Pobres mulheres, estrelas do sofrimento consentido

João Carlos Pereira

Depois de haver recuperado um pouco da memória da professora Graziela, volto meu olhar para outras pobres mulheres que fizeram das ruas de Belém o palco mal iluminado, onde apresentaram o show de suas desgraças e tragédias a um público desinteressado e impiedoso, totalmente insensível às dores alheias, capaz de se comprazer com a cólera de quem, indefeso (ou quase), não possui alternativas a não ser praguejar, vociferar, esgoelar-se, encolerizar-se e, no fim das contas, sofrer. Belém especializou-se em produzir esse tipo de gente. De um lado e de outro. Na plateia e no picadeiro.

Do meu passado mais distante surge a triste figura de uma mulher mulambenta e silenciosa. Na verdade, nunca a vida de pé ou escutei-lhe a voz. Poderia inventar uma história, uma biografia, qualquer coisa que alimentasse a vida improvável de Maria Igarapé. Mas que história? Que nome? Uma pessoa sem face, pés sujos, sempre inchados, unhas quase estourando, imundas, enormes. Uma Maria como tantas outras.

Vinha dentro de seu saião, cambaleando, garrafa de cachaça na mão. Imagino que passava a noite na farra, na gataria, como dizia antigamente, na esbórnia, na sacanagem. Isso tanto pode ser verdade, como enorme preconceito. Maria, assim era chamada, fazia ponto num quiosque, tão comuns até 64, quando os novos donos do poder sumiram com eles. Além do da Praça da República, havia quiosques na Praça Brasil, no lugar onde foi erguida a estátua de Pedro Teixeira e na Doca, eqüina da “Tabaqueira”. Naquele tempo, a Doca era apenas o igarapé, cujo nome até hoje gera polêmica: das Armas ou das Almas?

Augusto Meira Filho, o chamado “namorado da cidade”, de tanto que a amava, garantia, em sua coluna semanal, na “Província do Pará”, que o canal tinha o nome de “das armas”, porque os cabanos escondiam armas por ali. Carlos Rocque assegurava que era “das Almas”. Das penadas ou das santas vaqueiras? Seja como for, Maria fazia daquele espaço o seu começo de mundo. Daí o apelido Maria Igarapé. A Maria do Igarapé.

Ela começava a noite por ali. Vagava pela cidade, atravessando a madrugada. Surgia de alguma escuridão. Suas forças pareciam terminar quase na porta da casa onde nasci, na Cidade Velha. Pelo CEP dos Correios, até a 16 de Novembro, a rua João Diogo ainda pertence ao bairro do Reduto. Mas isso não faz diferença. Nossa casa ficava na João Diogo, em frente ao “Paes de Carvalho” e sobre a qual foi edificado o prédio do TRE. Para mim, ali já é Cidade Velha e pronto.

Como se a bateria que a mantinha viva fosse descarregando aos poucos, ela cambaleava e caia recostada, sempre no mesmo lugar, na soleira, amparada por uma porta de madeira. A cabeça pendia e o corpo escorregava para o chão. Era tanta cana na cabeça da pobre Maria, que ela não controlava mais nada. Urinava-se toda. O mijo escorria pela calçada, desenhando um caminho fedorento. Era, a bem dizer, um igarapé de nascente vaginal. Maria Igarapé, coitadinha.

Mais não sei, mais não posso inventar.

Se era nova ou velha, igualmente desconheço. Muitas vezes vi o igarapé fedido, desenhando curvas sinuosas, meandros, na calçada. Espero que tenha tido morte rápida, sem sofrimento de fígado corroído, esquecida no que, antigamente, se chamava de indigência da Santa Casa e não mais existe. Era um depósito de doentes sem eira nem beira, lugar para uma miserável como a Maria Igarapé. Maria e seu igarapé, onde começava uma, onde terminava o outro?

Protegidas da rua, três senhoras viam a vida passar de dentro de casa. Apenas viam, não viviam. Não as conheci, jamais as vi. E até agradeço a Deus por isso. Com a insônia que me perseguia, viesse um daqueles rostos à memória, perderia o resto de noite que houvesse. “Eram medonhas”, contou o Édson Salame, que, de longe, as observava. “Passavam o dia ali, esperando um namorado que nunca veio”. Alcyr Meira me assegurou: “elas não eram tão feias como se faziam, eram grotescas. Se tirassem aquela pintura carregada, não chamariam a menor atenção. O que acabava com elas era a pintura”.

