Memórias e saudade de um santinho casamenteiro

João Carlos Pereira

O padre Vicente Joaquim Zico poderia ter seguido sua carreira na congregação dos Lazaristas, atuando em Roma ou em Paris, cidades em que viveu e que pelas quais adorava passear, quando podia andar sem rumo. Poderia também ter tido um consultório de Psicologia, porque possuía habilitação na área, ou trabalhado em algum órgão de comunicação da Igreja, já que se formou em jornalismo. Mas os planos de Deus eram outros e aquele sacerdote mineiro veio cumprir seu destino na Amazônia, comandando a maior arquidiocese da região.

Na época, ao saber da novidade, o jornalista Joaquim Antunes, aproveitando a popularidade de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, no auge da carreira como meio-campista, compôs um de seus famosos trocadilhos: “mais um craque para a seleção de D. Alberto”. De craque para a condição de santo, precisou de apenas 23 anos. Um nada, quando se trata de vida religiosa.

A vocação nasceu cedo, na cidade mineira de Luz, sua terra natal e berço dos primeiros estudos. De Dores do Indaiá seguiu para o seminário de Caraça, até chegar à Congregação das Missões, onde professou no dia 19 de março de 1945. Estudou filosofia e teologia no seminário de Petrópolis e se pós-graduou em pastoral catequética, em Paris, entre 1967 e 1969. Atuou como Conselheiro Geral da Congregação Lazarista, em Roma, e, no Vaticano, na Congregação dos Bispos. Foi nessa função que o destino o alcançou, para transformá-lo num dos homens mais amados da história do Pará. Nesse tempo, tornou-se íntimo da Cidade Eterna, pela qual circulava de ônibus, nas tardes de domingo, quando tanto os romanos, quanto os turistas, estão quietos.

No final de 1991 veio ao Brasil e retornou para o trabalho, no Vaticano. Na hora do expediente, o telefone tocou em seu escritório. Era o cardeal Lucas Moreira Neves, avisando que se preparasse para voltar ao país. “Mas eu acabei de chegar de lá”, argumentou, assustado, sem imaginar que a vida lhe reservava uma surpresa. A viagem não seria a passeio, mas a trabalho. Desta vez, não iria para perto de sua gente, em Minas, mas para a família que o Senhor lhe havia preparado: a de Belém. O Papa acabara de designá-lo para a nossa Arquidiocese. O susto foi tão grande, que ousou pedir prazo para pensar. E pensou rápido. Certo de que não poderia dizer não ao que considerava um desígnio divino, em cinco dias se apresentou para a missão. No dia 4 de julho de 1990, João Paulo II o nomeou para dirigir a Igreja de Belém.

Vicente Joaquim Zico contava apenas 53 anos, quando dormiu padre e acordou Bispo. Na verdade, Arcebispo. Essa progressão significa, em termos práticos, subir cinco degraus de uma vez só na hierarquia da Igreja. Ele chegou a Belém como Arcebispo-coadjutor, com pleno direito à sucessão no comando da Arquidiocese. Na prática, era um vice em preparação para a titularidade. Assim que D. Alberto Ramos completou 75 anos e apresentou sua renúncia ao Papa, João Paulo II fez valer o direito à sucessão e o transformou no oitavo arcebispo de Belém do Pará.

D. Vicente, como os amigos mais próximos o chamavam, ou D. Zico, como a cidade o idolatrava, já havia firmado um estreito laço de amor com seu rebanho. O povo o acolhia como se fosse o pai espiritual. O amor durou até o fim, ou melhor, resiste para além dele. No primeiro Círio sem sua presença, na sacada de um apartamento no edifício Manoel Pinto da Silva, em 2015, a “corda” parou no local para gritar seu nome. De lá para cá, não há Círio sem que a memória de D. Vicente seja reverenciada. É um caso único de afeto.

Como Arcebispo, antes que sua jurisdição fosse reduzida e terminasse em Castanhal, criou dezenas de paróquias no interior e na capital, ordenou mais de vinte padres, negociou com o Governo do Estado a instalação do Museu de Arte Sacra do Pará e a restauração da Igreja de Santo Alexandre, além de haver formatado a Fundação Nazaré de Comunicação, que administra a TV e a Rádio Nazaré, mais o jornal e o portal “A Voz de Nazaré”.

Considerado uma unanimidade não apenas entre os católicos, mas por pessoas de todas as religiões, D. Vicente Zico era a bondade e a simpatia encarnadas. Simples e erudito, falava várias línguas, lia obsessivamente e amava Belém. Só não se podia dizer que era genuinamente belemense, porque não gostava de tacacá. Mas isso era o de menos.

Depois de haver passado o comando da Igreja a D. Orani – que insistiu para que ficasse em Belém (tal como D. Alberto) e lhe deu, inclusive, uma sala na Cúria – D. Vicente começou a ser tão solicitado para celebrar casamentos, que os amigos mais próximos o chamavam, carinhosamente, de “nosso santinho casamenteiro”. Todo mundo queria casar com suas bênçãos e a agenda vivia lotada. Quando ouvia a brincadeira, dizia: “eu adoraria ser santo, mas estou longe disso”.

