Jesus: Pedra Angular

Cyril Suresh, SJ

Jesus, como Pedra Angular,
é o Caminho para a Jerusalém Celeste

Neste domingo, a proclamação da Palavra tem um duplo contexto de uma ação (sumir) consumadora e de outra ação (assumir) responsabilizadora. O sumir é destacado pela despedida de Jesus e o assumir pela consagração dos discípulos. O contexto atual de pandemia de covid-19 nos lança novamente num agudo compromisso com a Palavra. O Dia das Mães desperta em nós uma gratidão especial ao amor materno e à pessoa da mãe, no seu cuidado incomparável e incondicional. Sem dúvida, a mãe é uma pedra especial na construção da família. Desemaranhando cada parte da leitura podemos encontrar uma força imensa de Deus que constrói a vida, cura a doença, restabelece o cuidado recíproco no mundo.

A tipologia bíblica estuda os tipos e as formas por meio de diferença intuitiva e conceitual, de comparação básica e de prefiguração ou identificação das características num enredo da narração bíblica. Por exemplo, a figura do José do Egito tipologicamente apresenta algum biótipo morfológico ao do Jesus. Na comparação entre eles, o José é o pastor e pedra (fundamental) do Israel antigo (Gn 49,24) e Jesus é o bom pastor (Jo 10,11) e a pedra angular (1Pd2,8; Rm 9,33) do novo Israel.

Nesta dinâmica tipológica, podemos anotar o caráter figurativo dos termos e das expressões guiando o leitor-ouvinte moderno na fé. Podemos observar que semanticamente as leituras de hoje têm certos termos interconectados. Por exemplo, casa, templo, cidade, morada, habitação, tenda, edifício etc. A pedra (λίθος) é imprescindível na construção do templo. A simbologia bíblica perscruta os novos sentidos em cada expressão significativa. Neste sentido, o provérbio semítico “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”, citado muitas vezes na Bíblia (cf. Sl 118,22; Mt 21,42; Mc 12,10-11; Lc 20,17; At 4,11; 1Pd 2,4.8) declara uma conexão paradoxal entre os construtores e as pedras. A vida de Jesus é enquadrada e interpretada também dentro da sabedoria deste dito bem antigo.

Na forma metafórica, é curioso que os construtores profissionais não saibam identificar a pedra angular (principal, central, fundamental); ela foge deles! Tal pedra que recebe o maior peso do edifício é a pedra de sustentação. Ela dá uma segurança verdadeira. Ela mantém a morada firme, forte, em pé no meio da tempestade. Ela é uma mãe. Porém, uma pedra que foi rejeitada na construção não serve para nada. Tal pedra torna-se um tropeço, um escândalo para destruição. Na tradição bíblica, a pedra de tropeço é uma forma figurada de ser objeto de idolatria, por exemplo, falsos deuses e riquezas materiais que levam para a iniquidade (cf. Is 57,14; Ez 7,19; 14,3.4; Sf 1,3). Ela também se refere originalmente à armadilha e a cilada colocada no caminho da vida. (cf. Mt 16,23; Rm 14,13; 1Cor 8,9; Ap 2,14)

Quem são os construtores? Que tipo de construção é focado neste relato bíblico? Analogicamente, Jesus é aquela pedra fundamental da Igreja; ele foi rejeitado pelos incrédulos radicais que não acreditaram na Palavra e no projeto do Messias. No entanto, Deus escolheu aquela pedra rejeitada e na base dela construiu seu templo sagrado, sua habitação santa e sua casa eterna. O Deus da vida e da construção é aquele construtor eficiente que escolheu Jesus como Pedra Angular. João Batista já afirmou aos fariseus e saduceus da sua época, “até destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3,9). Os construtores corruptos são aqueles incrédulos interesseiros cuja miopia leva só para destruição ou enganação; eles rejeitaram, esmagaram e despedaçaram aquela Pedra Viva, Jesus Cristo! Em outras palavras, uma pedra pode ser vital (cardinal) para uns ou mortal (obsoleta) para os outros. A pedra angular para alguns ou pedra de tropeço para  outros. Decisivamente Jesus se exemplifica como Pedra Central na construção do Reino de Deus, ao mesmo tempo, como a pedra de tropeço para os incrédulos.

