Os mortos que espiam e os que assombram – II (final)

Diário de um desespero – ou quase – XXXV

João Carlos Pereira

Histórias de cemitério não me faltam, embora deles, cada vez mais, queira distância. Na crônica de ontem falei tanto sobre meu pai, que parecia o começo de um livro cujo título poderia ser “Pranto por Joel Pereira”, se desejasse seguir os passos da Lindanor, autora do belo “Pranto por Dalcídio Jurandir”. Mesmo decorridos 38 anos de sua morte, a ferida ainda sangra e não preciso, pelo menos agora, me expor a novos sofrimentos. Hoje vou deixá-lo quietinho, porque, se começar a contar suas aventuras, inclusive a que o ligava a Lampião, para o qual, jurava de pés juntos, se fosse necessário, chegou a cantar, quando o Rei do Cangaço andou pelas terras de sua família, sabe Deus em qual interior de Pernambuco, (ou teria sido na Paraíba, onde um tio, chamado Francisco, possuía uma fazenda?), jamais terminarei este assunto. Memória e saudade só querem um pé para começar a ganhar espaço.

Quando eu era menino, passávamos férias na casa de uma tia, em Salinas. O nome da rua não lembro, mas recordo que, se subíssemos num cajueiro, conseguiríamos enxergar o cemiteriozinho de lá e, eventualmente, algum sepultamento. Era tudo simples, porque enterravam-se apenas os moradores locais, gente sem luxo, em caixões humildes, num cemitério igualmente humilde, de cidade do interior. Não era a Salinas de hoje, cheia de mansões e condomínios de luxo, aonde não vou há quase 20 anos, que também não recebe cadáveres de seus habitantes eventuais.

Naquela época, as casas tinham nomes. A de minha tia trazia placa na porta, onde se lia “Hermanthine”. Era irmã de minha avó, homenagem do marido. Depois dela, jamais conheci uma criatura que assim fosse batizada. Nunca soube a origem desse nome esquisito, que, em casa, foi reduzido para Herma, que é menos estranho. Como gastava de plantar no quintal, o tio fazia uma elevação no terreno, semelhante a uma cova. Para assustar os sobrinhos miúdos, colocava uma cruz e avisava que, ali, estava sepultada uma vítima da fúria da tia, em geral moleque que pulava o muro para roubar cajus. Ela matava e ele próprio enterrava. Tudo mentira, mas dava medo. Era como se houvesse um cemitério no fundo da casa.

Nos anos 70 e 80, primeiro, como aluno, depois, na condição de professor da Universidade, eu evitava passar, à noite, pela José Bonifácio, para não encarar o cemitério. Buscava sentar sempre nos bancos à esquerda, na direção do motorista, para não olhar aquela ruma de túmulos, em especial o do meu pai, a bem dizer na frente, não muito distante do de sua amiga Eneida. Se os mortos se comunicam numa relação inter tumular, eles, com certeza, reviveram os bons tempos de farras. Quando o ônibus passava diante do Pão de Santo Antônio, não havia jeito: eu olha o cemitério, na esperança de ver sabe o quê? Fogo fátuo? Visagem?

Claro que enxergar o fenômeno do contato de gases emanados de corpos em decomposição em contato com a atmosfera, que produzia uma certa luminosidade, semelhante a labaredas, seria interessante (nunca vi, infelizmente), mas o que eu queria mesmo era identificar uma alma agarrada aos ferros, aterrorizando um passante, bulindo com ele, colocando língua, fazendo buuuuuuuuu, dando nome do dedo, de modo a deixar a criatura mais alva, mais pálida, do que o lençol em que se transformara a alma zombeteira. Não pensava em gente sofredora, como explicam os espíritas que há, porque, de tão dependentes da matéria, não conseguem se separar do corpo em decomposição e padecem, experimentando os horrores do banquete dos vermes. Deve ser horrível ver o próprio “corpithu” servido como prato principal, dentro de um caixão que se desfaz com facilidade, sobretudo neste tempo de muita chuva.

Graças ao bom Deus a cena do gradil nunca presenciei, embora soubesse, pelos sentidos, que me espreitavam, uns me acompanhando, outros, rindo de mim. Há tempos aprendi que só se deve entrar em cemitério com o umbigo protegido por um curativo, para evitar que o plexo solar, seja isso o que for, capte as más energias. Ah! Também me disseram que só se deve deixar um cemitério andando de costas, para não ser seguido por nenhuma alma. No meu caso garanto que dá certo, porque fico com uma cara tão apavorada, que qualquer morador do além vai se assustar comigo e desejar distância da carranca. Mas isso é uma besteira. De frente ou de costas, se o morto quiser seguir, segue, porque porteiro de cemitério não impede nem que vivo entre e assalte, quando mais morto de sair.

Pode ser apenas pressão psicológica, medo, ansiedade, trauma, sabe Deus que nome dar, coisa que não consegui desbaratar em anos e anos de terapia, mas entrar em cemitério sempre me provoca dor de cabeça. Uma vez, em Paris, com um casal, amigo, a primeira coisa que ele desejou visitar foi o cemitério de Montparnase. O Père-Lachaise já conhecia e nos poupou a pernada.

