As três mulheres do quarto de Mario Quintana

Diário de um desespero – ou quase – XLVII

João Carlos Pereira

Era julho e eu estava mais apaixonado do que nunca pela poesia de Mario Quintana. Talvez fosse 1984, ou 1985, não lembro ao certo, e dispunha de um mês inteiro de férias. Lucy Teixeira, minha amiga querida, também compartilhava do mesmo sentimento e das mesmas loucuras. Nos conhecemos em 1979, quando ela ingressou no curso de Letras. Eu já era veterano, nessa época, e nunca mais nos separamos. Nossa amizade já tem quarenta e um anos. Se passarmos um dia sem uma ligação, vem logo a mensagem: “estás doente”?

No começo do ano, planejamos viajar em julho. O destino era o sul do Brasil, a Serra Gaúcha, com parada de um dia em Porto Alegre. Dinheiro para tanto não havia. Mas uma empresa de turismo oferecia pacote de duas semanas, se não me engano, e financiava tudo em 10 vezes, pelo Bradesco. Lá fomos nós, com a maior vergonha do mundo, pedir dinheiro emprestado para viajar.

A aventura começou em São Paulo, de onde sairia o ônibus. Na véspera, a Lucy me preveniu. “Compra logo o bilhete do metrô, porque é capaz de amanhã ter fila”. Descansado, vendo que, naquela hora, umas três da tarde, os guichês estavam vazios, julguei que, no dia seguinte, seria igualzinho. Me estrepei. Havia uma fila tão grande, maior que essas de agora, diante da Caixa, para o povo receber os 600 reais do governo. Minha amiga fechou a cara. Perdemos uns bons 15 minutos. Quando, enfim, embarcamos, o metrô parou, simplesmente parou, no meio dos trilhos. Ficou assim o tempo necessário para o pânico começar a fazer efeito. Já estávamos atrasados para a viagem e, como pensávamos que pontualidade fosse o forte de empresa, entramos no modo agonia.

Já conformado que havíamos perdido a viagem, o dinheiro, as férias, tudo, eu me pegava com todos os santos, inclusive a popularíssima, à época, Escrava Anastácia, implorando para que o grupo nos aguardasse. Mal chegamos ao lugar combinado, vimos as malas ainda sendo arrumadas no bagageiro e, por incrível que pareça, não fomos os últimos. Era um bom sinal de que a viagem traria alegrias.

A excursão toda foi muito boa e o roteiro não havia sido escolhido apenas pela possibilidade de vermos neve, na cidade de São Joaquim. Queríamos, sobretudo, chegando a Porto Alegre, visitar o poeta do nosso coração. No espaço destinada ao city-tour, um domingo à tarde, quando tudo estava fechado, a guia ainda tentou, inutilmente, nos convencer a olhar a cidade pela janela do ônibus, com um argumento risível: “mas vocês vão perder Porto Alegre”? Deu tanta ênfase ao nome da capital do Rio Grande, que julguei ter ouvido Paris. Minha resposta, lembrou a Lucy um dia desses, foi esta: “Porto Alegre sempre estará aqui. O Mario Quintana, não”. E mesmo que fosse Paris, eu abriria mão de seus encantos apenas pelo meu Quintana.

Com a cara e a pouca coragem que havia em mim, nos mandamos, de ônibus, para o hotel onde ele morava. Não marcamos hora, não pensamos na possibilidade de que estivesse doente ou que, simplesmente, não recebesse pessoas. Apenas fomos. Quando chegamos ao seu andar, meu nervosismo era aparente. Tão aparente que a Lucy percebeu: “estás tenso”? Na ocasião, besta, eu não admitia fraquezas e disse uma meia-verdade: “pouquinho”. Mentira. Eu estava me tremendo.

Fomos recebidos por uma criatura encantadora, tímida, bonita, chamada Elena. Elena Quintana. Era sobrinha do poeta, que pediu para aguardarmos um pouquinho, enquanto o “tio Mário se preparava”. Meu Deus! O plano havia dado certo. Mario Quintana nos receberia. Acho que o fato de havermos atravessado o país de norte a sul facilitou o acesso. O fato de gente do Pará haver se deslocado até o Rio Grande, apenas para vê-lo, ajudou a abrir as portas.

Meu coração batia acelerado, enquanto conversávamos amenidades. Antes de entrarmos, apareceu Leonel, um dos muitos meninos que abria mão de algumas horas de seu repouso ou lazer, para fazer revezamento com pessoas que largavam tudo para ser acompanhantes do poeta. Naquele instante, achei que todos os homens do Rio Grande se chamavam Leonel, em homenagem ao Brizola. Por isso jamais esqueci seu nome. Era tanta gente, tanta gente, na lista de voluntários, que Elena precisava organizar uma escala. Muitos, Mario Quintana nem via, porque ficam lá enquanto dormia, iam embora e ele não havia acordado. Mas o prazer de velar o sono daquele homem pequenino, já com muita idade, mais com jeito de anjo do que de gente, estava acima de qualquer coisa.

