Três poetas – Drummond, Mário Faustino, Quintana – e uma história

Diário de um desespero – ou quase – XXI

João Carlos Pereira

Ao ditado “a crianças não prometas e a pobre não devas”, ouso acrescentar uma terceira frase: com leitor não te comprometas, porque a cobrança é certa. Nos dois sentidos. Certa porque chega, do tipo fatura da luz, “líquida e certa”, e certa porque é correta, justa, direito que assiste a quem sai dos seus cuidados, como se dizia antigamente, para nos prestigiar. Como prometi contar a história da bronca que levei de Carlos Drummond de Andrade por causa de Mário Faustino, preciso honrar minha palavra.

No começo dos anos 80, o diretor-redator-chefe de “O Liberal”, o jornalista e advogado Claudio Augusto de Sá Leal, a quem um colega, para mangar de sua situação de onipotência e onipresença na empresa e do fato de ser o 001 na confiança do dono do jornal, chamava de Augusto Claudio, bolou um caderno em homenagem ao poeta piauiense, que cresceu em Belém e aqui começou a forjar sua vastíssima cultura, e me entregou a responsabilidade de produzi-lo. Era para sair no dia 15 de novembro, data do aniversário do jornal.

No começo de agosto ele me chamou e avisou, com sua voz nasal: “tens três meses para fazer. Faz uma coisa que preste, porra”. Porra era vírgula, exclamação, vocativo, nome próprio, substantivo simples, adjetivo, expressão de alegria e de fúria na boca dele. Virou uma espécie de “prego”, na língua italiana. Quando se irritava – e se irritava com enorme facilidade – repetia a palavra várias vezes seguidas: “porra, porra, porra, porra, quem foi que te mandou fazer essa porra?” No começo, me assustava , depois até ria dos ataques.

Amigo de Benedito Nunes, Haroldo Maranhão, Machado Coelho, Ruy Barata e Francisco Paulo do Nascimento Mendes – apenas para citar cinco das mentes mais brilhantes que esta terra produziu – Mário devia a solidez e a largueza de seus conhecimentos, em grande parte, a eles. Por isso o caderno que o Dr. Leal – era assim que eu e mais alguns o chamavam, embora a maioria dos colegas não prestasse essa deferência e o tratassem de igual para igual, pelo último nome – teve como título “A Formação paraense do poeta”. Acho que o caderno ficou bom, porque o silêncio do Dr. Leal era um elogio e tanto. Hoje o entendo. Fazer bem feito era, no mínimo, minha obrigação.

Para colocar a ideia em prática, me ajudou a listar nomes que poderiam ajudar e, entre tantos que seriam ouvidos, estava Carlos Drummond de Andrade que, imaginei , coisa da minha cabeça, poderia ter sido seu amigo, ao tempo em que esteve no Rio de Janeiro. Não me lembrei – juro por Deus, Nosso Senhor, segurando a barra do manto de Nossa senhora de Nazaré – que Mário, dono de uma inteligência privilegiadíssima, de uma cultura densa e sólida, que se aliavam a um senso crítico e a um bom humor raros, havia feito algumas considerações sobre Drummond, no seu espaço “Poesia-Experiência”, quando analisou o trabalho de vários poetas brasileiros.

Mário Faustino tinha autoridade para falar, porque, além de conhecer poesia – e conhecia muito bem –, também refletia sobre ela. Por isso era temido. Consta que, quando trabalhava no JB, uma pessoa, um desses poetas que se acham os tais, mas, na verdade, mal conhecem seu lugar na fila do pão, entregou seu novo livro à condessa Pereira Carneiro, dona do jornal, e pediu a ela que não deixasse o Mário Faustino fazer a crítica, porque com certeza ele não iria gostar. Impressionada com a sinceridade (e com o pavor) do poeta, quis saber a razão e argumentou: “mas ele nem leu….”. O autor, abusando da coragem, suspirou: “ele não gosta de nada”….

Não era verdade. Mário gostava do que era bom, mas não fazia concessões a porcarias. Em sua coluna, anotou que Cecília Meireles, a quem tratava de dona Cecília, “escreveu os melhores poemas-canções da língua desde a renascença portuguesa”. Mas reclamou do fato de ela publicar muito. Tratou Carlos Drummond de Andrade de o “poeta-maior”, disse que sua obra “é um momento central não só de nossa poesia, como de nossa literatura”, mas não se conformava com as crônicas que publicava no próprio JB (republicada em vários jornais do Brasil, inclusive no Liberal). Respeitava os irmãos Campos, mas não nutria o menor interesse pessoal na poesia que produziam. Assegurou que Vinícius de Moraes estava de “quarentena” da poesia e apontou Jorge de Lima como o mais original poeta brasileiro de todos os tempos. Só uma pessoa respeitadíssima poderia se pronunciar dessa forma sobre gente do andar de cima da poesia brasileira.

Sobre a função do crítico, tinha uma opinião que é, em poucas linhas, uma verdadeira aula. Ensinava que o dever do crítico não é dizer se uma obra é boa ou ruim. Quem deve decidir isso, segundo Mário Faustino, é o leitor. “Ao crítico cabe iluminar determinados pontos do livro, filme ou obra analisada”. Porque, completaria, “não estamos escrevendo nos papiros da eternidade e sim no barato papel de um jornal vivo: o que nos interessa é instigar, provocar, excitar, em certas direções, a mente do leitor competente”.

