O contador das histórias de uma Belém inexistente

João Carlos Pereira

Jorge Amado gostava de dizer que não passava de um contador de histórias de Bahia. A isso acrescentem-se os méritos literários da prosa à modéstia do escritor. Padre Luciano Ciman, um santo jesuíta que viveu entre nós, recheava suas homilias com histórias vividas por ele. “O povo adora escutar história. Quando eu introduzo uma historinha no sermão, ninguém se distrai”, revelava o religioso. Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o professor Mendes de tantas gerações, apresentou Lindanor Celina, em seu primeiro livro, “Menina que vem de Itaiara”, como alguém que, ao escrever, conquistava o leitor com a sedutora intimidade de quem conta uma história ao pé do ouvido. Lindanor era insuperável na arte de contar. Gilberto Chaves faz parte desse restrito e seleto time de “conteurs”. Se ele “pegar” a palavra, esqueçam. É uma espécie de uirapuru dos causos da cidade. Quando começa a contar, todos se calam para ouvi-lo. Dos publicáveis aos terminantemente proibidos. Esses, quase sempre, os melhores.

Conheço Gilberto desde muito jovem. Seria melhor dizer, ele me conhece do tempo em que ainda morávamos na Cidade Velha, nos anos 50. Sempre foi amigo querido de meu pai. Ouvia ópera com ele. Eram grandes parceiros. Formavam uma turma maravilhosa, ele, Jane Beltrão, Pedro Pinho Assis, Antônio Camacho, Antônio Loureiro, Lourdes Sobral, Walmiki Mendonça e mais algumas pessoas, cujo rosto aparecem diante de meus olhos, mas os nomes fogem. Entre o começo dessa amizade e hoje, muitas histórias surgiram.

Nos reencontramos no Conselho Estadual de Cultura, onde cheguei. quando ele já estava. Foi presidente, sucedendo outro notável contador de histórias, Clodoaldo Beckman, e passou o cargo para a Lila Tupiassu, que o transferiu para mim. As reuniões do Conselho eram uma alegria só. Pensem num encontro que reunia Gilberto, Maria Sylvia Nunes, Regina Maneschy, Lila, Edy-Lamar d´Oliveira, Anaíza Vergolino, Ruth Moraes (sempre a primeira a chegar) e Eudiracy Silva. Eu corria com a pauta, esgotava os temas, só para ouvirmos as histórias do Gilberto.

Ele só queria um pé para começar a desfiar seu novelo. Bastava uma provocação para que colocasse um sorriso no rosto e apontasse para Maria Sylvia. “Tu sabes disso, Maria Sylvia. Sabes que é verdade”. Se virava para mim e dizia: “não é do teu tempo”. Eu respondia. “não é, mas eu sei”. Era só o que ele queria para se soltar. Às vezes, eu instigava. “Gilberto, não sei aquela parte da história do dr. Cândido”. Ele baixava a cabeça e começa a rir. Ninguém detinha o nosso Ferrest Gamp, o nosso Jorge Amado, o nosso sedutor “conteur”.

Depois que o Conselho foi desfeito, poucas vezes nos encontramos. A última – e mais triste de todas – foi no velório de Maria Sylvia. Desde então, conversamos apenas por telefone. Prosas intermináveis, muitas histórias, promessa de novas reuniões, quando a pandemia der trégua. Ele lamenta que a memória da cidade esteja sendo consumida por uma espécie de Alzheimer coletivo. Os grandes contadores de histórias, gente que sabia de tudo e de todos, está desaparecendo. Restaram ele, Ronaldo Passarinho, Paulo Chaves, a Lila Tupiassu e mais alguns poucos, que conhecem esta cidade do direito e do avesso.