Perguntei se podia pedir um autógrafo e Elena disse que sim, mas precisava de um livro. “Tio Mario não gosta de assinar papeis em branco”. Mas que livro? Na agonia de vê-lo, nem pensamos nisso. Domingo à tarde, onde encontrar livraria aberta? No shopping, diria o leitor de hoje. Mas onde era o shopping? Quem tem um encontro com Mario Quintana, vai pensar em shopping?

Quando finalmente fomos chamados, ele nos recebeu com um sorriso tão bonito, tão suave, tão doce, que eu não queria acreditar. Estava diante do meu poeta muito amado. Tinha a sensação de que havia atravessado um portal de poesia e ingressado num paraíso, em cuja entrada havia pendurada uma placa com o nome “Mario Quintana”.

Conversamos sobre muitas coisas, mas não ficamos a tarde toda, porque ele precisava comer. Mesmo recluso, havia conquistado uma liberdade rara. Fazia o que era possível, por causa da idade e da dificuldade de locomoção, mas apenas o que desejava. Se despertasse, às 3 de manhã, com vontade de tomar café, era isso que lhe serviam. Almoço e jantar eram refeições para serem oferecidas a qualquer momento. Ou 5 da tarde, ou 9 da manhã, não interessava. Dormir e acordar eram procedimentos que zombavam do padrão.

Não sei por que razão, falamos de crítica literária e quis saber como ele reagia aos enormes pedidos para avaliasse poemas que não paravam de chegar. Mario iluminou os olhos azuis, deu um sorriso maroto e, como se fosse confessar uma peraltice de infância, disse, pausadamente, naquele seu lindo sotaque gaúcho: “olhe, é fácil. Para não desagradar a pessoa, eu falo assim: seus poemas são leves, leves, leves… como as nuvens. O poeta ficava feliz da vida, me agradecia e ia embora. Mas o que eu queria dizer era que, como as nuvens, eles não tinham nada dentro”. Foi uma risada geral no quarto.

Já menos tenso, mas ainda com medo que ele recusasse o autógrafo, perguntei se podia fazer uma dedicatória numa folha de papel. O poeta foi delicado e escreveu alguma coisa bem bonita. Guardei tão bem essa preciosidade que, outro dia, achei e escondi não lembro onde. Quando achar novamente, vou scaneá-la e colocar num quadro. Fizemos algumas fotos, que, confesso, perdi, mas para que quero fotos, se tenho todos os detalhes do encontro preservados no meu coração?

Nos despedimos de Mario Quintana, cujo rosto parecia iluminado pelo cabelo fininho e branco, de Elena, de Leonel e voltamos para o hotel, onde o grupo já deveria estar, preparando-se para o jantar. Quando contamos que havíamos estado com Mario Quintana, muitos fizeram cara de espanto, sem sequer imaginar de quem falávamos. Creio mesmo que não sabiam de quem se tratava. Perdemos Porto Alegre, sim, mas ganhamos uma memória única, de um poeta único.

Da visita, além dos dedinhos amarelados de tanta nicotina, um aspecto me chamou atenção: os três pôsteres que ornamentavam a parede onde a cama estava encostada e sob a qual ele dormia. Eram três mulheres lindas, com a beleza realçada pelo preto & branco nítido, como igualmente nítida devia ser a saudade do poeta ou a paixão que sentia por elas: Cecília Meireles, Bruna Lombardi e Greta Garbo. Não eram as três mulheres do sabonete Araxá, para a quais Manoel Bandeira compôs uma balada. Eram as três mais belas canções que Quintana jamais escreveu.

Eram as três mais belas canções que Quintana jamais escreveu

Mario morreu aos 88 anos, no dia 5 de maio de 1994, em Porto Alegre. Ontem foi o 26º. aniversário do silêncio definitivo de sua voz. Naquele dia, eu lembro, estava na cidade de São Francisco do Pará, para onde havia sido levado para fazer uma palestra sobre um tema qualquer, mas dediquei parte do tempo à memória do poeta.

Vi a notícia de sua morte pela televisão, depois de haver comido uma inesquecível  carne assada com macarrão, num restaurantezinho simpático, que cobria a mesa com toalha de plástico e sobre ela colocava, vejam que coisa mais paraense, uma farinheira branca, com tampa de correr, na cor verde. Fiquei tão triste, que saí andando de cabeça baixa, pelas ruas vazias de São Francisco, onde tudo fechava até 14 horas, pensando nele.

Eu havia prometido, no começo desta série, contar como foi a visita ao poeta. O detalhe dos pôsteres, porém, só veio à minha memória ontem, quando vi, numa rede social, a foto da Bruna Lombardi, linda, aos 67 anos. Bruna nasceu no dia 1º de agosto e eu, no dia 2, seis anos depois dela. Somos irmãos de signo, portanto. Nada mais do que isso. Porque quem arrebatou o coração de um homem como Mario Quintana, só pode ser admirada a distância. E a muita distância.

Belém, 6 de maio de 2020


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Flávio de Carvalho — Três mulheres, 1954.

Crônica

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