Carta aberta aos nossos mártires

Pedro Casaldáliga

Escrevo a todos vocês, mulheres e homens,
que deram a vida pela Vida
ao longo de Nossa América,
nas ruas e nas montanhas,
nas oficinas e nos campos,
nas escolas e nas igrejas,
sob a noite ou a luz do sol.
Por vocês, sobretudo,
Nossa América é o Continente da morte com esperança.

Escrevo para vocês em nome de todos os nossos Povos e nossas Igrejas,
que a vocês devem a coragem de viverem, defendendo sua identidade
e a vontade teimosa de seguirem anunciando o Reino,
contra o vento e a maré do anti reino neoliberal
e apesar das corrupções de nossos governos
ou das involuções de nossas hierarquias
ou de todas as nossas próprias claudicações.
Cremos que enquanto houver martírio haverá credibilidade,
enquanto houver martírio, haverá esperança.

Vocês lavaram as vestes de seus compromissos
no sangue do Cordeiro.
O seu sangue no sangue d’Ele
continua a lavar também nossos sonhos, nossas fragilidades e nossos fracassos.
Enquanto houver martírio haverá conversão,
enquanto houver martírio haverá eficácia.
O grão de milho morrendo se multiplica.

Escrevo para vocês, contra a proibição
dos poderes das ditaduras – militares, políticas e econômicas,
e contra a desmemoriada covardia de nossas próprias Igrejas.
Bem que eles e elas quiseram nos impor
uma anistia que fosse amnésia
e uma reconciliação que seria claudicação.
Inutilmente.
Vocês sabem perdoar, mas querem viver.
Não permitiremos que se apague o grito supremo de seu amor.
Não deixaremos que seu sangue seja infecundo.

Também não nos satisfaremos, superficiais ou irresponsáveis,
exibindo seus pôsteres
e cantando seus nomes numa romaria
ou chorando sua memória numa dramatização.
Assumiremos suas vidas e suas mortes
assumindo suas causas.
Essas Causas concretas
pelas quais vocês deram a vida e a morte.
Essas causas, tão divinas e tão humanas,
que desdobram em conjuntura histórica e em caridade eficaz
a causa maior do Reino,
pela qual deu a vida e a morte e pela qual ressuscitou
o Primogênito dentre os mortos,
Jesus de Nazaré, o Crucificado-Ressuscitado para sempre.

Recordaremos vocês, um por um, uma por uma,
e se não dizemos agora nenhum de seus claros nomes,
é para dizermos vocês, todos e todas, num só golpe de voz, de amor e de compromisso:
Nossos mártires!
Mulheres, homens, crianças, anciãos,
indígenas, lavradores, operários, estudantes,
mães de família, advogados, professores,
militantes e agentes de pastoral, artistas e comunicadores,
pastores, sacerdotes, catequistas, bispos…
Nomes conhecidos e já incorporados a nosso martirológio
ou nomes anônimos, gravados porém no santoral de Deus.

Sentimo-nos herança sua, Povo testemunha, Igreja martirial,
diáconos em caminhada por essa longa noite pascal do Continente,
tão tenebrosa ainda, porém tão invencivelmente vitoriosa.
Não cederemos, não nos venderemos, não renunciaremos
a esse paradigma maior de suas vidas,
que foi o paradigma do próprio Jesus
e que é sonho do Deus vivo para todos os seus filhos e filhas
de todos os tempos e de todos os povos,
em todos os mundos,
para o mundo único e pluralmente fraterno:
o Reino, o Reino, seu Reino!

Com São Romero da América e com todos vocês
e unidos à sua voz e ao compromisso comum
de todos os irmãos e irmãs de solidariedade que nos acompanham.
declaramo-nos “felizes por correr, como Jesus
(como vocês)
os mesmos riscos,
por nos identificarmos com as Causas dos despossuídos”.
Neste mundo prostituído pelo mercado total e pelo bem-estar egoísta,
juramos para vocês, com humildade e decisão:
“Longe de nós nos gloriamos
não sendo na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”
e em suas cruzes irmãs de Sua cruz!
Com Ele e com vocês
seguiremos cantando a Libertação.
Por Ele e por vocês
saberemos jubilosamente
que ressuscitaremos “mesmo nos custando a vida”.


Dom Pedro Casaldáliga (1928 – 2020), poeta e bispo de São Félix do Araguaia, testemunha de muitos mártires. O presente texto foi escrito por ocasião da grande Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, no ano da Graça de 1996.

CASALDÁLIGA, Pedro. Carta aberta aos nossos mártires. Itaici: Revista de Espiritualidade Inaciana, v. 7, n. 25, p. 87-88, set. 1996.

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