Medonhas ou grotescas, as três moravam numa casa enorme, na avenida Generalíssimo Deodoro, a uma duas quadras depois da Santa Casa, no lado esquerdo, o do motorista, no sentido da mão. Sem jardim, o imóvel abria três janelões para a rua. Os arcos emolduravam a fealdade e uma legenda invisível indicava o apelido de cada uma: Peste, Fome, Guerra.

Octávio Avertano Rocha ainda se recorda das moças-velhas e as descreve com riqueza de detalhes. “Elas eram chamadas de janeleiras. No meu tempo, era assim que denominávamos mulheres que não saíam da janela. Viviam para estar na janela, olhando a rua, mexendo com os rapazes, se insinuando, na esperança de um olhar mais terno”.

Busco informações com os vizinhos de porta das irmãs e nada mais consigo descobrir a não ser o que já sabia. A Peste, a Fome e a Guerra eram brancas e pintavam os cabelos de loiro. Era um loiro exageradíssimo, tal como a maquiagem que usavam. O pó de arroz parecia um reboco de parede. Sobre as bochechas aplicavam um rouge tão vermelho, que parecia que tinham levado um tabefe no meio da cara. A sombra nos olhos dava medo e as sobrancelhas demasiadamente pretas. A boca era coberta por um tom de vermelho tão vivo, que pareciam estar sangrando. Para serem mais “sedutoras”, digamos assim, desenhavam um coração sobre os lábios. Bernardino Santos me confirma a impressão. A falta de habilidade era tão grande, que o baton se espalhava pela boca e adjacências. “Horrendas”, resumiu Rosita Nassar, que as enxergava a distância. “Usavam uns cabelões com umas trunfas….”

Como poderiam viver pessoas que passavam o dia de flozô? Em Belém não é difícil saber. Aqui não é terra de muro baixo, porque o muro inexiste. Todo mundo conhece todo mundo. As três moças, que nem em sonho se pareciam com as mulheres da embalagem do sabonete de Araxá, vinham de família bem de vida, ligadas à pecuária, sobrenome conhecido, dinheiro sobrando para poder levar a vida na flauta, contemplando-a com cotovelos na janela. Mais do que nunca, passei a acreditar que dinheiro não traz felicidade.

A Peste, a Fome e a Guerra pouco saiam. Era o tempo todo na janela, de manhã e à tarde, esperando o Godot, aquele que jamais veio. Fosse hoje, seriam “celulazareiras”, o tempo todo teclando. Se Godot passasse, capaz que nem o vissem. Como na peça de Beckett, se viesse, estariam salvas do enforcamento. Godot nunca veio. As três juntas, emolduradas em janelas diferentes, constituiriam, por elas mesmas, uma tragédia visual de dimensões pandêmicas. Olhando para as “meninas”, as velhotas dentro das vitrines na rua da luz vermelha, em Amsterdã, poderia tê-las enxergado. Não pela profissão, que donzelas deveriam ser, mas pelo desgaste do rosto, exagero na maquiagem, felicidade artificial.

De Gilberto Chaves ouvi o único um depoimento generoso a respeito das criaturas. Me disse que o apelido gentil das senhoras solteironas era “a três graças”. Pelo carnaval, quando o corso passava em frente à casa onde moravam, nos anos 50, os pais diziam: “olhe, lá estão as três graças”. Como a maldade humana não conhece limites, logo viraram “peste”, “fome”, “guerra”. “As pessoas passavam por elas e gritavam esse apelido”. Coitadas…. Em todos os sentidos, coitadas.

Todos os depoimentos foram unânimes nas descrições. Mízar Bonna falou da feiúra, mas me pediu: “deixa as pobres em paz”. Não cito seus nomes porque não sei. Ninguém, aliás, sabe. Isso, que é importante para todo mundo, no caso das três parecia irrelevante. As “janeleiras” viveram atrás de uma maquiagem, transformaram-se em personagens das mais caricatas. Não existiam para depois da janela. Aos olhos de Belém, eram apenas as inofensivas “peste”, “fome” e “guerra”.

Nesta cidade cruel, coloca-se apelido em todo mundo. Uma mentalidade infantil, que parece ser comum a muitos povos, joga sobra as costas de uma pessoa uma forma quase sempre pejorativa de reconhecimento. Poucos apelidos revelam carinho, doçura, afeto. A maioria desconstrói. Peste, fome e guerra são exemplos perfeitos da falta de amor ao próximo.