O pregador da segunda leitura é o apóstolo Pedro (1Pd 2,4-9). Ele é um sintonizador deste teor edificante. O nome original deste pescador era Simão (significa aquele que escuta); ele era filho de João/Jonas; foi Jesus que o chamou e trocou o nome dele para Cefas (significa pedra); sobre essa pedra ele construirá a sua Igreja do Reino, entregando-lhe as chaves (responsabilizadoras) do Reino dos Céus (cf. Jo 1,42; Mt 16,17-19). Logo, Simão Pedro, que foi uma vez a pedra especial, foi censurado como ‘pedra de tropeço’ para Jesus (Mt 16,23). No seu instinto de sumir (desistir) Pedro se queixa e negou Jesus. No entanto, Pedro foi conduzido na escola de Jesus com o direto e a justiça (Sl 32,5), com o amor (paterno e materno) e a paciência (Jo 21,15-22). Em fim, Pedro foi capaz de assumir o seu papel de liderar a Igreja. Agora é ele que anuncia ao povo santo exclamando: “vocês são pedras vivas na construção do templo espiritual” e vocês são raça eleita, sacerdócio régio, nação santa (1Pd 2,5.9)

Pedro prossegue com sua metáfora de construção. “A Casa de Deus”, que é o templo sagrado, onde o serviço dos sacerdotes consagrados santos (hagios, ἅγιος) é nele oferecer sacrifícios. Deus disse ao povo (laos, λαός) de Israel: “Vocês serão para mim um reino de sacerdotes” (Ex 19,5). O sacerdócio universal dos fieis está demonstrado neste trecho de Pedro (1Pd2,4-10) e o sacerdócio ministerial do povo está instruído nos Atos (6,1-7): Os homens de virtudes, cheios de Fé e do Espírito Santo, pela imposição das mãos dos apóstolos e pela oração, assumiram seu ministério (ser diácono) na Igreja como administradores, construtores, servidores de Deus. Os israelitas do tempo antigo são pessoas consagradas ao serviço de Deus; em modo análogo, hoje o povo de Deus é Igreja, assembleia santa e consagrada que oferece sacrifícios, servindo os próximos. Pois Jesus o amou e se entregou a si mesmo pelo povo, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave (Rm 6,19). Todo povo é um só corpo em Cristo, e, cada um por sua vez, é membro dos outros (Rm 12,5). Modernamente percebemos que nossos corpos são as células que formam o único corpo de Cristo; apologeticamente todo povo edificado no mistério da Trindade é o povo de Deus-Pai Criador, o corpo (místico) de Cristo-Filho Redentor e o templo de Espírito Santo-Santificador (Vat-II, LG n°6-12; Catecismo da Igreja Católica, nº 781-801) 

O contexto de Despedida (Jo 13-17) encaminha Jesus para descer, pela morte na cruz, à mansão dos mortos e para subir, pela ressurreição, à casa de Deus-Pai. Agora, Jesus exorta os seus (a Igreja) discípulos amado dizendo “não se perturbe o vosso coração”, isto é, NÃO FIQUEIS AGITADOS (Jo 14,1). Sua fé e sua esperança seriam perturbadas pela terrível morte, em certo modo, sacrílega ou maldita, do mestre. Essa perturbação tem como base o coração onde os pensamentos e as decisões têm sua sede em sentido figurado. 

Jesus constata também dizendo, “vós conheceis aonde vou e conheceis o caminho” (Jo 14,4). Esse caminho é de Jesus, ou ele é o caminho, especialmente o da obediência e o da confiança no Deus-Pai. Jesus é o caminho para o Pai. A verdade e a vida parecem ser pleonasmos ou redundâncias em que as novas expressões clarificam a primeira delas, que no caso é o caminho. No caminho nada é fácil. O caminho de Jesus passava pela cruz que era o motivo básico no qual, a fé em sua divindade era questionada. A verdade e a vida se encontram como se encontram o caminho e a meta. O termo Caminho (hodos, ὁδός) é sinônimo de método (μέθοδος) e de êxodo (ἔξοδος). Isto é uma jornada ininterrupta com sua porta sempre aberta conduzindo o sujeito peregrino para sua casa (oikos, οἶκος) de Deus, a matriz pela qual os afetos e as forças humanas se repousam. Para a qual uma ética (ethos, ἔθος) da escuta (Palavra) e da obediência, e uma mística da vivência dos afetos nos relacionamentos da aliança fiel (pathos,πάθος) são inseparavelmente indispensáveis. Jesus é o Caminho (Jo 14,4) tanto quanto a Porta (Jo 10,9)

