Os astros do humor infantil e o palhaço que sofre na esquina

Diário de um desespero – ou quase – LII

João Carlos Pereira

O rio da minha aldeia, o mais belo de todos, agora passa, a bem dizer, diante do jardim. Nunca ele foi tão importante como hoje. Eu o vejo com enorme vontade de acariciá-lo, porque alterou o curso apenas para esse instante de impossível ternura. O rio da minha aldeia é sem nome e é nele que embarco, quando preciso fugir da realidade. Não tenho o mundo ideal criado por Manuel Bandeira, “Pasárgada”; ou a de Eneida, batizado de “Aruanda”, uma terra de refúgio, silêncios e paz. É nesse solo ainda pagão que nasce o rio da minha aldeia.

Como não posso navegar de verdade, chego à janela e sinto que se transmuta em barquinho, no melhor faz-de-conta que pode haver. Foi justamente numa dessas fugidas que vi um palhaço, meu velho conhecido, embora jamais tenhamos trocado um sorriso, que pintava o rosto sentado ao pé de uma mangueira, em frente ao Museu.

Quando ainda era possível caminhar na rua, eu o via chegar cedo e mudar o a face sem nenhuma alegria. Suas feições, ao natural, eram duras. Diante de um caco de espelho, virava um sujeito alegre, que fazia gracinhas para as crianças, enquanto praticamente empurrava-lhes os balões ou as borboletas de madeira, cujo encontro das asas produzia um tec-tec-tec a partir de tampinha de refrigerante.

O palhaço sem nome dava alegria às crianças e aperreio aos pais. O dinheiro pouco não era para aqueles pequenos luxos, mas a pressão forte e a negativa faziam os pequenos caírem no berreiro. Quanto mais o pequenino chorava, mais o pai se aborrecia e acabava comprando. O palhaço, indiferente às dificuldades alheias, estimulava, habilmente, a compra. Não posso condená-lo por isso. Estava defendendo seu lado em meio à grande concorrência dos vendedores de lanches e de outros brinquedinhos.

Na semana passada, o palhaço sem nome e sem rosto estendia a mão à caridade, pedindo dinheiro numa esquina do bairro. Ele mostrava um cartaz, cuja mensagem não consegui ler, mas com certeza era a explicação de penúria, junto com pedido de ajuda. Os rápidos espetáculos de malabaristas sumiram das faixas de pedestres. Os mendigos foram embora. Os estudantes, sempre em busca de um auxílio para algum congresso, assim como os judocas em seus quimonos encardidos, igualmente precisando de dinheiro para viajar, evaporaram-se. Restou o palhaço.

Do meu tempo de menino vem a lembrança da dupla Nequinho e Alecrim. A TV Marajoara os transformou em celebridades. Nequinho morreu, ficou o Alecrim, que apresentava um programa chamado “clube da criança” e distribuía “um quilo” de bombons, entregue pela “secretáááriiiaaaa” (era assim, espichando as sílabas, que ele a chamava) presente para quem se apresentava. No saquinho vinham cinco ou seis bombons. Nunca poucos gramas representaram tão bem a medida completa. Eu mesmo, quando fui cantar lá, recebi o meu “quilo”.

O palhaço-esmoler precisa sobreviver. Todos precisamos. Mas a situação dele é mais grave. Como pode fazer alguém rir – essa é a razão da sua pobre existência – quando o único sentimento que inspira, com ar desesperado, é a piedade?


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Manabu Mabe — Ternura, 1955.

Crônica

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