Fazer memória dos mortos é abrir-nos à surpresa do “Deus dos vivos”

Adroaldo Palaoro, SJ

Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento…

Lc 12,36

“Fazer memória” dos entes queridos que já fizeram a “travessia” para a plenitude, nos situa diante desta realidade: todos morremos sozinhos, mas morremos, ao mesmo tempo, para todos e com todos, na grande corrente de Vida da qual todos procedemos, na qual todos pós-vivemos; ou seja, retornamos ao coração d’Aquele a quem Jesus chamou “Deus dos Vivos”, não de mortos.

Morremos em Deus, para que nossa vida possa se fazer vida para os demais.

A vida é um contínuo expandir de possibilidades, recursos, dinamismos… e a morte se revela como a “expansão radical”: mergulhados em Deus, nos tornamos universais; rompemos os limites do tempo e do espaço e a plenitude de vida, tão buscada, torna-se realidade.

O impulso que alimenta nosso anseio por sermos eternos, deixa de ser uma ilusão.

Passamos por sucessivas experiências de vida que rompem os limites; assim, o nascimento de uma criança significa expandir sua vida que se tornara estreita no ventre materno. No processo de ruptura, aconteceu uma morte à situação anterior, mas as possibilidades de vida se ampliaram: novo espaço, novas relações, novos desafios… Assim, no percurso histórico de cada um, sucessivas mortes vão abrindo horizontes inspiradores e a vida vai se enriquecendo no encontro com todas as expressões de vida: nas pessoas, na natureza…

A partir desse horizonte de Vida que se abre intuímos que a “grande travessia final” é o processo natural na qual todos, um dia, vão se deparar. Para os que estão do lado de cá da fronteira, têm-se a impressão que a pessoa “partiu”; para os que estão do outro lado, há a certeza que a pessoa está “chegando”, carregada de vida, de memória e de experiências. E viverá para sempre dentro do mistério do “Deus dos vivos”.

Como cristãos, acreditamos que “a vida se transforma no seio da Vida em Cristo”; sua vitória solidária na ressurreição abre, para todos, o mesmo destino: seremos “aspirados” para dentro do coração de Deus.

Há um dado que nos afeta a todos nestes tempos pós-modernos: a incapacidade cultural de abordar os limites, perdas, fracassos, mortes… Vivemos uma cultura na qual a dor e a morte foram expulsas da experiência humana. É algo feio, de mau gosto, algo a ser eliminado da vida cotidiana.

Vivemos uma das grandes mentiras de nosso tempo, ou seja, a morte já não está presente no cenário cotidiano, já não existe. A morte é distante e virtual, que não afeta à nossa própria sensibilidade.

Vivemos como se tivéssemos que ser imortais. Sempre é assunto dos outros, mas nunca pode ser assunto “meu”. Quando ela está perto, as pessoas se afastam dela, ou então, ela é afastada para locais específicos.

É o fracasso radical de uma cultura fundada sobre o êxito e o sucesso e, quando sentem a presença da morte, tudo fica desestabilizado.

Mas o confronto com a morte não precisa desembocar em um desespero que possa destituir a vida de todo sentido. Ao contrário, a morte pode ser uma experiência que nos faz despertar para uma vida mais intensa.

Ela nos faz reingressar na vida de uma maneira mais rica e apaixonada; ela aumenta a consciência de que esta vida, nossa única vida, deve ser vivida de maneira mais inspirada e plena, sem a marca da culpa e dos remorsos. Paul Theroux disse que a morte é tão dolorosa de se contemplar que nos faz “amar a vida e valorizá-la com tal paixão que ela poderia ser a causa verdadeira de toda felicidade e de toda arte”. A experiência da morte pode servir como uma experiência reveladora, um catalisador extremamente útil para grandes mudanças na vida. “A morte, menos temida, dá mais vida”.

O evangelho indicado para este dia nos fala de “velar”, de “estar preparados”: é um chamado a despertar. Estamos despertos quando mantemos uma “atenção plena” ao que acontece em nosso interior e ao nosso redor. Um dos riscos que hoje nos ameaça e esfria nosso fervor no seguimento de Jesus é cair numa vida superficial, mecânica, rotineira, massificada… Com o passar dos anos os projetos, metas e ideais vão se apagando e perdemos a capacidade de dar um sentido novo à nossa existência.

A vigilância não é medrosa e pessimista; é alegre expectativa do Deus que nos surpreende no hoje de nossa existência; é chamado a viver com lucidez e responsabilidade, sem cair na passividade ou letargia.

Por isso é preciso estar despertos e viver a “espiritualidade da espera”: isso implica viver o momento presente, porque qualquer momento é o definitivo, é viver o tempo habitado por Deus. Esperar é estar despertos para nos conectar com essa Presença sempre surpreendente.

Uma visão esvaziada da morte desumaniza a vida presente e nos impede de viver em plenitude o momento atual. A vida presente tem pleno sentido por si mesma. O que projetamos para o futuro já está aqui e agora, ao nosso alcance. Aqui e agora podemos viver a eternidade, quando a vida é atravessada pela Vida divina.

A “espera” tem, sem dúvida, um significado ativo; a “espera” não pode separar-se da busca e do encontro, do agir, do amar e servir. A espera é agradecida, é construtiva, é autêntica sede de Deus.

Espera ligada ao verbo “esperançar”. Nosso coração está habitado de esperas. Vivemos em “estado de espera”. Somos seres esperantes: através das esperas revelamos quem somos.

Longe das esperas superficiais, efêmeras, sem densidade, o cristão vive a Espera que nos abre ao novo, ao futuro, que nos faz criativos…

A surpresa e a riqueza de cada momento fazem de cada instante da vida a antecipação do que será a vida plena. Viver a vida neste mundo, em comunhão com todas as expressões de vida, é conhecer a alegria de apostar como se fôssemos eternos.

É na escuridão da dor e da morte que a se manifesta e nos revela que fomos feitos por mãos celestiais, chamados à vida, para a liberdade, para a bondade, para a amplidão dos céus.

Confessamos que a vida é de Deus e, como Ele, é eterna. E nossa última morada não é sob a lápide fria de um túmulo, mas no coração do mistério de um infinito Amor.

A morte do ser humano é um “trânsito para o Pai”, “morrer para dentro de Deus”. Vivemos “travessias” provisórias até a grande travessia para Deus. A morte é nossa confirmação na mão de Deus: Ressurreição. Assim diz Paulo: “Mas tudo o que é denunciado é manifestado pela luz; e tudo o que é manifestado torna-se claro com a luz. Eis porque se diz: ‘Desperta, tu que estás dormindo, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará”. (Ef  5,13-14)

Texto bíblico: Lc 12,35-40

Na oração: Todos morreremos, mas podemos descobrir na morte a mão de Deus e oferecer nossa mão de amor a todos, como fez Jesus, como fez Maria, como fizeram tantas pessoas que deixaram suas “marcas” de amor em cada um de nós.

– “Fazer memória” dessas pessoas é ativar a “memória agradecida” que inspira um compromisso em favor da vida.


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.

Ano B — Comemoração de todos os fiéis defuntos (finados)

Imagem: Luís Henrique Alves Pinto

Palavra de Deus

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

2 comentários Deixe um comentário

  1. Belíssimo!!!
    Seu texto mobiliza os corações a despertarem profundo.
    A consciência da morte nos humaniza. Nos convida intimamente a valorizar a vida.
    O poeta Caetano nos fez a pergunta: Existirmos a que será que se destina?🎼🎵🎶
    Existimos para amar.
    Obrigada, padre Adroaldo!

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