Uma “palavrinha” de 3360 toques, antes da crônica

Diário de um desespero – ou quase – XVI

João Carlos Pereira

Na semana passada, uma temporária e necessária reordenação editorial em O Liberal suprimiu, por breves dias, o espaço dos cronistas. Era necessário parar o barco, no meio da tempestade, para realinhar o curso. Rapidamente, porém, tudo voltou ao normal e continuamos a produzir como de hábito.

Claro que a notícia da pausa foi um choque para mim. Há quase 40, dos meus 61 anos, escrevo para o jornal. Primeiro, na condição de funcionário, que tive de abandonar, no momento em que a Universidade exigia de seus professores uma dedicação exclusiva compulsória, que, mais tarde, foi relaxada. Se não podia mais permanecer em dois lugares ao mesmo tempo, achei um jeito de continuar nos dois, de forma legal. Assim estou amigo e cronista mais antigo da casa (e da cidade), colaborador não apenas com a crônica de todas as semanas, mas como autor de textos jornalísticos que, eventualmente, me são solicitados. De vez em quando, também, sou interino do amigo Bernardino Santos.

Quando fomos reconvocados, senti uma alegria tão grande, porque não perderia o ritmo de uma vida inteira. Na edição de hoje, já estou de volta ao meu cantinho das segundas, onde publiquei o texto abaixo, com os 3000 toques convencionais. O “Diário de um desespero – ou quase”, porém, não vai parar, mas antes de passar à crônica do jornal, preciso esclarecer uma questão que me chega, repetidas vezes, todos os dias: “por que seus textos não saem no “Liberal”?

Jornais possuem dinâmicas e vidas próprias e não posso impor as minhas. Na honrosa condição de colaborador, sou chamado a escrever uma vez por semana e submetido a um exercício de disciplina que considero excepcional. Na página 2, do caderno Cultura, há, por determinação editorial, um lugar para exatos 3.000 toques, com flexibilização de até 40 toques, e olhe lá. Mais do que isso não é permitido, porque há normas a cumprir. Todas as matérias possuem igualmente limites e ninguém produz matérias do tamanho que lhe vem à ponta dos dedos. O repórter (e, no meu caso, também cronista) já sabe o quanto pode escrever. Todos os jornais do mundo agem assim, porque o profissionalismo exige.

Como faço uma crônica diariamente para o Face e compartilho com mais de 600 contatos do meu telefone, devo manter meu foco nas segundas do Jornal, porque aquele é o meu dia. Além do mais, os textos do mundo virtual possuem o espaço que desejam, já tendo alguns conquistado a faixa dos 8.000 toques, quando meu padrão, no jornal é quase um terço desse total.

Como a presente explicação, por si só, gerou, até agora, exatos 2.543 toques, eu disporia de somente 579 para, se assim desejasse, inseri-lo na edição da próxima segunda-feira. Desse modo, fácil explicar o porquê de preparar uma crônica para o jornal, com o mesmo carinho de quase quatro décadas (até quando viajo de férias, deixo tudo pronto, para nunca faltar ao compromisso) e outras sete para as redes sociais, uma terapia fundamental, nesta hora.

Quando a pandemia acabar e o desespero não mais existir, o “Diário” desse tempo também perderá o sentido. Mas o prazo final, apenas Deus Nosso Senhor conhece. Em seguida, deverá surgir o “Diário da Liberdade – ou quase”. O passo imediato será reunir todo material e mais outros que também falam de autoconhecimento e do anseio pelo fim das minhas amarras internas em um livro, cujo título já está mais ou menos definido, mas ainda não decidido.

Antes da crônica, apenas outra palavrinha: a necessária explicação e mais o texto, que saiu hoje, em “O Liberal”, possuem, juntos, incluindo títulos, meu nome e e-mail 6.788 toques.


Uma cadeira de balanço
e a crônica

Assim que me dei conta da gravidade da situação que estamos vivendo – e esse “estamos” nunca foi tão global e, ao mesmo tempo, tão particular – me tranquei em casa e tratei de criar uma rotina para não entrar em desespero. Pior ficar agoniado pela reclusão, do que sair desse mundo como um afogado no vazio, implorando por um pouquinho de oxigênio, coisa que sempre tivemos em abundância, em plena saúde, estrangulado pelas mãos invisíveis do coronavírus assassino.

Além de arrumar meu escritório, a casa e cozinhar, me obriguei a escrever uma crônica todos os dias e publicá-las nas redes sociais com o título de “Diário de um desespero – ou quase”. Até ontem eram quinze e, pelo visto, esse número vai se multiplicar sabe Deus para quantos. Uma coisa posso afirmar: haverá uma crônica para cada dia de confinamento. Estou absolutamente consciente do perigo e nem reclamo tanto. Por isso o redobrado prazer de produzir regularmente um texto mais longo, sobre qualquer tema e distribuí-lo aos meus grupos ou às comunidades virtuais.

Esta é a segunda vez que me valho da crônica para algo importante, agora fundamental, porque me salvou da solidão, do quase desespero, da beira da loucura. A primeira foi quando me apresentei como candidato a uma cadeira na Academia Paraense de Letras, onde cheguei a bordo das crônicas que publicava aqui no jornal e havia compilado em livros. Agora, são a tábua de salvação, a prazerosa rotina de escrever sobre o tudo e sobre o nada, a respeito de assuntos triviais e mais ou menos relevantes, já que ao cronista cabe um segundo olhar a respeito do fato que o jornalista foi buscar.

Antes de me ocupar com a dúvida se a crônica havia nascido no jornal ou para o jornal, tinha mesmo era que preocupar com a essência da questão: a notícia. Como jornalista em começo de carreira, em 1982, eu ganhava a vida com aquilo que estaria no jornal do dia seguinte. Eram tempos românticos, sem internet, apoiados na modernidade de então – o telex, a radiofoto e a telefoto – com a edição fechando na madrugada. Eu era repórter e “editor” informal, porque tinha páginas a fechar. O redator-chefe me passava o espelho dos anúncios e eu que me virasse para arrumar matérias e ajustá-las ao espaço que sobrava.

Uma tarde de sábado, como a Redação quieta, eu me via no problema de cobrir um buraco e não ter matéria. Fosse hoje, com dois cliques de copiar e colar resolveria a questão. Naquela época, porém, tinha de me virar. Sem nada para publicar, lembrei que poderia escrever um comentário sobre a exposição que Luiz Braga havia inaugurado, dias antes, na Galeria “Theodoro Braga”. Mesmo tendo feito a entrevista com meu amigo, uma coisa é reportagem, outra é uma crônica.

Morrendo de medo de me fazer besteira, escrevi minha primeira crônica. Como ninguém mandou acabar com aquilo, repeti a experiência no domingo seguinte e nunca mais parei. São 38 anos fazendo crônicas para o mesmo jornal e, agora, para a internet. Mas este cantinho de página é especial. É minha cadeira de balanço para contar história.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
Facebook
| Blog

Crônica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: