De como nascem as palavras ou como se criam expressões

Diário de um desespero – ou quase – L

João Carlos Pereira

O professor Inocêncio Machado Coelho era um homem de muito saber. Antes de conhecê-lo pessoalmente, no final da década de 70, quando comecei a frequentar sua casa, por conta da amizade com minha professora Célia Coelho Bassalo, já o admirava. Meu pai só dizia coisas bonitas a seu respeito. Tratava-se do pai do Geraldo e sogro do Pedro Pinho, fraternos amigos com quem ouvia e discutia música clássica. Para mim, sempre foi “seu” Machado, o intelectual refinado, responsável pela implantação da Aliança Francesa entre nós. O mesmo homem simples, a quem a França reconheceu o brilho, outorgando-lhe a “Légion d´honneur”, limpava com cuidado suas obras de arte e recebia os amigos, que acabaram transformando o número 629 da avenida governador “José Malcher”, a eterna “São Jerônimo”, numa Academia iluminada. Nesses e em muitos momentos, contava histórias para os filhos, que as repassaram para os amigos, como Rosa Coelho de Assis fez comigo, ontem.

Emocionada, ela recordava o pai, com quem conversava horas a fio, ouvindo e aprendendo. Umas coisas de que ele mais gostava era desfiar o novelo que envolvia alguns ditados muito conhecidos, cuja origem se perdeu no tempo. Não há quem não aprecie, não se divirta, não se delicie com essas narrativas curiosas, numa espécie de arqueologia da fala, “da língua errada do povo”, como disse Manuel Bandeira.

Para celebrar a vida e o fato de haver chegado inteiro – ou quase (sempre há um diabo de quase nas minhas histórias) à quinquagésima crônica, essa estranha letra L, em algarismo romano, que não coincide com o número de dias de isolamento, talvez 53, não sei, mas o certo é que “Diário” surgiu, depois de haver sido decretada a prisão domiciliar, passo a contar a transformação de provérbios curiosos e de algumas palavras, cuja raiz é ainda mais curiosa. Umas me foram relatadas pela Rosa Assis, querida professora na Universidade, que as ouviu do pai; uma, do amigo Célio Simões e outras que eu pesquisei, porque também adoro esse tipo de peça, que não se acha em antiquários.

Quando o porto de Belém começou a funcionar plenamente, surgiu na cidade uma expressão nova: “mármore de carrada”. Os ouvidos mais refinados, habituados ao certo, mármore de carrara, de procedência italiana e um luxo para poucos, estranhavam a nova modalidade da pedra que vinha nos navios. O povo não compreendia palavra “carrara” e, como desembarcavam carradas de pedra, era mais fácil mudar carrara para carrada, fazendo referência à quantidade. Belém foi, por muito tempo, a única cidade do planeta a ter um tipo único de mármore: o de carrada.

Ligada a esse material aparece “cuspido e escarrado”. Quando uma pessoa é muito parecida com outra, em geral filho é a cara do pai, se diz que é “cuspido e escarrado”, como, se em vez de vez de haver chegado a este mundo pelas vias normais, brotou do cuspe ou do escarro paternos. Para tão perfeita cópia, só mesmo sendo desse jeito. Novamente o ouvido torto do povo mudou tudo. Esculpido virou cuspido; em carrara, escarrado. É uma coisa bem nojenta, mas até hoje se fala assim, quando o ideal seria “fulano é tão igual, que parece que foi esculpido em carrara”. Mas onde que alguém vai falar assim ?

Esse mesmo ditado possui outra versão, “Cuspido e escarrado” é uma “evolução”, digamos assim, de “esculpido e encarnado”. Com um palavrório tão complexo, foi remodelado, com licença do trocadilho, para o tal de “cuspido e escarrado”. Na arte de fazer estátuas de madeira, o escultor primeiro entalha, depois tira os excessos, lixa e dá a forma humana. Em seguida, ele mesmo, ou alguém com mais habilidades em pintura, “encarna”, isto é, dá cor de carne à figura. Seja em madeira, seja em carrara, já sabe no que acaba. Numa nojeira.

