Um homem católico de Portugal, membro da CVX — um testemunho sinodal
Em seu relatório final, publicado em maio de 2026, o Grupo de Estudo 9 do Sínodo dos Bispos apresentou três testemunhos como parte do que chamou de “casos de escuta“. O Grupo 9 foi um dos dez grupos de estudo criados pelo Papa Francisco para aprofundar temas que demandavam reflexão mais demorada do que o calendário do Sínodo permitia. Sua tarefa específica era pensar critérios teológicos e métodos sinodais para o discernimento compartilhado de “questões emergentes” — expressão que o próprio grupo preferiu adotar no lugar de “questões controversas”, por entender que não se tratava de “resolver problemas”, mas de cultivar as disposições e o diálogo necessários para a “conversão relacional” a que todo o Povo de Deus é chamado.
Na terceira parte de seu documento, o grupo propôs dois exercícios concretos de discernimento sinodal, e um deles diz respeito à experiência de pessoas de fé com atração pelo mesmo sexo. Em vez de encerrar a reflexão com um pronunciamento final, o grupo optou por partir da escuta de quem fala em primeira pessoa, oferecendo o testemunho como ponto de partida para o discernimento ético e teológico nas diversas comunidades eclesiais.
O testemunho abaixo, identificado no relatório como Anexo A.1, é de um homem católico de Portugal, membro da Comunidade de Vida Cristã (CVX). Nele, o autor narra seu percurso desde a infância numa família numerosa e afetuosa, passando pela solidão da descoberta da própria sexualidade, pelo encontro com Cristo e pelo casamento com seu marido, há vinte anos, até chegar à busca de integração de toda a sua vida diante do olhar de Deus. O texto foi traduzido para esta publicação.
Testemunho para o Grupo 9 de Estudos Sinodais
Sobre Homossexualidade (Portugal)
Quais aspectos da sua experiência pessoal considera mais importantes destacar em relação ao tema que estamos discutindo (neste caso: homossexualidade)?
Crescendo em amor e sensibilidade: Cresci numa família grande, sendo o segundo mais velho de quatro irmãos e duas irmãs. Era uma família muito amorosa e aberta, mas o tema da homossexualidade nunca foi abordado. A verdadeira graça foi a minha mãe. A sua insistência para que os meus professores valorizassem a minha sensibilidade, o meu apreço pela poesia e a minha gentileza – características muitas vezes consideradas “femininas” nos anos 90 – em vez de as encararem com medo, foi fundamental. Ela cultivou em mim uma confiança interior de que a minha diferença não era uma falha. Este amor materno foi a minha primeira e mais duradoura lição de autoaceitação e dignidade.
A descoberta da sexualidade e a angústia da solidão: Meus primeiros amores seguiam as normas sociais dos relacionamentos heterossexuais, mas, à medida que amadureci, percebi que a intensidade dos meus sentimentos por alguns rapazes era diferente – uma profunda mistura de intimidade e desejo, ao contrário da calorosa estima que sentia pelas garotas. Viver isso em segredo, fora do que parecia “normal”, levou a uma imensa sensação de desconexão e profunda solidão. O silêncio ou a aversão percebidos em relação ao tema nas esferas sociais e, crucialmente, dentro da Igreja, me forçaram a uma vida dupla. Pergunto-me se experiências compartilhadas abertamente por famílias gays não teriam me ajudado a não me sentir tão sozinho nesse caminho.
O encontro com Cristo e o chamado à plenitude: Em oração e em retiros durante minha adolescência e primeiros anos da vida adulta, muitas vezes senti que estava orando sozinho. No entanto, foi no crisol desse isolamento que comecei a sentir o chamado feroz e amoroso de Cristo à minha integridade e plenitude – para não me ferir nem ferir os outros, pois meu corpo foi criado e amado por Deus. O caminho a seguir não era a segregação, mas sim a integração de cada parte de mim em Seu olhar amoroso.
Encontrando amor e paz: Conhecer meu atual marido há 20 anos, aos 19, foi transformador. Finalmente encontrei alguém que compartilhava meus valores essenciais e minhas lutas internas. Compartilhar uma vida de fé, serviço e amor com ele tem sido a expressão mais verdadeira de mim mesmo. Minha sexualidade não define minha vida, mas é uma parte intrínseca de mim; sem reconhecê-la, não posso ser completo.
Você já participou de algum grupo ou movimento focado nessa questão? Quais reflexões ou percepções você obteve dessa experiência?
