Linda descoberta, ainda que tardia

Diário de um desespero – ou quase – XXIII

João Carlos Pereira

Nunca pensei – juro por Deus, Nosso Senhor, tocando na barra do manto de Nossa Senhora de Nazaré – que a reclusão fosse me jogar num estágio de total encantamento. Eu mangava daquele poema do Drummond, chamado “Quarto em desordem”, no qual diz que, na perigosa curva dos cinquenta, derrapou num amor. Eu já estava totalmente derrapado nessa fase da vida e assim prossigo, mesmo no trecho íngreme da estrada da vida, doce ilusão de que os 50 não representam a curva de descida da existência. Para quem crê que chegará aos cem, pode até ser, mas não costumo mais me iludir com besteira.

Na sua “canção dos 40 anos”, Ruy Barata conta que “40 anos passaram e nem sequer percebi. 40 anos correram correm e neles também corri”. Eu colocaria mais 21 nesse cálculo e teria, em versos, o retrato da minha existência: 61 anos passaram e nem sequer percebi, mas tive de viver todo esse tempo para me apegar a uma francesa chamada Henriette Ragon, que nasceu em 1918 e morreu aos 96 anos, em 2015. Se alguém quiser saber mais sobre ela e jogar seu nome no Google, talvez apareçam poucas opções, mas, em vez disso, preferir a forma como ficou conhecida, basta colocar Patachou.

Como quem me apresentou a ela, por telefone, foi meu querido Carlos Sampaio, não pude ver, em seus olhos, a imagem da decepção que imagino tenha se formado. Por três vezes perguntou, como quem não conseguia acreditar na negativa, se eu não conhecia mesmo a Patachou. Finalmente se convenceu e me mandou o link de uma de suas interpretações. Foi amor à primeira vez.

O nome Patachou não é, a princípio, muito sonoro, porém, com um pouco mais de atenção, percebe-se que ele remete a uma das mais delicadas massas de doce francês, com a qual se faz “pâte à choux”, uma iguaria à base de muita manteiga, açúcar e ovos. Em diferentes formatos, é um sabor que se aproxima do divino e da delicadeza supremos. Patachou é a sua versão no traçado humano, que seduz por todos os sentidos. Ela é isto mesmo: um doce.

Descrita como dona de uma voz suave e quente, preservou traços de beleza até o final. Fisicamente, lembrava um pouco a atriz Cleide Yácones. Vestia-se com a sobriedade e a elegância de uma mulher francesa em cada uma de suas idades. Conseguia ser refinada até quando enfiava as mãos nos bolsos para cantar. Mexia os olhos com a sensualidade de uma Carmen Miranda, tinha a firmeza de uma Emília Farinha Pereira e dava a impressão de estar permanentemente arrumada, no melhor estilo Graça Landeira.

Seu modo francês de cantar conservava um acento parisiense que, hoje, pouca gente reconhece e foi se perdendo, assim como vão sumindo, pouco a pouco, alguns sotaques regionais, devorados pela maneira geral imposta pela televisão. Patachou, também por isso, é uma preciosidade.

Ela teve um cabaré em Montmarte, fez tournês pelo mundo, esteve no Brasil e casou duas vezes. Era uma mulher delicada e sensível. Num tempo de pandemia, é bom lembrar de Mario Faustino, quando confessou que o “mundo que venci deu-me um amor”, para poder copiar e anunciar: a pandemia que queremos vencer me deu Patachou.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: A Eletrola – Marco Paulo Rolla, 1992.

Crônica

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