Outro dia, expliquei, graças ao Felipe Mello, que “pé na jaca” deriva de “pé na jacá”, a cesta de vime que é pendurada no lombo do cavalo. O vaqueiro, depois de tomar algumas talagadas de cana, sobe o animal, mais para lá do que para cá, enfia o pé na jacá e assim vai. Mas e pé de moleque? A explicação veio da lavra do Célio Simões, imortal da APL e querido amigo.

Na Bahia colonial, as mulheres faziam um doce à base de açúcar e amendoim, vendido nas ruas em tabuleiro, na forma de quadradinhos. Os moleques de então, doidos pela iguaria, mas sempre sem dinheiro, davam um jeito de roubar um pedacinho. Quando eram flagrados, escutavam a reprimenda: “não rouba! Pede, moleque, pede!”. O verbo pedir virou pé. A vírgula desapareceu e o conselho “pede, moleque” evoluiu para o nome composto “pé de moleque”, que, aliás, nada tem a ver com o pé do moleque.

Ainda no tema pé, Rosa Assis me ensinou e mandou a foto do instrumento que suscitou o xingamento “pé-rapado”, que quer dizer muito pobre. “Fulana vai casar com aquele pé-rapado….” Isso era uma grande humilhação. Ser pobre era uma coisa, mas pé-rapado é muito mais ultrajante. A razão de um pé rapado, ou melhor, raspado, acabar como sinônimo de pobretão quase se perdeu no tempo, mas o instrumento de desvalorização ainda existe até hoje.

Quando um pobre precisava entrar na igreja e vinha com sapato sujo de lama, devia, antes, raspar o solado num instrumento de metal, fincado à porta do templo, semelhante a uma calçadeira com base. Com as borda superiores afiadas, servia para a limpeza do pisante dos que caminhavam a pé, sobre o chão lamacento. Logo, só raspava o pé um sujeito pobre. Um “pé-rapado”. Os ricos, montados no cavalo, não se enlameavam, por isso dispensavam o raspador. Rico não rapava, ou raspava, o pé.

Hoje, alguns ricos ostentam essa condição porque rasparam cofres públicos. São pé-rapados morais.

Protestos contra o império romano eram muito comuns por parte dos povos dominados. Por isso, quem tinha razão, coragem e boca vaiava a cidade eterna. O “quem tem boca vai a Roma”, o que viaja para a capital da Itália, nasceu de uma forma de protesto – o verbo vaiar. Assim, quem tem boca (e coragem, repito) vaia Roma.

O conhecido “ouvido de mercador” foi gerado de uma frase distante. O credor ruim, o mau credor, se faz insensível aos apelos do devedor para que suavize sua dívida e finge não ouvir a súplica. O ouvido do mau credor é, agora, o do mercador, que também finge não escutar um pedido e dá as costas a uma solicitação.

Meu pai se divertia, contando a história de uma senhora, cria antiga da casa de sua avó, acho que se chamava dona Sianinha. Uma vez, ela lhe apareceu em sonho para ensinar um santo remédio contra pressão alta: chá de erva de jaboti. Dito e feito! Preparado o chá, a pressão voltou ao normal. Essa criatura falava uma frase, cujo significado ele entendia, mas jamais foi capaz de encontrar lógica. Seu propósito era dizer que, quem saía aos seus, não degenerava. O verbo degenerar era empolado demais para caber em sua boca de preta velha e, simplesmente, estranhamente, foi mudado para Rio de Janeiro. Assim apareceu o “quem sai aos seus….Rio de Janeiro”, de uso puramente doméstico e sepultado, como grande mistério, com sua criadora e citadora exclusiva.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Manabu Mabe — Sem título, 1970.

Crônica

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