Entre meter o pé na jaca, o sacerdócio e quase virar dotô

Diário de um desespero – ou quase – XLIX

João Carlos Pereira

Adoro saber a origem das palavras e de algumas expressões. Na faculdade, estudei uma disciplina que trazia um conteúdo chamado “metaplasmo”. O nome é horrível, parece de doença, lembra emplastro, mas não tinha nada a ver. Tratava-se de um estudo da evolução histórica das palavras, de como elas nasceram e como ficaram, depois de muito rolar pela língua do povo, durante séculos.

Palavras são como pedras que se movimentam. Se ficam quietas, esquecidas, criam limo. Se param, continuam com a formatação original. Em ação, perdem a aspereza, ganham novos contornos e outras significações. Assim são as pedras, assim são os homens. Quem se recolhe do mundo, quem se furta da existência, quem se acomoda em seus medos, não ousa, não se atreve, não dá um passo, não vive. Apenas bate ponto no monótono relógio da vida. Passa pelo mundo, vendo a vida da janela. Observa a chuva e não se atreve a atravessá-la, nem que seja pelo prazer de experimentá-la e dizer que não curtiu. Seja mentira ou verdade.

Custei a entender, quando Guimarães Rosa falava que viver é perigoso. E não podia mesmo. Eu vivia escondido atrás de um monte de medos e não alcançava que viver é o próprio viver e que só se aprende a viver, vivendo. Parece fácil, mas não é não. O velho ditado japonês de que por maior que seja a caminhada, ela não acontece sem que se dê o primeiro passo é muito verdadeiro. O problema é dar o primeiro passo.

Era 1978 e eu ia dar meu primeiro passo na vida universitária. Não cabia em mim de tanta felicidade. Achava que havia nascido para aquilo e, a cada dia, apertava mais a venda nos meus olhos para não enxergar a realidade. Detestava praticamente tudo ali, mas gostava da maioria dos professores. Esse sentimento adoçava minha permanência no curso de Letras e eu misturava espinhos com pétalas para ver se conseguia ver brotar uma rosa.

O prazer das aulas de literatura, história da arte, estética e de teoria literária era diluído pela aridez de disciplinas ligadas à língua portuguesa. Se o gosto pela gramática normativa me levou, equivocadamente, a ingressar em Letras, lá dentro ele morreu de vez. Recordo, no começo, que uma professora pediu a cada aluno para levar a gramática que tivesse em casa. O objetivo era ver a posição de diferentes autores acerca de uma besteira qualquer. O resultado, pelo menos para mim, foi uma tragédia. Se havia dez gramáticas, apareceram dez versões diferentes para a mesma compreensão – inclusive a de uma freira, madre Oliva, que, em vez de rezar, se danou a escrever uma gramática – de coisas absolutamente irrelevantes. Meus colegas entravam em êxtase pela ampla possibilidade de não ter certeza de nada. Eu olhava o relógio, doido para ir embora. Depois dessa aula, cheguei a duas conclusões: em língua portuguesa quase tudo pode e eu, definitivamente, começava a entender que não havia nascido para aquilo.

O curioso dessa história é que eu gostava, sentia carinho, admirava, até fiquei amigo de alguns professores de português, mas detestava o que ensinavam. Lembro que, de alguma forma, disse isso a eles. É como se eu adorasse o médico que me prescreve remédios amargos. Por sorte havia as literaturas, do Pará, do Brasil e de Portugal, além dos estudos de Teoria Literária e de Arte – que me levavam do inferno ao céu, onde Albeniza Chaves, Célia Bassalo, Francisco Paulo Mendes, José Guilherme Castro, Socorro Simões, Lana, Lila Tupiassu, Nélia Felippe e Margarida Paiva pareciam tocar harpa. Tudo que diziam me encantava. Eu quase levitava.