O significado simbólico está no nome Jerusalém (Yerushaláim ירושלים ) que tem  duas raízes semíticas: A primeira é “Jeru” (ירה) que tem um múltiplo sentido de instrução, visão, nação, casa, lugar, templo, cidade, morada, tenda, habitação, etc. E a segunda é “Salém” (שלמ) que, por sua vez, tem um múltiplo sentido de shalom, paz, integridade, verdade, fidelidade, bem-estar, vida, saúde, plenitude, salvação etc. Uma narrativa do caminho místico identifica a Jerusalém celeste com a Casa de Deus; é o Templo Sagrado de Paz que tem imenso espaço (infinito) com muitos compartimentos reservados aos justos, santos, servos, construtores, povo de Deus. Nós sabemos: quando a nossa morada terrestre, a nossa tenda, for desfeita, receberemos de Deus uma habitação no céu, uma casa eterna construída por mãos sagradas do Cristo Jesus Crucificado-ressuscitado (cf. 2Cor 5,1).

Existem muitas moradas no céu? (Jo 14,2). No sentido primário, a morada é um lugar onde se habita uma casa, um lar etc. No sentido metafórico, o povo de Deus é chamado para estar junto com Deus, “morando” com Ele. Há muitas moradas, quer dizer, lugares para todos (todos os que acreditam na palavra e obedecem à Palavra). Jesus no Evangelho não limita os lugares junto a Deus. O modo narrativo de dizer “muitas moradas” significa que todos (Povo de Deus) foram chamados e existe lugar para todos na casa de Deus-Pai. A habitação de Deus, a casa do Pai, a Casa do Céu, é um lugar sagrado como o direito, a justiça, a verdade, a vida etc. 

O caminho dos discípulos é o mesmo do Jesus? A cruz de Cristo é motivo de tropeço? O Cristo Crucificado e sua missão redentora foram para os incrédulos uma pedra de escândalo (cf. Mt 21,42; Mc 12,10; Lc 20,17; At 4,11; 1Pd 2,6-8; Rm 9,33; 1Cor 1,23; 1Pd 2,8). A cruz é necessária no caminho que leva para ressurreição, justificação, salvação. A cruz sem o Cristo é escravidão; o Cristo sem a cruz é idolatria. Para o povo de Deus, Igreja santa, o caminho de Jesus é o percorrido pelo mal do mundo causando sofrimento para todos. No entanto, Jesus atesta dizendo, “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo!” (João 16, 33). Sem dúvida, o caminho de Jesus é o caminho do seu povo seguidor. 

O encantamento do salmista é significativo. O termo pedra (λίθος) é sinônimo de rocha e rochedo. O salmista canta dizendo, “O Senhor Deus colocou meus pés sobre a rocha e firmou os meus passos” (Sl 40[39],3). “Deus é meu rochedo, minha fortaleza, meu libertador, meu refúgio, meu escudo” (cf. Sl 18[17],3; 42[43],9; 71[70],3). Nesta firmeza um duplo trabalho de alegrar (interior) e agradecer (exterior) está visível no Salmo 33[32]:

  1. Alegrai-vos no Senhor: isso quer dizer, sejam felizes ou bem-aventurados (justos, beatos, saciados, santos, edificados)
  2. Dai graças ao Senhor: Celebrem, exultem, agradecem e glorifiquem (ação de graças, Eucaristia)

O povo (λαός), figurativamente narrado como Sião, Jerusalém, cidade celeste, nação escolhida, assembleia santa (ἅγιος), raça sacerdotal adquirida para Deus, é construtor, administrador, ministro, diácono, servidor, presbítero na casa de Deus (Igreja) pelo sacerdócio de Cristo que Deus edificou-o como pedra (λίθος) fundamental da sua morada eterna.


10 de maio de 2020, 5° domingo do tempo Pascal.
Atos 6,1-7 | Salmo – 32(33) | 1 Pedro 2,4-9 | João 14,1-12

Nascido na Índia, padre Cyril Suresh Periyasamy cresceu em uma família de tradição religiosa hinduísta. Na adolescência, ao conhecer a história de Jesus Cristo, converteu-se ao Catolicismo, sendo batizado aos 17 anos. Durante seus estudos, em uma faculdade jesuíta, ele tomou contato com a espiritualidade inaciana e decidiu ingressar na Companhia de Jesus. [saiba mais]

Palavra de Deus

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