Os mortos que espiam e os que assombram – I

Diário de um desespero – ou quase – XXXIV

João Carlos Pereira

Cemitérios fazem parte dos meus primeiros pânicos. Me lembro, quando criança, tinha pavor de pegar ônibus, nas noites de segunda-feira, e passar em frente ao da Soledade. Não havia como escapar e parece que era uma espécie de condenação. Por que sempre segunda-feira, por que à noite? O velho cemitério estava iluminado por uma quantidade enorme de velas que eram levadas para clarear o caminho dos mortos. Eu me perguntava, ingenuamente, se não teria sido melhor murar o espaço com tijolo, como é pelo lado Dr. Moraes, em vez de manter aquele gradil, que só servia para expor a face mais doída do fim. Parecia que toda segunda-feira era feriado de finados. Agora, quando a televisão volta a mostrar, a todo instante, imagens de cemitérios lotados, de escavadeiras abrindo milhares de túmulos, como se fosse um serviço em série do tipo “minha cova, minha morte” , volto a me apavorar com os campos santos.

Jamais consegui aceitar a ideia de que pessoas – falo dos vivos, claro – iam a cemitérios em busca de paz. Conheci muita gente que afirmava gostar de absorver o silêncio daqueles lugares, enquanto caminhava entre as alamedas, olhando retratos sombrios de gente morta há tempos. Todos sérios, invariavelmente com a cara fechada, nenhum sorriso. Parece que as imagens eram feitas com antecedência, com o vivente sendo advertido severamente: “olha, não faz expressão de alegria, porque este retrato vai ornamentar tua sepultura”. Verdade que, agora, não se coloca foto do morador dos sete palmos na lápide ou sob a cruz, mas antigamente, quem tinha condições, criava um porta-retrato macabro, com moldura de mármore ou bronze e vidro abaulado.

O mais célebre de todos, pelo menos em “Santa Isabel”, é o da jovem Josefina Conte, conhecida como a Moça do Táxi. Quando precisava ir lá, fosse para acompanhar um sepultamento, fosse para dar aula de História da Arte e mostrar aos alunos o último objeto “art nouveau” entrado, legalmente, em Belém, com registro na alfândega e tudo mais – O anjo da Morte, em mármore, vindo da Itália, para deixar claro, através da beleza, que a alma do corpo ali enterrado estava sendo amparado para alçar voo aos céus, uma coisa preciosa, graças a Deus intata – sempre ia olhar, numa espécie de masoquismo compulsivo, o retrato da moça. Dizem, inclusive os coveiros, que o pingente que traz preso ao colar, um carrinho, sumia e aparecia conforme a presença ou ausência da morta no recinto. Se o espírito estivesse por ali, o enfeite aparecia. Caso tivesse ido dar uma voltinha, sumia. Todas as vezes que lá passei, notei o carrinho. Aí é que dava medo. E se ela estivesse me observado, pronta para me dar um raspa, um susto, um aviso, sabe Deus o quê?

Desde pequeno, quando acompanhava uma tia muito amada nas visitas semanais ao túmulo dos pais, ambos nascidos no século XIX, tinha pavor de enxergar algum espírito abicorado atrás de uma sepultura ou de um mausoléu. Eu não fechava, eu apertava meus olhos com tanta força, que chegava a sentir dor. À noite, tinha sonhos horríveis. Vivia assombrado com alma. Não bastasse isso, meu pai era Kardecista, pregador, doutrinador, tudo. Em casa, falava-se de alma como se comenta sobre a vida de um conhecido.

Uma vez, anos 70 do século passado, foi montada uma exposição fotográfica na sede do antigo Cosmorama, em frente à Igreja de Sant`Anna. O papai insistiu para que eu fosse. Era mais uma tentativa para que me convertesse à doutrina que abraçou, depois de uma experiência que serviu apenas para ele. A coisa foi tão marcante, que preciso fazer uma pausa na história dos cemitérios para contar.

Meu pai, assim como eu, nasceu numa casa catolicíssima, conservadoríssima. Não podia ser diferente. Seus avós ainda conviveram com a escravidão e tinham muitas terras, engenhos, negócios em Pernambuco. Pena que não peguei uma lasquinha desse tempo de fartura. O irmão de meu bisavô chegou a ser cardeal primaz do Brasil e eu me acostumei a chamá-lo da forma como era tratado na intimidade: tio Augusto. D. Augusto Álvaro da Silva era príncipe da Igreja, usava a horrenda capa magna, talvez a maior do país, porque era o prelado mais importante, capaz de ser maior do que o véu de noiva da princesa Diana, e sonhou, como seus pares, ocupar o trono de Pedro, depois que Pio X morreu. Claro que nenhum dos 53 votantes podia admitir isso publicamente, porque incorreria no gravíssimo pecado da falta de humildade. Eram tão poucos, que João XXIII elegeu-se ao ser contado o 38º voto. Naquele tempo, como até hoje, sabe-se que quem entra Papa no conclave, sai Cardeal. Exceção, modernamente, se fez a Joseph Ratzinger, que entrou Papa e saiu Papa. Tio Augusto era eleitor, numa época em que o colégio cardinalício era uma coisa miúda. Das Américas, o único que tinha prestígio para ser eleito Papa era ele. Pena que não teve votos. Meu pai sabia, inclusive, que nome ele escolheria, caso fosse escolhido. Uma vez me disse, mas eu esqueci.

