas vizinhas 14 de março, 3 de maio, 14 de abril desconheço a relevância da láurea. 13 de Maio é fácil e 15 de novembro, também. Meu fraterno amigo Sebastião Godinho tem pelejado bravamente para trocar o nome da principal avenida da cidade de Presidente Vargas para o antigo 15 de agosto, data da adesão do Pará à Independência do Brasil, uma deslavada mentira e das mais bem contadas da História.

Há também 25 de Setembro, renomeada para “Romulo Maiorana”, bonita reverência a um dos melhores patrões que eu já tive na vida e pessoa humana extraordinária, dono de um coração imenso, que sabia ser mais do que amigo de seus colaboradores. Em muitas ocasiões, fazia as vezes de pai, de protetor. Quem trabalhou com ele conheceu esse seu lado generoso. Não havia empregado que batesse à sua porta em busca de auxílio e saísse com as mãos vazias. Tinha um pequeno estoque de cadeiras de rodas e, sempre que solicitado a ajudar alguém necessitado de uma, atendia de pronto. A troca foi mais do que justa, pelo tanto que fez por esta terra. A 1º. de Dezembro virou João Paulo II e a 22 de Junho, Alcindo Cacela.

Não me conformo com certas mudanças e resisto em chamar a antiga Independência de “Governador Magalhães Barata”. Piorou com a “São Jerônimo” que , curiosamente, não aludia ao santo que traduziu o Evangelho, mas a um político local, e acabou Governador José Malcher”. A cidade ainda precisa reconhecer muita gente de valor, que se notabilizou em diferentes área da cultura e da ciência. Ainda bem a Universidade se lembrou de dar o nome de “José da Silveira Neto” ao “campus” do Guamá. É uma injustiça a menos a ser reparada.

O caso mais famoso caso de resistência à mudança se deu graças a persistência de Benedito Nunes, que não se conformava de ver o nome de sua querida Travessa da Estrela substituído por “Mariz e Barros”. Até Haroldo Maranhão, quando lhe escrevia, colocava no envelope seu protesto. “Travessa da Estrela, indignamente chamada de Mariz e Barros”. As cartas sempre chegavam (era uma época em que os Correios funcionavam bem….) e o remetente marcava posição. Se não fosse mexer no afeto do filósofo, que adorava o nome Estrela, ia propor que aquele quarteirão, pelo menos, passasse a se chamar “Maria Sylvia & Benedito Nunes”. Mas duvido que aceitassem esse festejo municipal.

O único livro sobre o nome das ruas de Belém foi escrito por Ernesto Cruz. Já mereceu reedição, que está disponível, gratuitamente, na internet. Se alguém se dispusesse a produzir um novo, ou mesmo ampliar o já existente, faria um grande serviço à memória da capital. Mas como memória, por aqui, é artigo de segunda categoria, dificilmente aparecerão interessados em realizar a tarefa.

Enquanto isso, os legisladores vão alterando os nomes das ruas como bem entendem ou melhor lhes convêm, maculando projetos como o de cada bairro conter apenas denominações ligados a fatos importantes ou a etnias, com é o caso do Jurunas, que já está anarquizado.

Quando a memória vai embora, o futuro fica fragilizado. Ou melhor: submete-se às oportunidades do momento e, não raro, se dobra a elas.

Tenho admiração, quase devoção, por algumas personagens de nossa história. D. Pedro II, com quem me identifico imensamente. Gosto exageradamente da princesa Isabel, do Chalaça, o espertalhão que era amigo de D. Pedro I, de frei Caneca, de Angelin, de Batista Campos, de Eurico Valle, de Zumbi, de Aleijadinho, dos metres Velentim e Ataíde, de JK, de dona Beja, a feiticeira de Araxá, e de Tiradentes, a personalidade do dia, além de alguns outros.

De Tiradentes a gente conhece apenas a valentia, que se colocava em contraponto à canalhice de Silvério dos Reis, o Judas brasileiro. Não que Joaquim José da Silva Xavier fosse Jesus, mas o nome Silvério dos Reis entrou para a língua portuguesa como sinônimo da traição. Nunca li uma biografia séria de Tiradentes, mas sempre gostei dele. Se fosse nordestino, ia ser chamado de cabra macho, porque desafiou a coroa portuguesa e não recuou, quando seu plano não deu certo.

Na hora em que precisava do apoio dos companheiros, ficou abandonado à própria sorte. Foram as mulheres, porém, que mostraram coragem, ao se aproximar dele. Uma senhora chamada Inácia Gertrudes Almeida o escondeu, no Rio de Janeiro. A viúva extraoficial do Alferes, Antônia Maria do Espírito Santo, jamais conseguiu que ele formalizasse a união, da qual nasceu Joaquina. As duas penaram bastante e ficaram apenas com um terreno, que o “marido” colocou em seu nome, antes de separarem.

Nunca o machismo foi tão benéfico para as mulheres como nesse tempo. Quando havia esposas ou filhas envolvidas nos processos, a Coroa passava por cima delas e ia atrás dos filhos. Elas eram escamoteadas, porque, com certeza, não serviam, na visão da época, para grande coisa.

Em Belém, o escritor Agildo Monteiro teve acesso a todos os autos da devassa e escreveu um livro sobre o advogado dos Inconfidentes, o Dr. Fagundes, nome com o qual o poeta Alonso Rocha passou a chamá-lo, de forma bem-humorada, como forma de dignificar a pesquisa. A obra ainda espera por reconhecimento nacional e por uma boa editora que a projete, porque o trabalho é realmente bom e nunca, antes dele, ninguém tocou no assunto.

Ainda bem que ninguém, por aqui, quis mexer no nome do herói da Inconfidência, dado a uma rua central. Ele bem que merecia uma artéria maior, mais larga, mais bonita, digna da dimensão de seu gesto.

Belém, 21 de abril de 2020

Dia de Tiradentes e aniversário de Brasília.
Dia de Santo Anselmo, um italiano nascido em 1033, que saiu de casa brigado com o pai, acabou bispo da Cantuária e entrou para a lista dos santos.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Antônio Parreiras — Prisão de Tiradentes, 1914

Crônica

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