Que Deus nos perdoe, a mim, em especial, que vim buscá-las do túmulo para recolocá-las na janela da crônica.

Bem mais perto de mim, figuras da minha juventude já distante, aparecem as “titias” . Eram duas velhinhas que moravam na Brás de Aguiar, esquina Rui Barbosa, num prédio onde hoje funciona uma loja do “Boticário”. Elas habitavam o segundo andar e eram aperreadas por alunos do Moderno, que saíam da aula e iam lanchar na padaria Camões. Lá, naqueles distantes anos 60 e 70, se comia a melhor pizza de Belém. Fininha, massa bem leve, lembrava a que hoje é servida no “Xícara da Silva”. Guardo na chamada memória gustativa o sabor de uma fatia de muzzarela. Era maravilhosa. Pois toda a gente ia merendar na Camões ou, voltando para casa, tinha o estranho prazer de atentar as senhorinhas.

Muitas vezes vi a dupla na janela, eram “janeleiras”, portanto, usando batinha de andar em casa, a aborrecer-se com a molecada que passava por lá e berrava “titiaaaaaa”. Elas ficavam furiosas. Pegavam corda, como se diz. Acumulavam urina num pinico e, quando a algazarra era grande além da conta, despejavam do alto uma chuva amarela. Era mais quem saía correndo, gritando, chamando-as pelo apelido. Chamar de “titia” não era ofensa, mas talvez evocasse alguma lembrança desagradável o fato de não haverem casado, de terem ficado para tia, como se dizia no passado, suprema vergonha. “Fulana ficou para tia. Solteirona. Foi incapaz de arrumar marido”.

Essas bobagens, numa cidade com mentalidade atrasada, possuíam um valor enorme. Quem não casava é porque não deveria ser boa pessoa. A opção de cada um não possuía valor. Casar era obrigação. Hoje, o pessoal foge do casamento como diabo foge da cruz. Mas as tias, as “titias” da Brás, talvez tivessem a mágoa da solteirice.

Não sei bem, mas acho que foi o doutor Sílvio Meira que, numa reunião do Conselho Estadual de Cultura do Pará, um grupo que reunia alguns dos mais notáveis intelectuais de nossa terra, quase um adendo, um apêndice da Academia Paraense de Letras, dirigiu-se ao maestro Waldemar Henrique e, em tom de brincadeira, disse: “Waldemar, eu invejo a tua solteirice”. WH jamais se importou em ficar só. Vivia cercado de amigos e tinha uma vida interior riquíssima. Sebastião Godinho foi seu filho e, no final da vida, transformou-se no pai que o acolheu. Era solteiro e amava a “solteirice”, palavra que, com certeza, pesava na história de vida das velhinhas.

O já citado Bernardino Santos, modernista como eu, mas 20 anos mais velho, deixava o nosso amado colégio e se colocava na padaria, à espera das vítimas. Ele e mais outros, bem entendido. As meninas eram o alvo perfeito. Vinham todas alegres, saltitantes. Quando passavam debaixo da janela, um berrava do outro lado da rua: “tiiiiaaaaaaaaaaaaaaaaaaa”. Elas, que pareciam gostar da molecagem, tinham estoque de águia e de urina. As pobres das meninas, que nada tinham a ver com a danação, ficavam encharcadas.

Muito antes de “O Boticário” se instalar no ponto nobre da Brás, o Edyr Augusto Proença alugou o espaço para montar sua loja de discos, a 33 e 1/4. Negociou os valores com as proprietárias. “Uma parecia mais tranquila. A outra de mau humor, sempre”. Um vizinho delas me disse: “além de tudo, eram horrorosas”. Silvia Menezes Lobo se lembra muito bem das “titias” e pode confirmar cada palavra.

Com os anos, perderam o gosto pela revanche. Adoeceram, recolheram-se. Os que berravam por elas, evocando um parentesco inexistente, deixaram o colégio, entraram na faculdade. Novas gerações de modernistas foram surgindo. Ninguém sabia mais da existência das tias. A farra acabou.

Havia outras infelizes, perambulando sua loucura pelo caminho dos outros, como a “laurista” e a “diabo atrás da saia”. Surge, novamente, na tela do meu celular, a história da Genipapo. Talvez me ocupe delas em outro momento.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Ismael Nery — Três Figuras II, 1920. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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