Sei que poderia ter trancado o curso e ido embora para outro. Mas qual? Pensei em mudar para História, mas já conhecia a barra enfrentada por minha irmã, hoje aposentada e com o diploma de doutora em Arqueologia, assinado por ninguém menos que o rei da Espanha. Diziam assim para ela, coitada: “vais morrer de fome. Arqueologia não dá dinheiro”. De fato, não dá para ficar rico, mas lhe permitiu vida digna, confortável e prazerosa. Mas essa já nasceu sabendo o que queria da vida e sempre foi corajosa. Eu até hoje, não sei direito se teria conhecido a felicidade, sendo Padre, Arquiteto, Diplomata, Psiquiatra, Legista, opções verdadeiras, que tratei com desleixo. Agora, pelo menos, me conheço melhor. Não há mais tempo, (ou seria melhor dizer disposição?) para recomeçar, mas pelo menos dei um chute na frouxura. Quanto à verdadeira vocação, acreditem: seria o sacerdócio.

Um dia, não sei que espírito valente se encostou em mim, decidi trancar meu curso e fui buscar guarida em Arquitetura. Eu estava na Universidade e tinha, como um pintor diante de sua paleta, todos os cursos à minha disposição. Não sei por que mudei de ideia, dei meia-volta e voltei para Letras. O encosto desencostou, só pode! Talvez pela mesma razão que mulheres agredidas não largam os maridos violentos, eu me violentava, sim, e dizia que era feliz.

Muitos anos se passaram e, enquanto acompanhava minha mulher nas viagens a Buenos Aires, para fazer doutoramento em Direito do Trabalho, na mesma escola por onde passaram, pouco antes, Leonam Cruz Jr. e Avertano Rocha, achei que podia aproveitar o ócio de dono de casa para estudar. Já conhecia a cidade de cabo a rabo, pegava ônibus como se estivesse em casa, conhecia nosso bairro, a Recoleta, na palma da mão, havia varrido os melhores e os piores antiquários de San Telmo, até que veio a ideia de também levar para casa, em vez de apenas antiguidades, um diploma. Todo empolgado, parti para a Universidade e fui escolher algo que me desse gosto. No final da lista, encontrei um doutorado em vinho.

Menino, eu fiquei doido!!! Já pensou, retornando para Belém com o título? Nessa terra onde todo mundo é expert no assunto, onda há mais enólogos e sommeliers do que em Paris todinha, eu já vinha surfando na onda da vaidade. Salvo engano, seria o primeiro a me apresentar – me exibir, na verdade – como PhD em vinho. Minha palavra seria lei. Já até antevia a bajulação: “liga para o João Carlos Pereira, que ele deve saber se este vinho presta ou não”. Mas Deus, que não dorme no ponto, tratou de cortar o mal pela raiz e me enquadrou direitinho.

Não tem aquela história de que aluno de Direito entra no curso advogado e sai ministro do Supremo? Pois já colocava os pés na Universidade de BA com beca de doutor. Na secretaria do curso aprendi, de cara, a primeira lição de humildade: esperar bastante para ser atendido. Logo depois, a segunda: a grade. Era tanta disciplina maravilhosa, do tipo estudo de safras (argentinas, é claro), manejo e plantio da uva, tipos de solos, visitas a um monte de vinícolas, viagens pelas rotas do vinho, produção artesanal, degustação até não mais poder, harmonização, estudo de rótulos, história do vinho, tipos de vinho (argentinos, claro, de novo, porque lá, dificilmente, alguém bebe outro vinho que não seja o nacional) e mais um monte de conteúdos encantadores, sedutores, deliciosos. No começo do caminho, porém, havia uma pedra. Pequenininha, coisa besta, sete letrinhas apenas, que acabaram com a minha alegria de já quase doutor: q-u-í-m-i-c-a.

Para ser doutor, eu deveria passar um semestrezinho de nada estudando química. Como alguém pode querer entender, minimamente do produto, se não consegue conhecer as reações químicas que levam ao vinho? Sem saber isso, seria incapaz até de dar um palpite, quanto mais me apresentar como conhecedor, como “dotô”. Não percebo se isso, por aqui, é levado a sério, mas não vou me meter com quem sabe. Como diria o argentino Francisco, “quem sou eu…?”