No momento em que, liberado de suas funções episcopais, poderia voltar para Minas, não quis. Disse que sua casa era aqui e aqui ficou. Gostava de assistir ao noticiário nos canais internacionais. Quando entrava no quarto, a primeira coisa que fazia era tirar o anel de Bispo e depositá-lo sobre o criado-mundo. Até quando a saúde permitiu, fez caminhada no quintal da residência arquiepiscopal. Uma vez, me telefonou, pedindo que fosse vê-lo à tarde. Queria que eu encaminhasse uma demanda ao professor Édson Franco, na época reitor da Unama. Na hora marcada, eu o aguardava ao pé da escada, enquanto ele descia sorridente.

Na época, havia colocado mais um stent, talvez o quinto, ou sexto, não sei mais, tantos foram, e estava proibido de fazer esforço e carregar peso. Por um descuido, D. Vicente tropeçou no penúltimo degrau e ia se esparramar no chão. Entre ele cair e, provavelmente, se quebrar, e eu desrespeitar a ordem médica, o mais certo era que eu me expusesse. Sem temer conseqüências, amparei-o. Foi um susto horrível. Com a graça de Deus, não sofremos nada.

Na história da Igreja, poucos religiosos experimentaram promoções tão meteóricas. Giovani Batista Montini era padre e, no dia seguinte, arcebispo. Pouco tempo depois, já seria cardeal de Milão, de onde saiu para tornar-se o papa Paulo VI. Francisco o elevou à glória dos altares, canonizando-o menos de 40 anos depois de sua morte. Nesse processo, D. Vicente tornou-se ainda mais rápido. Pelo menos para sua gente de Belém, foi santo ainda em vida.

Homem pacientíssimo, D, Vicente Zico raramente perdia as estribeiras e agia como pacificador. Uma ocasião, a implicância de um aluno com seu professor, numa tradicionalíssima escola católica da elite belemense, acabou virando um grande problema, a ponto de o Arcebispo ser chamado para mediar o problema. A coisa estava tão na casa do sem-jeito, que os irmãos responsáveis pelo colégio ameaçassem ir embora de Belém. Com toda diplomacia, resolveu a situação.

Apenas uma vez, em anos de convivência, o vi perder a calma. Foi com uma freira, administradora da Rádio Nazaré, que todo e qualquer problema, por menor que fosse, tipo até o que fazer com uma barata encontrada morta no banheiro, descia para importuná-lo. A mulher era freira, mas não era do bem. Perseguia as pessoas, tratava mal os funcionários, não conhecia o sentido de colegialidade. Era o que ela queria e pronto. Não sei qual foi a besteira que a levou à sala do Arcebispo. D. Vicente ouviu pacientemente a queixa da Irmã, até que uma irritação foi-lhe subindo. Não suportando mais a lenga-lenga, bateu com as duas mãos na mesa e ordenou: “Fulana, (berrou o nome dela, que aqui não reproduzo em respeito à sua Congregação), me deixe trabalhar!!!” A mulher baixou a cabeça e foi embora.

Havia uma outra freira que, ao seu tempo, trabalhava na Cúria, comandando a pastoral da Saúde. Chamava-se Hélia, Maria Hélia de Jesus. Essa merece uma crônica de saudade e de muito afeto. Era uma freira do bem, uma grande mulher. Prometo que escreverei sobre ela. Irmã Hélia dirigia o próprio carro, um Lada vermelho, já meio baqueado, e o estacionava onde visse vaga. Invariavelmente era na do Arcebispo. Chamada para mudar o veículo de lugar, se repreendia: “Ah! De novo?”. Virava-se para D. Vicente e dizia, simplesmente: “desculpe, Dom”. Ele caia na risada.

Quantas vezes d. Vicente e eu demos boas risadas. Eu saía da Rádio Nazaré, onde era voluntário e apresentava um programa chamado “Conexão Nazaré”, na época em que a palavra “Conexão” ainda não havia sido desgastada pelo uso excessivo e ia visitá-lo. Seu gabinete ficava no térreo do edifício Paulo VI, sede da Cúria Metropolitana, onde a emissora está instalada. Batia levemente na porta e, se estivesse sozinho, entrava para tomar um cafezinho. Caso não, fazia um aceno e ia embora. Tínhamos esse código. Era visita de médico, porque a agenda era lotada. Conversávamos um pouco e eu partia, com vontade de ficar.

Devo a D. Vicente grande parte do suporte de que necessitava, quando comecei minha conversão ao catolicismo. Se isso não é milagre, não sei o que pode ser.

Para a igreja católica, é preciso haver “fumaça de santidade” a fim de que uma pessoa dê os primeiros passos rumo à glória dos altares. Fumaça significa sinal, algo como “onde há fumaça, há fogo”. No caso de D. Vicente, que está sepultado na Catedral, não havia, ou não há, fumacinha de santidade. Existe uma floresta amazônica inteira, ardendo em chamas de fé e produzindo denso fumo revelador de que, entre nós, viveu um santo. São Vicente Zico.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

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