Poeta de excepcionais qualidades, Mário Faustino era um homem de temperamento alegre, despachado, bem diferente do de Drummond, discreto, introspectivo, mas isso, com certeza, não tinha nada a ver. Não sabia se eles frequentavam os mesmos círculos ou tinham algum tipo de relação, mas o certo é que, por acreditar que estavam inseridos no ambiente da vida cultural do Rio de Janeiro, acabou sobrando para mim.

Doido para sair por aí me exibindo, dizendo que havia entrevistado Carlos Drummond de Andrade, com quem troquei duas ou três cartas, consegui, não me lembro como ou com quem, o telefone do escritor. Naquele tempo, começo dos anos 80, sem internet, acho arrumei uma lista de telefones do Rio e, como sabia o seu endereço (Rua Conselheiro Lafayete, 60), bastou procurar na letra A, de Andrade e pronto. Só não sai nu pela rua, como Arquimedes, gritando “eureka, eureka”, porque não era para tanto, mas fiquei muito feliz.

No dia seguinte, assim que voltei do almoço, pedi à telefonista do jornal que fizesse a ligação. Chamava, chamava e só dava ocupado. A princípio, achei que ela estava de má vontade, mas, depois uma semana tentando, chegamos a considerar que o telefone estava quebrado. Cansada da minha insistência, resolveu liberar a linha de DDD (sim, havia isso…) para que eu me ocupasse da missão.

Todos os dias, durante uma semana, entre uma e três da tarde, ligava direito para o Drummond. Já havia até decorado o número, de tanto que discava. O homem era doido por telefone, só podia ser. Ou ele, ou dona Dolores, a esposa, se grudava no aparelho, justamente na hora que eu podia falar com calma. Um dia, porém, chamou. Minha primeira reação foi desligar, porque nem saberia o que dizer. No terceiro toque, ele próprio atendeu. Nervoso até a alma, me apresentei, disse o motivo da ligação e começamos a conversar.

Tratando-o de senhor e usando o vocativo poeta, toquei no nome de Mário Faustino e, aparentemente, isso não o incomodou. Ele falava de lá, e eu anotava de cá. Tal como aluno obsessivo, que copiava até o suspiro do professor, eu fazia igualzinho com Drummond. Ele comentava a respeito da atividade intelectual no Rio de Janeiro, até que formulei a pergunta errada, na hora errada, para o homem errado.

– O senhor e Mário Faustino eram amigos?

Nem imagino que a cara que ele tenha feito, mas pelo tamanho e pela intensidade do não, pronunciado de forma ríspida, parecia que outra pessoa, com idêntica voz, tinha tomado o telefone da sua mão e respondido por ele. Não era mais o entrevistado do segundo anterior. Uma criatura aborrecida assumiu seu lugar, dizendo brava e firmemente:

– Eu não era amigo de Mário Faustino!!!
– Eu não era amigo de Mário Faustino !!!

Com se eu tivesse tocado em alguma ferida, ou perguntado a um bom católico se alguma vez teria pedido ajuda ao diabo, Drummond, como se diz no Nordeste, ficou abespinhado. A leveza da conversa se desfez e ele, que era a própria doçura comigo, reagiu:

– Isso é uma entrevista? O senhor está me entrevistando?

Minha vontade mais secreta foi ironizar e dizer que não, que estava ligando para uma pessoa a quem muito admirava, mas com quem jamais havia trocado uma palavra anteriormente, apenas para saber se estava fazendo sol, em Copacabana, ou se o serviço de limpeza havia recolhido o lixo da manhã. Claro que era uma entrevista! Mas em respeito à sua idade, ao monumento que eu venerava e que até um minuto antes me chamava de você, cortês, permitindo uma certa liberdade, titubeei. Mentira: tremi. Tentei dizer que sim, mas antes que eu conseguisse responder, foi incisivo.

– Olhe, se for uma entrevista, eu não autorizo!

Deu boa tarde e, polidamente, encerrou a conversa. Não bateu o telefone na minha cara, deixo claro, mas acho que esse era seu propósito. Drummond era fino demais para fazer isso.

Se eu já estava nervoso, fiquei mais ainda. Além de falar com um poeta que eu adorava, levei uma bronca dele. Mas nem por isso deixei de amá-lo e preservo, com carinho, os dois lindos cartões que me enviou.

Guardei essa historinha boba por mais de 35 anos, como um segredo inútil. Se fosse hoje, e não no começo de minha carreira, teria ido para cima, feito perguntas e mais perguntas, indagado a razão daquela mudança tão repentina de humor. Anotaria palavra por palavra e publicaria a entrevista, sem autorização, sem nada. Mas era um iniciante e, se tinha medo até de sombra de barata na parede, o que dizer de uma severa advertência de Carlos Drummond de Andrade? Era como se o General tivesse passado um raspa no recruta. Ou o Papa advertido o menino que mal havia entrado no seminário. Fiquei arrasado.

Não comentei com ninguém e dei o assunto por encerrado. Talvez fosse um princípio ético que se formava em mim – o de respeitar a vontade do entrevistado. Ou, quem sabe, frouxura. Eu tinha Carlos Drummond de Andrade na condição de uma divindade e, na época, não consegui separar o poeta do ser humano. Foi uma lição para nunca mais esquecer.

Anos depois, minha amiga Lucy e eu, apaixonados por Mario Quintana, atravessamos o país apenas para tentar vê-lo, em Porto Alegre. Foi uma experiência tão bonita, tão feliz, que, passado tanto tempo, quando penso nela me nasce um sorriso no rosto e meus olhos brilham.

Mas essa história fica para outro dia. Prometo.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: O Limiar do Tempo – Dina Oliveira, 1987.

Crônica

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