Quando atentei para o tamanho da barreira que se levantava à minha frente, quase um Everest de impossibilidades, me lembrei de minha querida professora Norma Mendonça, cuja disciplina eu não apenas odiava, como nunca aprendi: química. Eu devia, no ginásio, ter aprendido o ensinamento que a faculdade renovaria: professor é professor, o que ele ensina é outra coisa. Às vezes até combina de professor e disciplina não prestarem, mas não era o caso. A Norma era – e ainda é – uma criatura maravilhosa, mas química, não. Mais uma vez eu entendi a lição da vida: não havia nascido para ser doutor em vinho. Nem em nada.

Com a frustração me apertando o coração, sabe o que eu fiz? Fui cuidar de me consolar. Em vez de choramingar na beira da calçada, entrei no supermercado, comprei uma garrafa de vinho (nacional, bem entendido) e tomei todinha. Pronto! Assim se escreve a breve história de um quase “dotô”.

A conversa não era essa. Mas pense numa atividade que é propícia a dar voltas e voltas, a entrar e a sair do assunto, com impressionante facilidade como é esta de cronista. Eu ia falar da origem das palavras e acabei me embrenhando por outras matas, mas ainda sei usar a bússola ou o GPS do texto e voltar à rota original.

Depois que escrevi sobre meter o pé na jaca, meu amigo e colega de Liberal, Felipe Mello, um jornalista de primeira linha e excelente caráter, mandou um zap, explicando a origem do termo. A explicação é tão interessante, que seria um egoísmo enorme não compartilhá-la.

No começo, “jaca” era “jacá”, o cesto que o vaqueiro ou o cavaleiro leva na montaria. Antes de ir para casa, num tempo em que celular não havia passado nem pela cabeça do sábio Leonardo da Vinci, que pensou em tudo, o vaqueiro estava livre das chateações da mulher, mas nem tanto. Antes de voltar, parava num boteco e enchia a cara. Quando via dar a hora de retornar e temendo apanhar em casa, corria para o cavalo. Totalmente alcoolizado, errava o alvo e, pulando sobre o animal, metia o pé na “jacá”. Devia ser muito engraçado ver um homenzarrão, mamado, cambaleante, com a bota enfiada na jacá. De jacá para jaca foi um pulo – literalmente. Como pouca gente sabia o que era jacá, ficou mais fácil falar jaca.

Histórias dos ditados são surpreendentemente deliciosas. “Quem tem boca vai a Roma” é filho de “quem tem boca, vaia (verbo vaiar) Roma”. “Cuspido e escarrado o pai” (quer dizer: igualzinho) surgiu de “esculpido e encarnado” (pintura da cor da carne) ou esculpido em (mármore de) carrara”. A professora Rosa Assis, essa, sim, doutora em Língua Portuguesa, conhece todas as variações dos ditados e bem que poderia escrever uma página para este diário, falando sobre eles. O distinto público agradeceria.

Os anos se passaram, eu me aposentei e ainda sonho com um projeto de educação que, se implantado, o que demanda coragem e vontade política, estimularia o amor pela língua portuguesa desde cedo. O aprendizado se daria apenas pela boa leitura. Regra de gramática não seria algo valorizado. Resultado: haveria muito mais gente amando o idioma do que o odiando.

Não me conformo com pessoas dizendo que português é difícil. Difícil é russo; difícil é japonês. Português é uma língua maravilhosa, plástica, sonora, doce, musical, acessível, elegante, mas que apanha todos os dias da falta de apreço. Na verdade, não é apenas falta de apreço: é excesso de chatice das aulas de gramática. Muito não pode; o certo e o errado demais. Mais nota baixa do que incentivo.

Não resta dúvida de que deve existir a norma para conter a anarquia, mas a flexibilização, o aceitável, o uso da forma local, a clara diferença entre os níveis da linguagem precisam ser observados e, sobretudo, respeitados. A língua portuguesa é a música. A gramática, o instrumento. Qualquer um pode (e deve) aprender a manejar, mas dele extrair a canção não é para quem quer, ou acha que quer.

Agora, o computador prepara tudo para um concerto sem a presença de instrumentos. Sem a sensibilidade do músico, porém, a tecnologia é inútil. Da mesma forma é sem serventia uma caneta de ouro sem a mão do autor, ou uma máquina fotográfica sem o artista por trás.

Sem compreender essa lição, muita gente mete o pé na jaca e não consegue tirar nunca mais.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Manabu Mabe — Composição B, 1956.

Crônica

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