A ambulância corta a noite e eu espero Van Gogh

Diário de um desespero – ou quase – XLVIII

João Carlos Pereira

Moro perto de quatro hospitais e nunca havia me dado conta dessa vizinhança. Um é pequeno e fica a uma quadra e meia de casa. O outro, enorme, dista um quarteirão de nosso jardim. Os demais estão a cerca de 500 metros, um colado no outro. Em tempos normais, às vezes parecem invisíveis, de tão integrados que estão à paisagem do bairro. Agora, não apenas se destacam aos olhos, mas, sobretudo, aos ouvidos.

Durante o dia, a movimentação de veículos, embora pouca, disfarça um pouco os sons da agonia, da pressa e da morte. Mas é de noite, com tudo mais quieto, quase parado, que consigo distinguir, de forma cada vez mais constante, o apito das sirenes. Ontem, elas passavam quase uma atrás de outra, em desabalada carreira, levando pacientes com a vã esperança do leito inexistente.

É impossível não olhar para os modernos veículos de socorro, com condições de manter o doente estável, com oxigênio, médicos, enfermeiros e muitos recursos que ajudam a garantir a vida de quem é removido, sem pensar no passado. Antigamente, bem antigamente, havia tão poucas ambulâncias na cidade que, quando passava uma, era quase uma atração. Naquele tempo, elas tinham até outro nome. Chamavam-se “assistência” e para médicos usavam-se dois sinônimos bem estranhos: esculápio ou facultativo.

Quando passava uma assistência, pelas ruas sem asfalto do bairro de Nazaré, podia contar que o caso era grave. Tão estranho quanto as assistências, charangas pintadas de branco, com uma cigarra presa a uma boquinha de ferro, no alto, gritando uóóóóóoó repetidas vezes, como se fosse o apito de um velho trem, era o carro fúnebre da Santa Casa, que tornava a morte ainda mais pavorosa. Assemelhava-se um imenso aquário retangular, emoldurado em madeira, com enfeites na parte de cima e cortinado roxo no interior. Se havia coroas, o que era raro, penduravam-nas nos aplique exteriores. O caixão ia à mostra, desfilando a morbidez da cena, como que a lembrar o futuro comum, quando todos estaremos ali, fazendo o mesmo papel de, mortos, mortinhos.

Lembro dessa cena agora, quando ando com os nervos à flor da pele. Para onde me viro, vejo mortos. Não ao meu lado, claro, mas os nomes e, às vezes, fotos, na tela do celular. Na televisão, a pandemia é o único assunto possível, junto com a insistência do presidente em minimizar tudo e deixar o país mais aflito. Há alguns dias, um fanático seguidor dos seus destemperos teve a coragem de me dizer: “se ele sai sem máscara, eu também saio. Se ele pega nas pessoas, também vou pegar. Se ele diz que é uma gripezinha, tomo vitamina C e pronto”. É a deseducação pelo exemplo e, quem contestar, ganha carteira de comunista na hora.

A todo instante sei da notícia de que alguém próximo morreu de covid-19. Tenho a sensação de que o cerco está se fechando e, não demora, a vítima serei eu. Uma fila macabra, que se move em todas as direções, como tentáculos de um polvo implacável. Quando isso tudo acabar, e se sobreviver, estarei cheio de tocs de limpeza, com uma máscara presa para sempre na cara – logo eu, que lutei tanto para retirar as que grudei na face para me proteger do mundo e me artificializar – e sem marcas digitais, de tanto esfreguei as mãos com sabão e álcool 70.

Quando começa a escurecer, vai me dando um pânico tão grande, que penso na morte iminente, não pela falta de oxigenação no sangue, mas de medo. Dá uma taquicardia, um monte de tanta coisa, tudo psicológico, por que, não demora, passa. Não sei por qual razão, mas acho que a morte, traiçoeira, cadela cada dia mais faminta, de que falava Mário Faustino, prefere agir nas sombras. Ela e a bruxa cega, sua parceira mesquinha, que toca qualquer um indiscriminadamente, apenas para transmitir a miséria de sua colega esquelética, estão com a corda toda. A bruxa cega rodopia freneticamente pelas salas da vida, exalando desgraças. Em quem encosta, como se fosse uma bola dos antigos fliperamas, que ia para cá e para lá, birutinha, acende a vela roxa e o sujeito está liquidado. À noite, na minha cabeça, elas agem com mais liberdade. Mas isso é bobagem. Morre-se a qualquer hora.

Para me distrair, escrevo. Escrevo obsessivamente. Leio dois livros ao mesmo tempo. Vejo “Fina Estampa” e cozinho. Na cama, tenho vontade de me cobrir dos pés à cabeça, para me esconder do corona vírus amaldiçoado. Dele e de sua madrinha- protetora: a morte. Minha mulher sente vontade de se colocar debaixo da cama. Parecemos duas crianças amedrontadas, que temem encontrar um monstro atrás da porta ou dentro do guarda-roupa.

Em algumas madrugadas, os bichos do Museu parece que veem visagem e gritam feitos uns alucinados. O barulho é tamanho que, mesmo com a janela fechada e o ar ligado, eu escuto. De manhã, quando desperto, vou abrindo os olhos lentamente, para ter a certeza de que ainda faço parte desta vida e não despertei – como assim espero e desejo – no céu. Com a rua sem muitos carros, consigo escutar os passarinhos que ficam pendurados na sacada, cantam e depois vão embora. Está horrível viver assim, mas com certeza é pior morrer de covid, batendo de porta em porta de hospital, atrás de leito ou de uti´s sem vaga.

Deitado na rede, aproveitando um pouco da brisa que chega gelada, entre a novela das sete e a das nove, tento me concentrar na leitura, mas não consigo escapar do desejo de já ser setembro, outubro, com ou sem Círio, dezembro, todos, enfim, reunidos, lembrando de como foram difíceis esses tempos. Mas por maior que seja minha capacidade de abstração e por mais larga a disposição para fugir da realidade, não consigo antever um amanhã sorridente. Nãos e trata de um pessimismo atroz, mas de tensão, nervoso, angústia que se colocam entre a noite e a aurora.

Por muito tempo, gostei de usar uma frase de Dostoiévski para lembrar, romanticamente, que apenas a beleza poderia salvar o mundo. Não por acaso, porque nada é por acaso, chegou uma noticia de que já há data certa para a grande exposição de telas de Vincent Van Gogh, no Brasil. Será em 2025. Não sei se, com o euro do jeito que está, conseguirei voltar a Amsterdã antes disso, para retornar, com muito mais calma, ao museu a ele dedicado.

Se não pude vislumbrar o natal deste ano, pelo menos já me animei a comprar passagem para São Paulo e enfrentar horas na fila, a fim de me reencontrar com a beleza que Van Gogh produziu, atormentado, pressionado, preso nele mesmo, afogando-se em seu mar de aflições revoltas.

Van Gogh é o ícone desse tempo.

Van Gogh é um sonho que vou acalentar por mais quatro anos e meio.

Pela beleza da vida, valerá a pena esperar.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
E-mail | Facebook | Série Diário de um Desespero – ou quase

Imagem: Manabu Mabe — Agonia, 1963.

Crônica

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