Em outubro – real ou virtualmente – está confirmado: haverá Círio!

Diário de um desespero – ou quase – LXXXVIII

João Carlos Pereira

Uma das grandes lições de jornalismo aprendi veio embrulhada numa bronca sem tamanho. Eu cobria o setor de artes e espetáculos, num tempo em que não havia espaço exclusivo para esse tipo de noticiário. Publicávamos o que era relevante e pronto.  Aos domingos, quando havia muito anúncio – era um tempo tão fértil… –  fazíamos o que era chamado de “rabo”, uma espécie de puxadinho do primeiro caderno. Se havia data festiva, surgiam rabo, rabinho e rabicho. O departamento comercial enlouquecia e a tesouraria comemorava. Era uma quarta-feira, lembro bem, e eu tinha uma notícia guardada para domingo. Uma bomba, um “furaço”, mas eu, recém-chegado ao jornalismo, não compreendia bem a dimensão do estrago que ela faria.

No meu bloco de anotações estava uma entrevista com o secretário de Cultura, Desportos e Turismo da época, Olavo Lira Maia, sobre a transferência de todos os quadros do Estado para o âmbito federal. A pinacoteca inteira – in-tei-ra – do Pará passaria para o controle de um órgão federal que, segundo Lira Maia, poderia cuidar dela melhor do que o Estado. O diretor-redator-chefe, Claudio Sá Leal, me perguntou o que eu tinha de novidade e eu contei essa, avisando que era para domingo. O homem arregalou o olho e e soltou um palavrão tão expressivo, tão entusiasmado, que até me assustei. “Notícia não se guarda, João. Me dá logo esse material”. Resultado: a transferência virou manchete de primeira página e o negócio foi virou água. O Pará ficou com seus quadros e nunca mais se falou disso.

Como a frase do meu antigo chefe nunca saiu da minha cabeça – “Notícia não se guarda, João” – desde ontem à noite que tenho uma muito boa, tão boa que não posso esperar pela edição vespertina, às vezes quase noturna, da crônica. Tem que ser pela manhã, agora, já: teremos Círio!

Não sei se os jornais publicaram essa notícia, mas os leitores deste espaço virtual, assim como eu fiquei, haverão de ficar felizes com a confirmação de que, no dia 11 de outubro, o Círio acontecerá de alguma forma. Como, não se sabe. Ninguém pode dizer agora. Mas o evento está confirmado. A certeza foi dada ontem, numa live de Manoel Leite, um produtor cultural que se interessa pelo tema, com o coordenador do Círio 2020, Albano Martins Jr.

A primeira grande dúvida foi apresentada em duas palavras. “Haverá Círio?”, perguntou o apresentador. “Sim, haverá. Só não podemos dizer como, mas haverá”, respondeu, sem hesitar, o Coordenador.

Da forma como a Diretoria trabalha para a realização do Círio desde o momento em que berlinda chega à Praça Santuário, um ano antes, as peças estão todas encaixadas e a engrenagem está em movimento. Há dois planos – o A e o B – que serão executados a partir de um sinal de D. Alberto. Se, por um milagre, semelhante ao operado por Jesus, na véspera da grande batalha de Ourique, em Portugal, quando os lusos venceram um exército mouro, dez vezes maior que o seu, ganhando uma guerra perdida na origem, a partir de uma estratégia revelada por Jesus Cristo em pessoa ao rei de Portugal, numa grande tela aberta no céu, o corona vírus estiver dominado, não houver risco de saúde à população, acontecerá o plano A.

Plano A

O plano A é o Círio tradicional. “Basta que dom Alberto me avise com trinta dias de antecedência, porque estará tudo pronto”, garantiu Albano Martins. O cartaz continua vendendo como água, nos supermercados. A corda foi encomendada e virá de qualquer jeito, nem que seja para  ficar exposta. O problema maior serão as flores, mas para isso entrará em campo a genialidade de Paulo Morelli, que poderá se valer das espécies regionais. As forças de segurança serão mobilizadas e tudo funcionará como sempre.

Plano B

O plano B é mais audacioso e, pela maneira como está sendo tecido, parece ser o mais viável. Um Círio virtual, com muitos vídeos produzidos em 360 graus – ou seja:  visto de todos os ângulos – links com as TVs abertas, tratativas com o Google, Face e Sony, além dos canais do You Tube estão sendo feitas para mostrar ao mundo que a fé dos paraenses pisa a cabeça do corona vírus e esmaga o medo.

No mundo real, o arraial será redesenhado no estilo “drive thru”, com restrição de entrada. Pode não haver tantas romarias, mas isso ainda é incerto. A imagem do achado descerá do Glória, haverá apresentação do manto que a Khátia Novelino borda há algum tempo, segundo o coordenador, “está ficando lindo”. O Círio, de alguma forma, estará nas ruas.

Para quem consegue ler notícias não anunciadas, esta deverá ser a opção da Igreja.  Albano Martins Jr. não deu garantia de nada, mas pelo trabalho que se prepara nos bastidores, a realidade está mais para plano B do que para A. Um plano B perfeito, completo, cinematográfico, que entrará para a história como um recurso extraordinário e de imenso amor por Nossa Senhora.

Do ponto de vista da bondade, 2021 depende de 2020 para existir. Boa parte do que é arrecadado com o Círio mantém as obras sociais da Paróquia de Nazaré o ano todo. Só para ter uma ideia, três creches vivem, exclusivamente, do dinheiro do Círio. Em torno do Círio há questões que extrapolam a fé dos devotos. A economia do Pará cresce de uma forma impressionante nesse período. Muita gente depende, financeiramente, de forma indireta, da realização da festa de Nazaré. Os concessionários do arraial, as pessoas que vêm de fora, as gentes daqui, o comércio em geral têm, nesse momento, o seu Natal.

Espiritualmente falando, o Círio é um banquete — nada a ver com pato no tucupi e maniçoba — que desce dos céus e nos alimenta o ano todo.

Em outubro, vamos poder desejar a todos “um bom Círio”, “feliz Círio”.

Nossa maior alegria está garantida.
Viva Nossa Senhora de Nazaré!!!!


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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