Palavra que liberta, cura e inclui — Mt 8,5-17

Simone Furquim Guimarães

O Evangelho de hoje é Mt 8,5-17. O Evangelho de Mateus foi escrito por volta dos anos 80 d.C., cerca de cinquenta ou sessenta anos após a execução de Jesus. Mateus escreve para comunidades formadas por pessoas de diferentes origens, tanto judeus quanto gentios, que procuravam viver os ensinamentos do Nazareno.

Entretanto, a convivência entre esses grupos nem sempre era harmoniosa. Muitos judeus ainda resistiam à presença de pessoas de outras culturas e tradições religiosas. Além disso, os grupos ligados ao movimento farisaico, fortemente apegados à Lei e às tradições, rejeitavam a compreensão de Jesus como o Messias prometido e o cumprimento das profecias.

É nesse contexto que Mateus apresenta Jesus em plena missão. No Evangelho de hoje, vemos um Jesus que cura, acolhe e reintegra as pessoas à vida e à comunhão. Ao final da narrativa, o evangelista recorda as palavras do profeta Isaías: “Ele tomou as nossas dores e carregou as nossas enfermidades”.

A primeira cura narrada é a do servo de um centurião romano, um estrangeiro, alguém que não fazia parte do povo judeu. Em seguida, Jesus cura a sogra de Pedro, pertencente ao universo judaico. Com esses relatos, Mateus mostra que a ação salvadora de Jesus não faz distinções. Seu amor e sua misericórdia alcançam todos os que dele se aproximam com fé e confiança.

A mensagem é clara para a comunidade de Mateus: Jesus acolhia todas as pessoas, independentemente de sua origem, condição social ou pertença religiosa. O Reino de Deus não está restrito a um grupo privilegiado. Ele ultrapassa fronteiras, derruba muros e reúne a humanidade inteira como família de Deus.

Escrevendo longe da Palestina e no final do primeiro século, Mateus deseja recordar aos judeus, aos primeiros cristãos e aos gentios – e também a nós, hoje – que o Reino dos Céus é destinado a todos os povos e culturas. Em Jesus, não há espaço para exclusivismos. Todos somos filhos e filhas do mesmo Pai.

Infelizmente, ao longo da história, muitas comunidades cristãs não compreenderam plenamente essa Boa-Nova. Ainda hoje existem posturas que classificam pessoas entre “puras” e “impuras”, dignas ou indignas de participar da vida comunitária. Além disso, leituras fundamentalistas da Bíblia já provocaram exclusões, perseguições e mortes, e continuam alimentando conflitos em diversas partes do mundo.

Diante dessa realidade, o Evangelho nos convida a contemplar a verdadeira face de Deus revelada por Jesus: um Deus misericordioso, compassivo e acolhedor, que não pertence a um único povo, mas ama toda a humanidade sem distinção.

Somos herdeiros dessa Palavra que liberta, cura e inclui. Que saibamos, por meio de nossas palavras e atitudes, promover a vida, acolher os que sofrem e construir pontes de fraternidade, seguindo o exemplo de nosso Mestre Jesus.

Amém.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado. 12ª semana do Tempo Comum

Palavra de Deus Simone Furquim Guimarães

Ignatiana Visualizar tudo →

IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

Deixe um comentário