Era apenas uma piada… será?!

Luciano Fazio

“Era apenas uma piada.” Quantas vezes ouvimos essa frase depois de uma afirmação racista, sexista, homofóbica ou simplesmente depreciativa? Como se, ao definir algo como uma “piada”, pudéssemos automaticamente suspender qualquer julgamento sobre o que foi dito. A intenção era fazer rir; portanto, não haveria motivo para levar a sério. Mas será mesmo assim?

O humor tem uma força extraordinária. Pode questionar as autoridades, desmontar preconceitos, revelar contradições e nos ajudar a olhar para nós mesmos com maior liberdade. Justamente por isso, porém, também pode fazer o caminho inverso: transformar em brincadeira aquilo que, dito seriamente, reconheceríamos como um preconceito.

Uma piada não cria necessariamente uma discriminação. Muitas vezes, limita-se a reproduzir algo que já está presente na sociedade. O problema é que, quando uma visão preconceituosa é repetida em tom de brincadeira, pode perder, pouco a pouco, sua aparência de preconceito. Aquilo que seria ofensivo torna-se “divertido”; aquilo que deveria provocar uma reflexão provoca uma risada; aquilo que mereceria ser contestado é descartado com um “não leve a sério”. É aí que se esconde o perigo da banalização.

Esse mecanismo é particularmente evidente no bullying. Até mesmo uma provocação pode parecer inofensiva quando considerada isoladamente. Mas, quando é repetida, sobretudo diante dos outros, pode transformar-se em uma forma de humilhação e exclusão. O fato de quem a pronuncia dizer que está “brincando” não elimina necessariamente o efeito sobre quem a sofre. No bullying, aliás, a risada dos outros pode se tornar parte da própria violência: sinaliza à vítima que sua humilhação se transformou em um espetáculo compartilhado e que, justamente por isso, deveria ser aceita como algo “normal”.

Posso me considerar uma pessoa popular e amiga de todos e, depois, perseguir um dos membros mais frágeis do grupo por meio de atos de bullying. Posso dizer que não sou racista e, ao mesmo tempo, rir repetidamente de piadas que apresentam pessoas negras como inferiores, preguiçosas ou criminosas. Posso afirmar que respeito as mulheres e achar divertidas as piadas que as reduzem à sua aparência, à sua sexualidade ou a uma suposta incapacidade. Posso afirmar que não tenho nada contra os homossexuais e rir quando são apresentados como ridículos ou anormais. Posso declarar que respeito os idosos, mas apresentá-los como um peso para a sociedade porque recebem aposentadorias que os jovens terão dificuldade de obter. Posso negar a xenofobia e, depois, representar todos os muçulmanos como terroristas ou como uma ameaça para a sociedade.

Talvez, em minha intenção consciente, eu não queira realmente discriminar ninguém. Mas o humor não existe no vazio. Ele utiliza imagens, estereótipos e ideias que circulam na sociedade. Quando rimos desses estereótipos, podemos contribuir para mantê-los vivos.

Isso não significa que todo aquele que ri desse tipo de piada seja necessariamente uma pessoa preconceituosa. Uma risada não equivale a uma declaração de identidade moral. O problema está menos no episódio isolado do que na repetição e, sobretudo, na recusa em reconhecer aquilo que está sendo reproduzido.

“Era apenas uma piada” pode explicar a intenção de quem a pronunciou. Mas, em geral, não apaga o conteúdo do que foi dito nem seus possíveis efeitos.

O perigo DO EXTREMO OPOSTO

Há, contudo, uma armadilha no combate ao humor preconceituoso: pensar que a única resposta possível seja vigiar, censurar e repreender. O chamado “politicamente correto” pode, às vezes, tornar-se excessivamente rígido, transformar cada deslize em um escândalo e criar um clima pesado de controle. Admitamos: o politicamente correto pode ser realmente muito chato.

Uma sociedade sem a possibilidade de brincar, provocar, exagerar ou rir de si mesma provavelmente não seria saudável. O humor precisa de liberdade. A questão é entender qual liberdade queremos defender e que tipo de convivência queremos construir.

Por isso, talvez seja mais produtivo educar em vez de simplesmente repreender.

Diante de uma piada preconceituosa, nem sempre a melhor resposta é indignar-se e, ato contínuo, rotular de pronto o autor da piada ou tentar humilhá-lo publicamente. Às vezes, é mais eficaz perguntar, com certa leveza: “Mas por que isso deveria ser engraçado?”. Ou: “Você já pensou em quem é colocado no centro dessa piada como objeto de escárnio?”. A pergunta pode conseguir mais do que a acusação.

Há uma diferença importante entre rir do preconceito e rir junto com o preconceito. Um humor que coloca o próprio preconceito no centro da crítica é muito diferente daquele que usa a pessoa discriminada como objeto da piada. No primeiro caso, o humor pode desmascarar uma injustiça; no segundo, pode reforçá-la.

Se queremos que as pessoas que reproduzem preconceitos mudem, talvez seja melhor criar uma oportunidade para que percebam a contradição, em vez de simplesmente fazê-las sentir-se atacadas. Quem é tratado como inimigo tende a se defender; quem é convidado a refletir pode, às vezes, mudar.

Não precisamos escolher entre a liberdade de fazer humor e o respeito pelas pessoas. O desafio é aprender a conciliar as duas coisas.

Uma sociedade democrática deve preservar o direito de fazer piadas, inclusive as de mau gosto. Mas a liberdade de expressão não significa estar imune às críticas. Não devemos transformar toda piada em um processo moral. Mas também não devemos fingir que as palavras não têm consequências.

Porque o preconceito, quando se manifesta com agressividade, é relativamente fácil de reconhecer e combater. Mais difícil é quando chega sorrindo, acompanhado de uma risada e protegido pela frase: “Calma, era apenas uma piada”.

Se queremos mudar as pessoas, precisamos encontrar uma maneira de fazê-las refletir — e não apenas uma maneira de irritá-las.


Luciano Fazio é matemático, formado pela Università degli Studi di Milano, e especialista em Previdência pela Fundação Getúlio Vargas. Italiano naturalizado brasileiro, chegou ao Brasil no início da década de 1980 como voluntário leigo na Diocese de Marabá, Pará. Atuou na Comissão Pastoral da Terra e como assessor de sindicatos de trabalhadores. Atualmente, dedica-se à área de Previdência Social, mantendo sua atuação vinculada à defesa dos direitos dos trabalhadores.

Imagem em destaque: Rinaldo Silva. Riso Engodo, 1986. Enciclopédia Itaú Cultural.

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