Ainda memória e esquecimento de uma pobre mulher

João Carlos Pereira

Uma vez, perguntaram a Cid Moreira se não ficava nervoso, na hora de apresentar o Jornal Nacional. Consciente do alcance do programa, disse que, se pensasse na quantidade de pessoas que estavam assistindo ao jornal, na hora em que acende a luz vermelha da câmera, não conseguiria abrir a boca. A luz vermelha indica que a atração está no ar e, a partir daquele momento, não há alternativa: ou fala, ou fala. Comigo é assim mesmo. Se eu soubesse aonde as crônicas vão parar, depois que aperto o botão que as projeta para o mundo, não escreveria uma linha. Vou no escuro. Na mão de Deus.

Talvez por haver me afeiçoado demais à figura da professora Graziela, nem percebi o quanto a crônica sobre ela se distanciou de mim. Muita gente reproduziu, replicou, republicou, postou onde quis e bem entendeu, porque elas são livres, com este selo de origem. As crônicas possuem a marca da minha liberdade de expressão. Meio mundo, por assim dizer, me mandou mensagem. Cada uma trazia uma pequena história, um sentimento, um ato de arrependimento pelo mal que fez à pobre Graziela Guimarães Pimentel, a quem cidade aperreou o quanto pode.

No começo, pensei que seria difícil, quase impossível, pintar-lhe o retrato a partir de informações soltas, mas desde de segunda-feira que não param de chegar elementos para me ajudar a completar o esboço e transformá-lo num retrato. No triste retrato de uma mulher que a bem dizer nasceu princesa. “Ela não lavava uma meia. Tinha tudo. Era mulher muito fina, prendada, de família”, definiu Fafá de Belém, que leu a crônica em São Paulo e me entregou uma série de peças importantes do quebra-cabeça, que também posso ver como cacos para um possível vitral.

Para compreender melhor a trajetória de vida de uma jovem estudante, nascida em Curuçá e que na década de 30 já era professora normalista, enfrentando as adversidades de uma cidade agitada pelas ondas da Revolução, Graziela Guimarães, depois Pimentel, tinha uma espécie de liderança entre suas colegas. Falava bem, escrevia bem, possuía vasta cultura e um nariz enorme, que lhe valeu o apelido que a crucificou em vida. Odiava ser chamada de Arara.

Se tivesse a compreensão de que a única forma de evitar que um apelido grude na pele da criatura é ignorá-lo, talvez o tivesse feito. Mas a pobre não conseguiu. Quanto mais reagia, mais se entranhava em seus poros. Que o diga outro pobre de Cristo, português de nascimento, que perambulava pela “Campos Sales”, no tempo da Agência Martins, perto do prédio de “A Província do Pará”. Se ninguém bulisse com ele, ficava quieto. Mas se o chamassem de espanhol, perdia as estribeiras, descia das tamancas, desancava sobre quem lhe maculasse a nacionalidade. “Eu sou português, espanhol é a puta que te pariu, seu filho da puta. Português, português, português”, repetia o coitado do espanhol.

Quando o inferno onde entrou teve começo, ninguém sabe dizer. Bastou a primeira resposta para que a cidade começasse a aperreá-la. O neto, Francisco Canindé, me disse que a avó sofria dos nervos, padecia de uma espécie de depressão, ela e a filha, Severa, que não as impedia de viver, nem se agravava. O problema era bem mais agudo. Estudiosa do espiritismo, teria se atrapalhado com as idéias da doutrina, mas é impossível provar. Haveria espíritos a atormentar-lhe o juízo? Obsessores, zombeteiros, encostos, sofredores, inimigos de outras vidas, gente ruim sem corpo físico? Deus é quem sabe… Que carma, Senhor ….

A Fafá me contou outra história. “Quem enlouqueceu ela foi o Ferrúcio Pimentel, pai do doutor Estudito Pimentel, o Dito, que era um homem maravilhoso”. Para desenhar bem a genealogia, explicou, pacientemente, quem era quem na vida da professora Graziela: “o Ferrúcio era irmão da tia Zita, mulher do tio Pedro, mãe do Armando Moura Palha e da Marizinha. Na realidade, a Arara era tia direta do Armando Moura Palha, o Armandinho.”

Mais feio que o nome Ferrúcio era seu comportamento. “Ele era um sedutor. Não sei se chegaram a casar. Acho que ele deu uma pegada e, quando a família descobriu que ela não era mais virgem, coloco-a na rua. Foi isso que eu sempre soube, que a minha família sempre soube. Ela enlouqueceu na rua. O tio Pedro era um homem muito importante e o que eu, o que nós sabíamos lá em casa, é que ela enlouqueceu por causa do Ferrúcio, que pegava todo mundo e tinha filho com todo mundo. Quando morreu, tinha um filho de 50 anos e outro de dois. Era um coronelão de Santarém Novo. Se perguntar lá, os velhos todos sabem quem foi ele.”

Ferrúcio Godofredo Pimentel foi Prefeito de Santarém Novo nos anos de 1950/1960 e fiscal do INSS.

Isso estabelece uma linha de parentesco com a cantora? Não. Mas se houvesse, qual seria problema? Para Fafá, nenhum. «Ela não era minha parente direta, mas era do Armando, da Mariazinha e da Maria Augusta. Um dia desses, eu estava rezando, na Igreja, quando a Ararinha veio, com o cabelo pintado de vermelho, vermelho, vermelho, acho que pintaram de açaí, e me disse: “oi, tu sabes que sou tua prima?” Para mim está tudo certo. Acho que as pessoas têm o destino dela e o da Arara foi muito triste. Mas numa Belém tradicional, isso era tabu».

