A imensa saudade do dr. Aurélio do Carmo – parte I

Diário de um desespero – ou quase – XLII

João Carlos Pereira

Eu já estava com a crônica de hoje prontinha, revisada e tudo, com uma carinhosa homenagem ao ex-governador Aurélio do Carmo, quando chegou a notícia da morte do querido amigo. Na mesma hora, meu coração foi tomado de uma tristeza tão grande, que achei certo homenageá-lo, republicando uma entrevista que me concedeu, em 2013, conforme o leitor poderá ver no final do texto.

Ela foi publicada na coluna “Nos Bastidores”, que mantive, por longos anos, no jornal “O Liberal”. Como era muita informação, porque Aurélio do Carmo tinha muito o que contar, a matéria foi dividida em duas partes. Amanhã, seguindo a cronologia original, haverá a continuação.

Se, como no poema de Drummond, “havia uma pedra no meio do caminho”, no meio da pandemia, para mim, por conta dessa morte, houve uma devastação. Pelo menos, se isso consola um pouquinho, não perdemos o querido dr. Aurélio, um ícone de honradez e de sabedoria, para este terrível corona vírus.


  1. Aos 92 anos, sentado em sua poltrona favorita, no enorme terraço de sua casa, o ex-governador (o título de que mais gosta, entre tantos outros que possui e sem a nenhum desmerecer) Aurélio do Carmo pensa na vida e busca na memória lições para o presente e, sobretudo, para o futuro. Poderia ser um homem refém do passado, mas parece haver encontrado, nuns versos de Carlos Drummond de Andrade, o local exato para refazer o ânimo e manter-se tão ativo como é permitido, pela natureza, a um homem que se aproxima do século. Para ele, a ideia de que “o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”, última estrofe do poema “Mãos Dadas”, do poeta itabirano, se transformou na melhor explicação para tanta disposição.
  2. O bem-nascido menino não usufruiu muito tempo do chamado berço esplêndido. Com a morte do pai, que era juiz substituto no município de “Siqueira Campos”, depois rebatizado de Capanema, as coisas começaram a apertar. Aluno do tradicionalíssimo Colégio Moderno, naquela época acessível apenas à classe média alta, viu-se na contingência de deixar a escola porque a mãe não podia pagar a mensalidade. Sabendo tratar-se de um aluno brilhante, o diretor da instituição, professor Serra, não permitiu a saída de Aurélio do Carmo e disse que, quando pudesse pagar as mensalidades, pagaria. “Nós nunca pagamos nada, porque não havia como. Mas estudei lá até quando foi necessário. Eu tinha só um paletozinho, que era lavado no sábado, para na segunda-feira poder sair”.
  3. Como a faculdade, apesar de pública, era paga, o acadêmico de Direito ingressou por um sistema semelhante ao de cotas, cuja vaga só seria garantida se o aluno não tivesse nenhuma nota menor do que 8. Para ajudar nas despesas, conseguiu o primeiro emprego no Tribunal de Justiça onde, curiosamente, terminou a vida profissional, sentando numa cadeira de desembargador. “Eu ocupei as mais importantes funções públicas do Pará. Fui secretário de Estado em diferentes ocasiões, professor universitário, promotor, procurador da fazenda nacional. Também trabalhou como despachante (carreira que teve de deixar, porque a primeira esposa, dona Lourdes, foi aprovada em concurso para mesma função e o governador Barata disse que não queria duas pessoas da mesma família naquele trabalho), delegado e chefe de Polícia: “naquele tempo, prendiam-se comunistas e integralistas. Eu nunca abri a ficha de ninguém e, na minha época, não houve sequer uma prisão por questões ideológicas”.
  4. Para um homem que tinha, segundo as próprias palavras, sonhos de planície, a vida lhe deu montanhas. De tudo que fez profissionalmente, uma atividade foi especial: a de jornalista. Na fase em que O LIBERAL era o “órgão oficial” do PSD, o partido de Magalhães Barata, e circulava com quatro folhinhas de nada, dr. Aurélio filiou-se ao Sindicato dos Jornalista apenas para ajudar na elaboração do jornal. Seu registro profissional foi o 157º . A carteira de jornalista está guardada como lembrança de tempos difíceis e, ao mesmo tempo, felizes. “Nós fazíamos tudo com amor e não ganhávamos um centavo”.
  5. O rapaz que sonhou trabalhar na área das relações internacionais, e só não o fez porque precisava ajudar a mãe a manter a casa, concluiu a Faculdade de Direito, acalentando o sonho (jamais realizado) de, um dia, ser nomeado Diretor do Presídio “São José”, porque, naquela época, ainda acreditava que a cadeia podia ressocializar um homem. As boas intenções e o temperamento conciliador davam espaço para o governador Magalhães Barata exibir seu temperamento irascível: “Lá vem o senhor com a sua vaselina”, bradava, quando era levado a ponderar, com o equilíbrio que lhe faltava, mas sobrava ao dr. Aurélio, na hora de resolver alguma situação.
  6. Para quem apagava incêndios no gabinete do governador Magalhães Barata, conflitos maiores não assustavam. Foi ele quem conseguiu impedir, por exemplo, que o Pará o Amazonas, os dois maiores Estados brasileiros, colocassem seus policiais militares em campo para evitar uma disputa – acreditem! – por terras. “Eu conversei com o professor Santana Marques e acabamos com uma luta inútil. O (Gilberto) Mestrinho ainda levantou a tropa, mas foi para fazer encenação, porque já estava tudo resolvido e ele precisava justificar os gastos com uma situação que não houve”.
  7. Além de estudioso e hábil no trato com as pessoas, tinha também boa estrela para a vida pública. Amigo dos caciques da política e íntimo colaborador de Magalhães Barata, foi ele quem reparou, durante um comício na cidade de Tomé-Açu, que o senador Lameira Bittencourt, candidato do PSD ao Governo do Estado, estava exageradamente magro. “As calças dele pareciam calças de palhaço, de tão grandes que ficaram”. Aconselhado a retornar a Belém para cuidar da saúde, Lameira morreu pouco tempo depois, vitimado por um câncer. O único homem, no partido, capaz de enfrentar o general Zacharias de Assumpção era Aurélio do Carmo. Tendo Newton Miranda como Vice, derrotou não apenas o maior adversário político de Barata, como o maior líder católico da época, que era Aldebaro Klautau. Dr. Aurélio tinha apenas 40 anos de idade, quando recebeu a faixa de Governador do Estado do Pará.

— Mais histórias de Aurélio do Carmo, na próxima semana.
— Amanhã, a parte dois desta entrevista histórica.


Belém, 8 de junho de 2013
Belém, 1º de maio de 2020

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Carlos Scliar — Cadeira, 1963.

Crônica

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