Papai era católico de esquerda, mas não sei o que houve que, um dia, virou ateu. Acho que isso coincidiu com a paixão que desenvolveu pelo partido comunista, ao qual chegou a ser filiado. Uma revolta tomou-lhe o espírito, quando conheceu os “comunistas” de sua terra, que se encarregaram de decepcioná-lo. Uma vez, visitou não sei quem, em Recife, que abria uma torneia e dela jorrava…uísque. A célula comunista que frequentava, aqui em Belém, recebia vodka, como ele dizia, legítima, do leste europeu. Sua adesão ao copo era maior do que à ideologia de esquerda, da qual no futuro, debocharia.

Desencantado com a religião e com a política, deveria ter apelado ao Rivotril, mas, nessa época, o medicamento não existia. Nem na Rússia. As grandes discussões que teve com sua amiga Eneida (de Moraes, a cronista), nas festas de longa duração que ela organizava, em sua casa, no Rio, eram por causa do parido. Ele dizia: “Eneida, se tu achas o comunismo uma coisa tão boa, por que não vais embora daqui?” Ela respondia na lata, fiel às suas convicções: “ Olha, Joel, (Joel era meu pai), nós temos é que implantar o regime aqui, isso sim”.

Não sei depois de quantos litros de uísque, vodka ou cachaça cada um tinha tomado esse diálogo se deu. O que sei é que foram amigos e não passaram do limite dessa condição, segundo me contava, nem ele sabia a razão. Eneida, me confidenciava, era uma mulher encantadora, quase irresistível. E quando usava o quase, é porque ao assunto havia parado no ponto, porque homem para contar grandezas estava ali. Outra hora vou escrever a história dele com Lampião. Sim, Virgolino Ferreira, o próprio, em carne, osso e seu facão de furar gente.

Um dia, em Campinas, para ser submetido a uma cirurgia na vista, estava hospedado num pequeno hotel, onde, sem saber, realizavam-se sessões mediúnicas. Ateu, sem ideologia, perdido, mangava de tudo e de todos. Até que, uma noite, alguém o procurou em seu quarto e contou-lhe do corrido no encontro. A criatura levava uma carta psicografada por uma pessoa, na qual estavam reveladas coisas que apenas ele e o espírito que a havia ditado, seu tio e amigo Edwaldo, o irmão mais novo de sua mãe, conheciam. Meu pai entrou em choque. Aquilo não podia ser mentira. Eram coisas muito pessoais, que um conversava com o outro. Em pouco tempo, mergulhou na doutrina e encontrou o caminho de sua vida. Virou espírita e ovelha negra da família.

Sem se incomodar com que pensavam dele, cumpriu sua missão. Em casa, minha mãe e minha irmã aceitavam e seguiram os princípios e a lógica de sua fé. Eu quase fui abduzido, cooptado, convencido, convertido. Como disse na crônica de ontem, minhas histórias tem sempre um quase. Por pouco não embarquei nessa canoa, mas me desencantei de tudo, de Deus, das ideologias, das religiões, como a ele um dia sucedeu, mas só não perdi a fé em Nossa Senhora de Nazaré, até que, graças a Ela, me converti ao catolicismo. Isso é outra história.

Para ser agradável ao meu pai – traduzindo: para não brigar com ele e não lhe causar o maior desgosto de sua vida, que era ter um filho padre, abri mão de minha vocação mais verdadeira e, de joelhos, implorei a um padre barnabita que não fosse tentar convencê-lo a me deixar ir para o seminário. Entre matar meu pai de tristeza e me frustrar, preferi a segunda opção. Aliás, fui fazer Letras para lhe proporcionar mais uma alegria, fazendo do seu sonho, o meu. Já que meu desejo de ser padre estava sufocado, ao menos teria o diploma que sempre desejou e não conseguiu, porque a morte o levou antes. Hoje entendo bem o gesto de meninos que cursam uma faculdade e entregam o diploma aos pais, abandonando para sempre uma carreira. Eu, de certa forma, fiz isso. Mas verdade seja dita: ele jamais me cobrou nada disso. Todos os medos se passavam em mim. Se pudesse, contudo, teria sido arquiteto.

Agora que já sabeis que grande espírita foi Joel Pereira, um tenor refinado, que cantava óperas inteiras, em italiano, e seresteiro apaixonado pela lua, é possível compreender como insistiu para que fosse ver de perto a exposição que mostrava os fenômenos de materialização protagonizados por uma senhora e fotografados pelo maestro Ettore Bosio, um italiano radicado em Belém, que amava tanto a música como a fotografia e teve seu nome colocado no auditório da Fundação Carlos Gomes.

Eu saí da exposição quase paralisado. Tinha tanto medo de que aquilo que havia visto, ectoplasma saindo pelo nariz, boca, ouvido da médium acontecesse comigo, que mal conseguia dar um passo. Li que ela, igualmente medrosa, porque desconhecia a origem do fenômeno, entrava na sessão com terço na mão. Saia tanto ectoplasma de dentro dela, que dava para materializar um espírito inteiro. O curioso, depois observei, era que o rosto da alma parecia uma colagem grosseira, feita com ajuda de cola e tesoura, sem grandes habilidades. Mas como explicar uma flor, materializada, um braço inteiro? Nada, porém, me aplacava o temor. Eu não parava de pensar que havia uma alma atrás de mim, doida para se materializar às minhas custas.

E o que isso tem a ver com cemitério? Tudo. Mas esta conversa já está longa além da conta e deixo o restante, no melhor estilo Sherazade, para amanhã, porque, do contrário, isso para de ser crônica e vira tratado de Tordesilhas.

Fui!

[continua]

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Hugo Simberg (1873-1917) — Kuoleman puutarha (Jardim da Morte), 1896

Crônica

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