O prazer de ir à missa e de ver pela TV

Diário de um desespero – ou quase – II

João Carlos Pereira

É difícil, muito difícil, ser domingo e não ter ido à missa. Não é nada assemelhado com a percepção de quebrar um hábito, de sair de uma rotina de tanto tempo. Não ir à missa é uma ausência. Uma trincheira montada diante da necessidade de caminhar ao encontro da felicidade e ficar retido a dois passos dela. Um vazio escuro, como um abismo em plena tarde.

Ir à missa nunca foi, ao menos para mim, uma obrigação. Ia (e irei) por absoluta necessidade. Por inteiro compromisso com minha fé. Não é um programa de domingo, tampouco uma lição que se adianta, a partir do meio-dia de sábado, para estar “livre” no dia seguinte. Me lembro do que dizia o querido e saudosíssimo padre Luciano, Luciano Cimam, jesuíta da capela de Lourdes e santo, quando lhe perguntavam se a missa de sábado valia para domingo. Naquela calma e com o mesmo bom humor do papa Francisco, seu colega de ordem, respondia com outra pergunta: “se você almoçar no sábado, não precisa almoçar no domingo?”

Como já passei dos sessenta e tenho o coração todo costurado, caí duas vezes no chamado grupo de risco, que deve ficar em casa, custe o que custar, e assistir à sagrada celebração pela televisão, para me precaver do coronavírus. Claro que não é a mesma coisa, mas é muito bom. A TV mostra tudo, e mostra bem, mas, como dizem os repórteres que fazem matéria de culinária, para matar o telespectador de inveja, pena que não se possa sentir o cheiro. Missa não tem cheiro, eu sei, mas o delicado perfume que exala de cada gesto do altar, sobretudo na hora da Consagração, não há tecnologia que reproduza.

Uma vez, na Turquia, visitei a casa de Nossa Senhora. É uma construção acanhada, do tipo “minha casa, minha vida”, comum naqueles tempos, que, naturalmente, não preserva as paredes originais onde a Mãe de Jesus pode ter se encostado um dia. Ela morava ali, com são João, e caminhava pelo quintal e pelo jardim, lindamente reconstituídos. Se a casa não é a mesma, se as paredes foram refeitas e, em vez de lar, virou capela, pouco importa. O que conta é que, ao andar pelas cercanias, respira-se um ar de santidade e de amor tão intensos, que não há como não ter certeza de que a Virgem Maria caminhou por ali. Sua presença é tão forte, que não restam espaços para dúvidas.

Idêntica sensação experimento em Lourdes, na França, onde tenho tido a graça de voltar repetidas vezes para rezar no lugar onde a Imaculada Conceição apresentou-se à Bernadette Soubirous. O lugar é santo e igualmente percebo que Nossa Senhora esteve ali. Há uma leve brisa, uma fragrância tão suave, diferente, especial, que permite a certeza de que a Virgem Maria esteve lá….

Na Turquia já se passaram mais de dois mil anos. Em Lourdes, “apenas” 162. E como podem recender de forma diferente os locais sagrados? Essa é uma resposta que gostaria de ter, porque não é apenas percepção. No meu caso foi certeza. E ela se repete todas as vezes que retorno à gruta que um dia se chamou Massabielle e, hoje, tem o nome de Lourdes. De Nossa Senhora de Lourdes.

Com a missa se dá o mesmo. Outro dia, recebi um vídeo, pelo telefone, mostrando a presença de anjos e de santos no altar, enquanto o sacerdote presidia o ofício divino. Claro que não era manifestação do sobrenatural que, para o católico, deve ser tão natural como sangue e veias. Tratava-se de uma produção que, de tão bonita, parecia real.

Se o depoimento de católicos não basta, me valho de uma declaração de Chico Xavier, disponível na internet, sobre a importância da Hóstia Consagrada. Ele disse que foi informado de que seres espirituais, de condição superior, percebiam pétalas de rosas no cálice onde estavam as partículas, representando o Corpo e o Sangue de Cristo.

A metáfora é larga e profunda e vale a pena mergulhar no sentido místico do maior mistério da nossa fé. A suavidade e a delicadeza de uma pétala talvez expliquem o sublime odor que a TV não capta, mas existe.

Belém do Pará, 22 de março de 2020.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Hora da Missa – Ado Malagoli (1906 – 1994)

Crônica

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