Na cidade dos Papas, a oração do pároco da nossa aldeia

Diário de um desespero – ou quase – VIII

João Carlos Pereira

A cidade dos Papas possui um impressionante acervo de obras de arte e de riquezas. Seu arquivo, cujo nome Francisco alterou de Secreto para Apostólico, levantando, assim, o véu de mistério que se formou ao seu redor, tem servido de base para pesquisas históricas valiosíssimas. É dona de uma basílica tão grande e suntuosa, que se deu ao luxo (essa palavra é de uma redundância desnecessária, quando de fala do Vaticano) de colocar no piso de mármore marcas indicativas das dimensões das maiores basílicas do planeta. Todas cabem dentro dela. E com folga.

Toda sua estrutura, a guarda municipal (ou nacional, já que se trata de um Estado), com uniforme colorido embelezando ainda mais uma legião de rapazes suíços, leais ao dono da casa e lá cumprido serviço militar obrigatório, seus organismos oficiais e jardins,  seus sinos, a cúpula de Michelângelo, fontes, o obelisco, estátuas e uma história quase duas vezes milenar foram reduzidos, na tarde/noite da última sexta-feira, à simplicidade de uma igreja do interior, edificada na frente de uma grande praça vazia, como seu velho pároco rezando perante o nada, para quem parecia acompanhar o fim do mundo pela televisão.

A cidade dos Papas é bela, mas muito estranha. Na primeira vez em que lá estive fui proibido de entrar porque trajava camisa e bermuda. Ainda tentei  fazer de conta que era uma calça no estilo pescador, mas não colou. A truculência dos fiscais da moralidade dos trajes, depois da revista com raio-X e detetores de metal,  não convive com o diálogo e ignora o calor quase sufocante de Roma, no mês de julho. Para mulheres, a regra é cobrir os ombros e, se estiverem de short ou de bermuda, é permitido improvisar uma saia com lenços vendidos às proximidades do metrô.

No dia seguinte, convenientemente trajado e pude experimentar uma das maiores decepções da minha vida. Olhei para o grande altar, onde o papa fica protegido pelo baldaquino de Bernini, e não consegui imaginar Jesus Cristo pregando e celebrando ali. Ia ser barrado logo na porta. Muitas vezes pude voltar à Basílica dos Papas, descer às grutas vaticanas para rezar nos túmulos de meus amados Joao XXIII e Paulo VI, ambos canonizados. O bom João era tão santo, que seu corpo não se deteriorou e pode ser visto, incorruptível, numa urna de cristal, dentro do templo.

Hoje já me acostumei à suntuosidade da Basílica e, mal chegando, vou direto à Pietà. Depois, rezo na capela da Adoração e parto para a contemplação das obras de arte. Se eu fosse assistir a uma missa naquele ambiente, ia ficar desconcentrado o tempo todo, só olhando a igreja.

Quando Francisco atravessou parte de grande praça, subiu aqueles degraus e tocou o  Sagrado da basílica, com respiração ofegante, enfrentando uma chuvinha que caía sobre São Pedro, olhar entristecido pela paisagem desoladora, eu reparei em seus sapatos ortopédicos, pretos, desgastados. Na mesma hora, lembrei  do pároco de aldeia, de Bermanos, que usava uma batina surrada e sentia dores. Era visível que o Papa também sentia dores. Os sapatos vermelhos de seus antecessores não combinariam com aquele instante de puro sofrimento físico e espiritual.

Dante do Cristo de madeira, feito, provavelmente, na Idade Média, com resquícios de ouro na pintura do pano colocado na cintura do Crucificado, Bergoglio era Francisco em plenitude. O olhar daquele que, segundo a tradição da Igreja, é o Vigário de Cristo, o representante de Jesus na Terra, mais se assemelhava ao de um padre do interior, que encontra na humildade o grande sinal do amor de Deus por suas  criaturas. São Francisco não teria agido diferente.

No momento em que se colocou em frente à peça, a qual são atribuídos poderes milagrosos, a ponto de, em menos de três semanas, haver conseguido curar doentes e livrar Roma da peste negra, não era mais o Papa, o  Bispo de Roma, o Sumo Pontífice, o Príncipe dos Apóstolos, o Servo dos Servos de Deus, o Primaz da Itália e Arcebispo Metropolitano da Província Romana, o Soberano do Estado do Vaticano, o Senhor Apostólico, o Santíssimo Senhor, o Cabeça da Igreja e o Santo Padre. Despiu-se de todos os títulos, em vigor ou defasados, para ser apenas o pároco da nossa aldeia mundial, que orou, profunda e intensamente, ao Cristo que ele acredita vivo na Hóstia Consagrada e com a qual abençoou o mundo todo.

Em casa, mais uma vez, me comovi a ponto de sentir minha alma reverenciando o Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, que também acredito vivo na pequena partícula feira de trigo e água apenas, mas transubstanciada no corpo e sangue do Senhor.

Como a internet não dorme em serviço,  houve quem visse e até filmasse os céus do Vaticano e imaginasse ter encontrado nele a silhueta de Nossa Senhora. A gravação corre o mundo como sinal de fé e de aprovação do gesto papal.

Na manhã do primeiro Círio fluvial, um halo se formou em volta do sol, produzindo um fenômeno que nunca se repetiu. Muita gente acreditou que aquele era sinal de Deus, dando sua aprovação para a iniciativa. A fé tem dessas coisas: para quem crê, há evidências de todo lado. Para quem não crê, pode o Cristo aparecer, cercado de toda corte de anjos e santos, que será inútil.

A cena do Papa, de 83 anos, fragilizado, beijando os pés de um crucifixo tão antigo – felizmente não restaurado, nem com a pintura revitalizada, o que pode acabar com a beleza de uma obra de arte, tal como aconteceu, pela ação de mãos inábeis, com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, que a cada ano aparece com uma feição diferente – remete à única possibilidade real que há, para além do isolamento social, da cura do coronavírus.

Não existem remédio, vacina, pajelança, mandinga, banho, mezinha, unguento, garrafada, defumação, poção milagrosa, água ungida, nada que proteja o ser humano dessa peste. A oração e a fé ainda são a força de que precisamos para nos mantermos minimamente equilibrados, porque o confinamento – juro por Deus, Nosso Senhor – está começando a me tirar do sério.

Não é pro acaso que esta série tem o nome de um “Diário de um desespero – ou quase”. Eu estou na beira do quase.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Crônica

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