Não consegui escapar desse programaço, numa das ocasiões em que levei minha filha mais velha até lá. Uma tarde, inventou de querer ver o túmulo do Allan Kardec. Como eu não nunca havia ido àquele lugar, me animei. Mas pense numa dor de cabeça na hora de voltar. Meu pescoço estava duro e as têmporas latejavam. Passeio para nunca mais.

Na primeira viagem que fiz a Bueno Aires, me disseram que podia perder tudo, menos o cemitério da Recoleta. Perdi. Havia bem mais coisa a ver em três dias. Ficaria para outra visita. Numa segunda ida à cidade, coloquei no roteiro e fui. De fato é um show, mas também me deu cor de cabeça. Anos mais tarde, quando minha mulher fez doutoramento em BA, nosso apartamento ficava no mesmo bairro do cemitério e éramos obrigados a passar quatro vezes por dia diante do muro da necrópole-atração-turística. Outra vez inventei de passear lá dentro e cheguei em casa com uma enxaqueca miserável.

De cemitério parque não tenho tanto medo, mas acho horríveis os túmulos enfeitados (ou enfeiados) com flores artificiais. De longe, aquilo parece uma ala de escola de samba. De perto, é a imagem perfeita da finitude. Olhando para qualquer sepultura, penso em Mário Quintana, quando dizia que até as flores artificiais fenecem. Essas fenecem aos, seguindo o ritmo dos falecidos.

Uma vez, visitando Salvador, não fui a cemitério, mas desejei ver o túmulo do meu tio-bisavô, encravado no piso de um dos altares da Sé que estava fechada. No Mercado Modelo andei entre as lojinhas, comprei umas besteiras e saí depressa, porque a dor de cabeça começou a me perseguir. Peguei um ônibus e fui espairecer num shopping que, imaginava, não seria lugar de más energias.

Eu estava tão desnorteado de dor, que entrei numa loja, a Dudalina, tenho impressão, onde uma vendedora me atendeu de forma tão gentil, que não tive vergonha de pedir um pouco de álcool para cheirar e passar na nuca. Impressionada com a minha agonia, perguntou de onde eu estava vindo. Quando lhe disse que era do Mercado Modelo, entendeu direitinho. Negra de olhos vivos, uma pele que mais parecia seda, me explicou: “aquilo foi lugar de muito sofrimento de escravos. Eles eram colocados numa espécie de prisão, no subterrâneo e padeciam das piores dores. Todas as paredes estão impregnadas de sofrimento. O senhor deve ser médium sensitivo, porque isso não é raro acontecer”. À medida que ia passando o álcool e rezava, a dor parece que ia me largando.

Sabendo como sou, evito ao máximo velório e enterro. Hoje, felizmente, os carros-fúnebres não assustam mais com os de antigamente. Agora são uns veículos compridos, mas, nos anos 60, protagonizavam um espetáculo de terror sobre quatro pneus velhos, desfilando pelas ruas. Pintados de branco, tinham uma carroceria que, mal comparada, parecia uma berlinda larga e comprida. Um coche envidraçado, digamos, adornado, na parte superior, com alguns detalhes entalhados em madeira, e, internamente, com cortinas roxas, que deixavam o caixão à mostra. Quando passava um, eu só faltava correr.

Gostaria de dizer que não sei a razão de tanto pânico diante da morte, porque dela ninguém escapa. Sei de uma história de uma senhora que era tão apegada, mas tão apegada à vida, que se finou segurando a perna de uma mesa para não ir embora. O poeta Gregório de Mattos Guerra, percebendo que estava vivendo os minutos finais, se atracou a um crucifixo para garantir que, assim, estaria a caminho do céu, porque, no inferno, com certeza não existe espaço para esse tipo de objeto devocional.

Não há, eu entendo, uma escala de medos, mas se tivesse de classificar os meus, ia por ordem. Um: na infância, o fura-dedo. Era um homem do setor de erradicação da malária, que passava nas casas, à tarde, avisando que, à noite, voltaria para coletar sangue. Eu tinha tanto horror de uma reles furada de alfinete, que corria para me esconder no galinheiro de casa e vinha de lá debaixo de vara. Condução coercitiva. Uma vergonha para a espécie humana. Dois: dentista. Nem me fale! O Adonis Arouck, coitado, meu amigo e santo protetor dos meus dentes, que o diga. Tamanho velho, eu ainda me tremo só de ouvir o barulho da broca. Enquanto sofro, pensando na dor que não há, porque dente onde já está feito canal não possui mais sensibilidade (e isso me explica mil vezes), ele se acaba de rir. Mesmo uma simples limpeza me deixa esgotado, tenso. Vá ser frouxo assim no diabo que o carregue!!! Três: os avisos da Receita federal que, às vezes, aparecem. Quarto: de visagem. Mas com essas eu me entendo e, se calhar, ainda mango delas. Quinto e maior de todos: de mim mesmo, porque sei agora, aonde quero ir e do que sou capaz.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Léopold Chauveau (1870-1940)— Paysage monstrueux n°55, 1921. Musée d’Orsay

Crônica

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