Filha de uma família tradicional em Curuçá, a professora Graziela chegou a dirigir uma escola no município. O neto, Canindé, a respeito de quem muita gente me perguntou o paradeiro, superou todos os problemas da infância e conta, sem nenhuma mágoa, do orgulho que tinha da avó, a quem trata, sem neuras, de Arara. Autor de três livros sobre sua cidade, foi Secretário Municipal de Administração e cuida da mãe, Severa Romana Guimarães, diagnosticada com esquizofrenia, que mora numa casa ao lado da sua.

Eu gostaria de ter lido uma redação preparada por um rapaz, aluno do curso Clássico, do Paes de Carvalho, trabalho passado pelo professor Acy de Jesus Barros Pereira. Ele pedira aos alunos que descrevessem um tipo interessante da cidade. O aluno, chamado Ronaldo Valle, hoje desembargador do Tribunal de Justiça, preparou um perfil da professora Graziela. As informações, nem ele mais recorda. Mas o que ficou na memória foi a lista de palavrões que desfiava, quando se sentia ameaçada e agredida.

Leonam Cruz Jr., também desembargador, lembra dela, caminhando pela avenida Presidente Vargas, e de seu irmão, o cantor e compositor Bosco Guimarães, um sambista que chegou a vencer festivais no Rio de Janeiro. Georgenor Franco Filho, o terceiro desembargador a entrar na conversa, me contou que sempre via a família, mais o folclórico guarda-chuva, perambulando pelos corredores do Palácio “Lauro Sodré”. Sem ter o que fazer, a professora aposentada precocemente, gostava de ver autoridades.

Marília Guzzo ainda era estudante, recém-chegada de Manaus, quando se tomou de pavor pela senhora de nariz adunco, que andava pelas ruas se defendendo das ofensas. “Eu achava que ela sofria de autismo, um termo inexistente na época”. Ana Carolina Proença, moradora das imediações da Praça da República, era filha e neta dos proprietários da PRC-5 Rádio Clube do Pará, lembrou que um funcionário da emissora, chamado Otávio, negro retinto, tão preto, tão preto, ganhou o apelido de “Petróleo” e assim se apresentava. O danado não podia ver a pobre arara, que se danava a berrar o apelido. A vingança batia na alma. Assim que o identificava, começava a cantar: “preto não entra na América… preto não entra na América”. Dois segregados, um pela cor, outra pela deformidade, mangavam do que tinham de mais seu.

Ao tempo em que era titular do Cartório Chermont, Zeno Veloso a recebia em seu escritório, onde ia descansar o corpo e alma. “Hoje eu fui tão maltratada, dr. Zeno”, queixava-se. Lá beneficiava-se do refrigério do ar-condicionado e do carinho com que era recebida. Ela, Severa e Canindé. Tomavam um cafezinho, bebiam um copo d’água e partiam. A malvadeza da rua a aguardava atrás dos postes, escondida pelas portas entreabertas, ou covardemente por gente que berrava “arara…” e corria. Essas pessoas bem mereciam o “bando de filhos da puta” com que tentava ofendê-las.

Entre os tantos moleques que azucrinavam a passagem da professora estava um que, apesar de haver chegado à terceira idade e virado avô babão dos netos, que fazem dele gato-e-sapato, não perdeu o jeito menino de ser. Denis Cavalcante, hoje, se arrepende de haver berrado, tantas vezes, o apelido da senhora. Naquele tempo, maltratar as pessoas era motivo de riso. Hoje, dá cadeia.

Tantas outras pessoas me mandaram depoimentos, fizeram “mea culpa” e narraram histórias da Arara. Haroldo Baleixe, artista, professor e gente boa, republicou a crônica na página da Faculdade de Arquitetura e a primeira reação de Flávio Nassar. Ele disse que a senhora cuja foto ilustrava a capa da crônica não era a da professora Graziela e sim de outra criatura, muito parecida, apelidada de Marta Rocha, ou Genipapo. Se é, não sei. Mas fica o registro.

Baleixe também enviou a informação publicada pelo meu querido Luiz Paulo Freitas, o inesquecível Paulo Zing, sobre quem ainda vou escrever, em 15 de outubro de 1989, no “Liberal”, dando conta de que a Ararinha desfilava no arraial de Nazaré, anunciando sua candidatura à Assembleia Legislativa, pelo PDC. A madrinha e maior cabo-eleitoral era a mãe, que trazia a experiência de campanha para vereadora, na eleição anterior. Ambas encontraram o mesmo obstáculo: não tiveram votos. Fosse agora, quando o eleitor leva tudo a pagode e elege tipos como os que vemos no Legislativo e no Executivo, uns inofensivos, outros, perigosíssimos, teriam tido grande votação.

Voltei a tratar da figura da professora Graziela, não apenas porque me inspirou enorme ternura, como porque Belém precisa reviver a memória de sua gente esquecida. Além de cruel, como disse na crônica anterior, a cidade possui memória curta e ainda padece de um profundo desinteresse por aqueles que, de alguma forma, ajudaram a formar a alma de uma terra cheia de gente interessante, cuja imagem começa a desaparecer, como se tivesse sido impressa com tinta de caixa eletrônico de banco que, com o tempo, some completamente, deixando apenas, sobre o papel amarelado, lembrança do nada e de coisa nenhuma.

Graziela Guimarães Pimentel nasceu no dia 3 de março de 1912 e morreu no dia 02 de janeiro de 2002, de falência múltipla dos órgãos. Naquela altura, havia carregado nos braços dois bisnetos.

Pobre Belém…tão Belém, como suspiraria o comendador Sobral, um sábio, o único dicionarista da Amazônia, que precisa ser lembrado e reverenciado, na grandeza de seus 80 anos. Ainda há tempo.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Oswaldo Goeldi — Casa do terror, 1953. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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