De tudo que falou – e olhe que falou bastante – consegui anotar a existência de um guarda de trânsito conhecido como Valete. “Pensa, João. O homem parece que saiu de um baralho. Era igualzinho um Valete”. Tanta semelhança lhe valeu o apelido – Belém é a cidade dos apelidos – de Valete. Na Belém dos anos 50, com um trânsito indigno desse nome, porque os carros eram poucos, Valete exibia seu gênio horrível, enquanto fazia as vezes do que um dia se chamou de sinaleiro. Todo mundo conhecia o Valete e ele conhecia todo mundo. Exibia autoridade, destratando os condutores. “Ele esculhambava e não se importava quem fosse. Tinha um gênio horrível”. Mil vivas, então, ao velho sinaleiro Arquimedes, que era querido por todos. Sua sinalização parecia a de um maestro regendo sua orquestra.

Enquanto o Valete se estressava, o “Figurino” se distraía. Oficial da Aeronáutica, possuía a única moto da cidade. E não era uma motinha qualquer. Tratava-se de uma máquina potente para a época, cheia de lâmpadas. O “Figurino” devia ser o que hoje se chamaria de “playboy”, versão regional do caboclo ensebado. Cabelo cheio de brilhantina, partido ao meio. Óculos Ray Ban na cara. Uma roupa toda incrementada. Essa a origem do apelido. Se exibia pela cidade como se fosse um James Dean no tucupi.

Na esquina da Rui Barbosa com a São Jerônimo, na porta da panificadora “Combate”, ficava o “engole cobre”. Era um pobre de Cristo – mais um – que esmolava e enchia a cara, ao mesmo tempo. Como o apelido surgiu, ninguém sabe. Se alguém passasse e não mexesse com ele, o caminho estava liberado. Mas se pronunciasse a maldita alcunha, o “engole cobra” encarnava a Arara, literalmente, e desfiava todos os palavrões que conhecia.

Havia um outro, esse totalmente desequilibrado, que agia como se fosse um carro. Andava entre os automóveis, rodando um volante invisível, passando marcha, buzinando. Era o homem-carro. O “Passa-Marcha”. Um doido varrido, coitadinho, que deve ter morrido numa colisão, na qual foi a vítima.

Peruncy fazia parte de uma “seleta” e temida tropa de Delegados baratistas. Com eles ninguém tirava graça. O homem não era normal. Vivia na dureza. Quando estava sem nada, sem um centavo no bolso, se amesandava no Grande Hotel e deixava-se cercar pelos gringos que lá se hospedavam. De alguma maneira se fazia entender e ganhava muito dinheiro, numa roda de apostas, cujo prêmio era ele próprio. Ao afirmar que mastigaria uma taça de vidro e engoliria os cacos, levantava a incredulidade e conseguia que apostassem muitos dólares no seu fracasso. Houve noite em que levou para casa mais de mil dólares, depois de devorar uma taça. Tudo isso com a cabeça cheia de uísque, é claro. De cara limpa não encarava.

Em Abadiânia, o médium e réu em muitas ações de assédio e picaretagem João de Deus também protagonizava essas proezas. Além de coisas piores, como todo mundo sabe. Descobriu-se, recentemente, que as taças que estraçalhava e engolia furiosamente eram feitas de açúcar. Será que o Peruncy, irmão do Coaracy, cuja trágica história de amor daria uma minissérie, era uma espécie de João de Deus “avant la lettre”? Besta é quem duvida.

Havia, ao tempo da juventude do Gilberto, uma figura muito querida chamada Mario “Cuia”. Cuia era o apelido, claro, que ganhou por causa da forma de sua cintura. Foi o maior Rei Momo de todos os tempos e arrebatou prêmios nacionais. Simpaticíssimo, usava uma lambreta e ninguém conseguia entender com um veículo tão pequeno, suportava um homem tão grande. Mario cuia vai merecer uma crônica especial, mas Gilberto fala dele com enorme carinho. “Era um homem espetacular, sempre disposto a ajudar os amigos. Nunca dizia um não a ninguém e tinha alma jovem, alma de adolescente”. Não se trata de um ser folclórico, como os que povoaram esta crônica, mas de uma pessoa que merece ser lembrada.

