Círio nas nuvens

Diário de um desespero – ou quase – VII

João Carlos Pereira

Primeiro Círio das nuvens leva a 
Senhora aos céus de Belém

Eram quase dez da manhã deste sábado, 28 de março de 2020, quando um helicóptero sobrevoou o bairro de Nazaré, seguindo na direção de Icoaraci. Desde cedo eu esperava por esse movimento, que quebraria a rotina fatigada dos céus da minha casa, já desabituados ao vai e vem de aviões.  Até antes da crise, quando uma das pistas do aeroporto estava fechada, eles tiravam fino dos prédios,– claro que isso é um exagero – mas nunca antes os havia visto tão perto.  Agora, restam os urubus que planam, ao vento anunciador da chuva, antecipando o pouso nas enormes árvores do Museu.  De vez em quando eu ia à sacada e nada do helicóptero, De repente, eis que apareceu e meu coração se tomou de enorme alegria. Como sempre acontece, quando estou perto dEla, chorei.

A bordo do aparelho estava a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, fazendo um Círio diferente. Na romaria de outubro, nós vamos até Ela. Hoje, Ela veio até nós e sobrevoou Belém inteira, num gesto de bênção.  Neste Círio dos ares, ou dos céus, ou das nuvens (qual seria o melhor nome?) a Senhora não reinava de sua berlinda, e um helicóptero branco fazia as vezes de andor. Não havia as flores de Paulo Morelli, mas a Padroeira, sendo Ela mesma o lírio mimoso, aquele do mais suave perfume, era a beleza que abençoava.

No colo do presidente da Festa de Nazaré, padre Luiz Carlos, um querido e santo sacerdote, de quem tenho o privilégio de ser amigo, a imagem olhava para a sua Belém. A cena do século XXI repetia, com a tecnologia de agora, o primeiro Círio, quando, devido à cadeira do Bispo estar vazia, a imagem foi colocada no colo do capelão do Palácio (também Vigário geral) que, sentado à janela do seu pequenino coche, um palanquim, abençoava as pessoas no trajeto. A imagem, vale lembrar, era a que hoje  as pessoas chamam de “verdadeira” (como se as demais fossem falsas…) e está no Glória da Basílica. 

Quase 230 anos depois a cena se repete, emoldurada pela tecnologia. Naquele distante 8 de setembro de 1793, dia da Natividade de Nossa Senhora de Nazaré e, agora, Dia Municipal de Nossa Senhora de Nazaré, a Senhora saiu às ruas do bairro da Cidade (hoje, Cidade Velha), Reduto eatravessou a estrada que, depois, ganharia seu nome. Neste sábado, Ela foi conduzida pelos ares da capital, de cuja proteção se encarregou. Na condição de padroeira de todos os paraenses e de rainha da Amazônia, o que vale para Belém, serve para toda a região.

O criador do Círio, D. Francisco Maurício de Sousa Coutinho, jamais poderia imaginar que seu projeto de fé tomaria enormes proporções. A peregrina, assim denominada porque é levada em romaria para todo canto, já andou de avião, de barco, de ônibus, de carro e de metrô. Cruzou o mar e foi a Portugal mais de uma vez. Navegou pelos nossos rios e se tornou “habituée” do Congresso Nacional, onde, todos os anos, é homenageada. Mas, até onde sei, nunca havia voado de helicóptero e, muito menos, colocada na janela para, do alto, abençoar sua terra e sua gente.

Os incrédulos dirão: lá vem outro idólatra atribuir a uma estátua poderes sobrenaturais. Não dou bola para esses comentários e rezo por quem não teve a graça de crer. Os católicos, não me canso de repetir, não são idólatras, tampouco adoram imagens. Nós, que professamos a fé herdada dos apóstolos, daqueles que conviveram de perto com Jesus, testemunharam-Lhe os milagres, caminharam ao Seu lado, fizeram refeições com Ele, sabemos muito bem que adoração só se presta a Deus e que aos santos é autorizada veneração. Com Nossa Senhora de Nazaré a questão é diferente e mais séria. Ela é muito mais do que uma santa, como Terezinha ou Dulce dos Pobres, que, nem por isso, têm os méritos reduzidos. Trata-se da Mãe de Deus.

Se não bastasse esse diferencial, criou-se, entre Belém e Ela, um laço de amor tão grande, que já virou parentesco. Estabeleceu-se uma intimidade de tal modo intensa, que muita gente a trata de Naza, Nazinha, Nazaré mesmo, como se fosse alguém da própria casa, que não precisa pedir licença para entrar. É por isso que o povo canta e dança em sua honra. Há quem A tenha na condição de comadre, porque Lhes consagra os filhos. Eu mesmo, quando minhas filhas nasceram, as entreguei aos cuidados de Nossa Senhora de Nazaré, para que me ajudasse a cuidar das meninas. Somos, portanto, compadres e amigos de longa data. Para completar o circuito de afeto, sou filho.

O amor, a confiança, a liberdade, o respeito, a confiança e a fé que oferecemos à Nossa Senhora de Nazaré me comove. Olhamos para sua imagem, seja a  peregrina, seja a que pertenceu a Plácido, seja  a Senhora do Gentil, e nos comovemos às lágrimas, porque sabemos que não estamos nos dirigindo a uma peça de madeira, mas à Rainha dos Anjos (e de mais 999 nomes) por ela representada.

Quem dera pudéssemos ter nossos maiores, como dizia meu pai, referindo-se aos parentes mortos, sempre conosco, sentados o tempo todo à mesa, ou de visita, na sala. Como a vida material tem prazo de validade, nos contentamos com retratos sobre os móveis, embelezando o ambiente, matando saudades. 

Imagem de Nossa Senhora de Nazaré é o retrato de Nossa Mãe esculpido em madeira. E quando foi levada aos céus de Belém, inaugurando um novo Círio, era como se nossa mãe estivesse nos olhando e pedindo a Deus por nós. 

Apenas Mãe faz isso.

Belém do Pará, 28 de março de 2020.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Imagem: A Berlinda e a corda – aquarela de Sérgio Bastos

Crônica

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