Categoria: Arte e Cultura

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Planos para o primeiro dia de liberdade

Eu também irei à igreja assim que permitirem, numa hora que, espero, não haja muita gente, tipo depois do almoço, mas não pegarei o carro, nem que esteja chovendo. Vou a pé, com guarda-chuva ou me molhando, para poder reencontrar a paisagem humana que sumiu dos meus olhos há dois meses e na qual penso, com preocupação.

Diário de um desespero – ou quase - LIV

— João Carlos Pereira

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Os astros do humor infantil e o palhaço que sofre na esquina

Como não posso navegar de verdade, chego à janela e sinto que se transmuta em barquinho, no melhor faz-de-conta que pode haver. Foi justamente numa dessas fugidas que vi um palhaço, meu velho conhecido, embora jamais tenhamos trocado um sorriso, que pintava o rosto sentado ao pé de uma mangueira, em frente ao Museu.

Diário de um desespero – ou quase - LII

— João Carlos Pereira

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De como nascem as palavras ou como se criam expressões

Para celebrar a vida e o fato de haver chegado inteiro - ou quase (sempre há um diabo de quase nas minhas histórias) à quinquagésima crônica, essa estranha letra L, em algarismo romano, que não coincide com o número de dias de isolamento, talvez 53, não sei, mas o certo é que “Diário” surgiu, depois de haver sido decretada a prisão domiciliar, passo a contar a transformação de provérbios curiosos e de algumas palavras, cuja raiz é ainda mais curiosa.

Diário de um desespero – ou quase - L

— João Carlos Pereira

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Entre meter o pé na jaca, o sacerdócio e quase virar dotô

Não me conformo com pessoas dizendo que português é difícil. Difícil é russo; difícil é japonês. Português é uma língua maravilhosa, plástica, sonora, doce, musical, acessível, elegante, mas que apanha todos os dias da falta de apreço. Na verdade, não é apenas falta de apreço: é excesso de chatice das aulas de gramática. Muito não pode; o certo e o errado demais. Mais nota baixa do que incentivo.

Diário de um desespero – ou quase - XLIX

— João Carlos Pereira

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A ambulância corta a noite e eu espero Van Gogh

Não sei por qual razão, mas acho que a morte, traiçoeira, cadela cada dia mais faminta, de que falava Mário Faustino, prefere agir nas sombras. Ela e a bruxa cega, sua parceira mesquinha, que toca qualquer um indiscriminadamente, apenas para transmitir a miséria de sua colega esquelética, estão com a corda toda.

Diário de um desespero – ou quase - XLVIII

— João Carlos Pereira

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As três mulheres do quarto de Mario Quintana

Eram três mulheres lindas, com a beleza realçada pelo preto & branco nítido, como igualmente nítida devia ser a saudade do poeta ou a paixão que sentia por elas: Cecília Meireles, Bruna Lombardi e Greta Garbo. Não eram as três mulheres do sabonete Araxá, para a quais Manoel Bandeira compôs uma balada. Eram as três mais belas canções que Quintana jamais escreveu.

Diário de um desespero – ou quase - XLVII

— João Carlos Pereira

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A menina seca atrás da porta, em Santo Alexandre

Falavam em casa, e eu, que sempre adorei ficar escutando conversa de adulto, justamente porque era proibido e toda informação era mal elaborada, ouvi, sem querer, a história da menina que secou, no exato momento em que tentou agredir a mãe, com uma vassoura, tamanha sexta-feira da Paixão. Como um castigo divino, um raio paralisante caiu-lhe sobre a cabeça e ela murchou. Mumificou-se todinha.

Diário de um desespero – ou quase - XLVI

— João Carlos Pereira

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