Da mesma forma, lembra Ronaldo Passarinho, existia na Belém do passado um advogado chamado José Fernandes Chaves, o Chavão, um tipo alto, grandalhão, espaçoso, barulhento. Era uma boa pessoa, mas seu jeito intimidava. Impunha-se pela estatura, pelos gestos largos e pelo vozeirão. Uma vez, trabalhando na PRC-5, fez uma besteira tão grande, que entrou para o anedotário da cidade. O papa Pio II estava morre-não-morre. Numa época em que o único meio de comunicação era o rádio, o pessoal da Rádio Clube procurava sintonizar estações estrangeiras para ouvir o noticiário e repassá-lo aos ouvintes de Belém. Por um lance de sorte, o Chavão alcançou as ondas da Rádio Vaticano, que tocava apenas música clássica, naquele horário. Como, por aqui, música clássica sempre era associada à morte, não teve dúvida: voltou para o estúdio e, com a voz pesada, anunciou o passamento do Papa. “Lamentamos informar que sua santidade o papa Pio XII acaba de morrer, no Vaticano”.

Em seu apartamento, no mesmo prédio onde funcionava a Rádio Clube do Pará, o dono de estação, o “maguenhéfico” Edgar Proença, teve dúvidas sobre a veracidade da notícia e movimentou todo mundo para confirmar a triste informação. Mandou ligar para a Rádio Nacional e para a Rádio Jornal do Commércio, de Pernambuco, onde ninguém confirmou o óbito papal. O Dr. Proença, então, chamou o Chavão e perguntou de onde ele tirou aquela certeza. “Dr,. Proença, nós ouvimos a rádio do vaticano tocando aquelas músicas e deduzimos que o Papa tinha morrido”. O velho Proença tomou-se de uma raiva tão grande e explodiu: “tu não sabes que na Europa as rádios tocam esse tipo de música? Volta imediatamente para o estúdio e desmente essa loucura”. Constrangido, o locutor, tentando corrigir a barrigada, entornou de vez o caldo; “senhores ouvintes, lamentamos informar que o papa Pio XII não morreu”.

Foi demitido na hora.

Outros tipos populares povoaram as ruas de Belém, como o Espanhol, de quem já falei, o professor Gurijuba – interessantíssimo – , o homem Toco e o Espírito de Rico. Como percebem, nenhum tinha nome. Todos atendiam (ou não) pelo apelido, como o Maxico, o Baró, o Carmen Miranda e, mais recentemente, o Viado da Bick.

Tanta gente, tanta história de uma cidade que vai se apagando.
Se é que não se apagou.
Obrigado, Gilberto.


P.S. + P.S + P.S

P.S.1 — Nas crônicas sobre a professora Graziela, a nossa Arara, contei que ela foi pedir ao governador Jarbas Passarinho que editasse um decreto, impedindo o povo de chamá-la pelo apelido. JP disse que não podia e orientou-a a conformar-se. Afinal, ele era chamado de Passarinho e não se incomodava. Arara é mais que passarinho, brincou o Governador que, logo depois, determinou à Secretaria de Educação que aumentasse o valor da aposentadoria da professora. Assim foi feito. A informação, via Gilberto, é de Ronaldo Passarinho, sobrinho de Jarbas e, igualmente, conteur.

P.S.2 — Na primeira crônica sobre a Arara, a foto que ilustrava a capa é de autoria de Elza Lima. Nada de Jenipapo, como chegaram a assegurar. Na quarta-feira, contarei como foi o longo encontro de Elza Lima, uma das pessoas mais amazônicas e mais doces que conheço, com a professora Graziela.

P.S.3 — José Régis Jr., amigo muito querido, me passou informações preciosas sobre as “três graças”, chamadas de Peste, Fome e Guerra. Vou contar na 6ª feira.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Osmar Pinheiro — Fragmentos de uma Constelação N. I, 1991. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

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