Eneida e um carnaval que virou saudade

João Carlos Pereira

Alguém suspeitaria que a memória do carnaval brasileiro, em especial a do carnaval carioca, deve ser eterna devedora do poeta Carlos Drummond de Andrade? Logo ele, tão recatado, tão avesso ao barulho, que gesto seu moveria esse condão da história? A insuspeita resposta vai na direção da amizade com Eneida. Com a nossa Eneida.

Repórter do jornal “Diário de Notícias”, estava escalada para produzir matérias ligadas à vida intelectual, sobretudo à atividade literária no Rio. Um dia, experimentando a terrível sensação de ter de escrever e não encontrar assunto, conversou com o Poeta e ele sugeriu que fosse à Biblioteca Nacional fazer uma pesquisa sobre carnaval. Ela se apaixonou de tal forma pelo tema, que produziu um livro de 800 páginas chamado de “História do Carnaval Carioca”. A editora Civilização Brasileira achou muito e o reduziu à metade. A edição está repleta de erros e quando lembrava da bagunça que fizeram com seu trabalho, virava bicho. O restante do material deve estar esquecido em algum arquivo ou foi para o lixo. No Brasil, como se sabe, tudo é possível.

Alguém já esqueceu do episódio do pano de boca do Theatro da Paz? Numa de suas inúmeras reformas, o teatro era dirigido pelo maestro Waldemar Henrique que, depois do almoço, olhava, da janela de seu gabinete, o movimento da rua, quando viu os operários jogando fora uma enorme peça de pano enrolada. Waldemar ficou intrigado e perguntou o que era aquilo. Na maior ignorância do mundo, um deles respondeu: “é um pano velho, todo pintado, que não serve para nada”. Era o pano de boca, salvo, milagrosamente, por WH. No Brasil, como se sabe, tudo é possível.

Mesmo cheio de erros, o livro ainda é a mais valiosa fonte de informações sobre o carnaval do Rio. Detalhes de algumas histórias Eneida revelou na entrevista que deu a Dalcídio e Miécio e que a Unama publicou, junto com um CD. Nela, falou da preocupação que tinha com os jurados escolhidos para avaliar os desfiles. Reclamou da falta de preparo de alguns escolhidos e denunciou o absurdo da presença de estrangeiros, que nunca viram carnaval na vida, para avaliar algum quesito dos desfiles. No Brasil, como se sabe, tudo é possível. Isso, aliás, em Belém, era comum.

Comunista até na hora da folia, bradava contra os bailes de luxo do Municipal e as fantasias caríssimas, pesadíssimas, cheias de pedras, que impediam o folião ou a foliã de brincar. Para ela, carnaval tinha de ser dançado pelo povo, com fantasias simples, como a de um Pierrô. Simples e acessível a todos. Por isso criou o Baile dos Pierrôs.

Quando deu a entrevista ao MIS carioca, já estava diagnosticada com câncer. Por isso, em 1967, não poderia fantasiar-se de Pierrô e cair na folia. Na época, talvez, tenha sofrido mais pela impossibilidade de organizar o baile que tanto amava do que da própria doença. Até então, o Rio era a sede dos Pierrôs, mas Belém acolheu a idéia e, com apoio de Alberto Bendahan, o projeto foi realizado. Era a 10ª. versão do “Baile dos Pierrôs”. Nos olhos da escritora ainda reluzia, quando falava no assunto, a imagem de mais de 1.800 Pierrôs cantando e dançando.

Enquanto desfiava suas lembranças e opiniões, Eneida confessou que não era de cantar, mas estava totalmente tomada pela melodia de “A Banda”, de Chico Buarque. Ela dizia que a banda, uma banda qualquer, está sempre dentro das pessoas e se comovia, quando passava uma bandinha. “Lá na minha terra havia uma senhora que chorava, ao ver uma banda passar”. Quem seria?

Com letra simples e melodia simples, “A Banda” conquistou o Brasil pela beleza e pela ternura. Para a cronista, quanto mais simples forem as coisas, melhor o povo entende. Alguém ousa discordar?

Eneida guardava posições firmes acerca de alguns pontos. Era contrária à oficialização do carnaval. Gostava de frevo, mas cantado e dançado em Recife, não no Rio, onde a chamada colônia pernambucana fazia um “carnavalzinho”. Para ela, carnaval, mesmo, de verdade, no duro, era com samba e marcha rancho. “O resto tudo é….” A frase ficou solta no ar, sem o complemento. Mas era preciso?

Como o câncer pesava mais sobre sua alma do que no corpo, já tomado de limitações, de sua cadeira de doente, como dizia, viu, pela televisão, a agonia do desfile dos ranchos e sofreu. Os grupos começaram a se parecer com as escolas de samba e, perdendo a identidade, sem dinheiro, morreram. Dos blocos, uma novidade no carnaval do Rio, ela gostava. Falava com entusiasmo do “Cacique de Ramos” e do “Bafo da Onça”. Previa, inclusive, que se transformariam em escolas.

Quando o assunto passou para o desfile das Escolas, reclamou da glamourização. Disse que as apresentações viraram um show e que o samba estava sendo tomado por gente que não era do samba. Diante da proposta de levar o carnaval para o Maracanãzinho, reagiu com indignação. Se na avenida Presidente Vargas já era preciso encher as alas de gente, imagine num espaço fechado. Aí que as escolas iriam virar atração para turistas. Imagine hoje, a cronista vendo grupo Especial, grupo A, grupo B, grupo C…. Penso que nem ligaria a televisão.

Sobre Eneida sempre há muito o que contar. Me detive no carnaval, mas há algumas histórias que não cabem nessa crônica, como a da visita que fez ao governador Alacid Nunes, de quem era amiga; da reunião de uma comitiva de escritores famosos na casa de Jacques Flores e a respeito do desejo de não morrer. Há também o célebre depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Pará, do qual não há mais registro. Falarei disso, na semana que vem.

Quando o arquiteto Jô Bassalo se refere à mãe, a saudosa professora e pesquisadora Célia Bassalo, usa uma expressão que considero a mais delicada, a mais doce, a mais terna que já ouvi: diz “o nosso camafeu”. Célia possuía todos os traços, reais e imaginários, para ser um camafeu. Um perfil completo, irretocável. Um camafeu art nouveau.

Eneida, ao contrário, jamais caberia numa peça semelhante. Era irrequieta demais para se deixar conter entre os ângulos de um camafeu, por mais suave que fosse.

No primeiro descuido, fugiria da caixinha de jóias e cairia no samba.

Eneida seria a maior, mais colorida, a mais bonita e a mais divertida alegoria jamais construída em honra da liberdade.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Paul Cézanne — Pierrot e Arlequim, 1888. Museu Pushkin de Belas Artes, Moscou.

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