Buscando plenitude, evitando a segregação: Evitei ativamente grupos que eu sentia que me segregariam; meu desejo mais profundo era simplesmente me encontrar e pertencer. A única experiência com grupos foi o grande conforto que encontrei ao participar de um grupo de rúgbi gay por seis anos, no início dos meus trinta anos. Era um espaço para desfrutar de um esporte que eu amava sem julgamentos, onde minha identidade estava presente, mas o foco era na atividade, não no rótulo. Eu sentia que alguns grupos católicos ainda dão muita ênfase ao tema da sexualidade em si.
Encontrando plenitude na Comunidade de Vida Cristã (CVX): Há oito anos, encontrei meu lar na CVX. Temia ser incompreendido, mas descobri um espaço onde me sinto completamente integrado e eu mesmo desde o primeiro dia. Aqui, oramos sobre as grandes questões do mundo – guerra, pobreza, justiça – e levamos todas as alegrias e tristezas de nossas vidas a Cristo. Sou grato por minha sexualidade não ser tratada como um tópico de maior relevância do que qualquer outro desafio que enfrentamos. É simplesmente um fio na rica tapeçaria da minha vida. Ao mesmo tempo, conheço alguns amigos que foram profundamente feridos, e os grupos cristãos homossexuais oferecem a eles o espaço seguro de que precisam para encontrar respostas.
Indo além do rótulo para o serviço: Sou muito mais do que um rótulo. Vivo minha vida em profunda paz com Deus, que me conhece desde o ventre da minha mãe. Falo abertamente sobre a minha realidade quando apropriado, mas o meu propósito e alegria encontram-se no serviço – como no meu trabalho com crianças em lares de acolhimento – uma área que me é muito querida e que me dá a oportunidade de usar o tempo que não teria se tivesse os meus próprios filhos. O meu desejo é ser visto não através das lentes da minha sexualidade, mas através da totalidade do meu ser e das minhas ações.
Feridas da comunidade cristã: Não posso ignorar as cicatrizes que carrego. Testemunhei os efeitos devastadores das “terapias de conversão” e a desestruturação de famílias, o que me pareceu um ataque à criação sensível e irrepreensível de Deus. Essas experiências doem profundamente, porque atingem a dignidade inerente de uma pessoa que simplesmente sente o amor de outra pessoa do mesmo sexo.
Qual é a sua relação com as comunidades cristãs e com a realidade da Igreja, e de que maneiras você encontra apoio ou dificuldades?
O desafio à integridade em Cristo: Minha vida espiritual está ancorada na Eucaristia, no Exame de Consciência diário e na CVX. Não enfrentei pessoalmente oposições públicas por simples gestos de afeto com meu marido. No entanto, há uma década, a pergunta de um diretor espiritual me magoou profundamente: ele sugeriu que eu poderia ter me casado com uma mulher para “encontrar paz” e “usar meus dons”, já que o casamento não é “apenas sobre sexualidade”. Senti-me ofendido: era uma sugestão para prejudicar uma mulher, roubando-lhe a chance de ser completamente amada e desejada, tudo para cumprir uma expectativa social.
Trazendo tudo à luz: Aquele encontro inicial e doloroso me levou a esvaziar minha oração diária, excluindo meu relacionamento e minha vida afetiva da minha conversa com Cristo. O ponto de virada aconteceu quando outro diretor me desafiou: “Na verdadeira amizade e confiança, não há áreas onde não possamos fazer brilhar a luz de Cristo. Você é completo.” A partir daquele momento, comecei lentamente a trazer minha realidade completa de volta à oração, ao meu compartilhamento na CVX e à minha vida profissional e familiar. No momento em que senti isso, compartilhei esta imagem com meu grupo: estamos todos indo para Jerusalém; a estrada ou os negócios não importam realmente, o que importa é o destino final e viajar sem ferir os outros ou a Deus.
O momento decisivo veio quando percebi que Cristo não estava esperando para condenar meu relacionamento, mas estava pacificamente esperando que eu o encontrasse em meu segredo e solidão. O verdadeiro pecado não era o meu amor, mas a minha falta de confiança em Seu desejo por uma vida plena para mim. Rezo para que todos nós ousemos trazer nossas vidas por inteiro – nossas verdades mais profundas – à luz do amor de Cristo, sabendo que Ele quer que sejamos íntegros, não quebrados ou escondidos.
Amor e aceitação como ponto de partida: Minha dificuldade atual é que sinto que a Igreja precisa ir além do mero “acolhimento” e da “compaixão”, que deveriam ser o fundamentalmente óbvios. Cristo nos deu o discernimento para ir mais longe. Precisamos proclamar a verdade não dita: Deus te ama e deseja a tua plenitude. A sexualidade é uma parte da nossa vida, e a diferença é uma marca da Criação. A vida de Jesus provou que o amor é maior do que todas as nossas lutas e conflitos. Gostaria que as conversas na Igreja se concentrassem em identificar as diferenças concretas entre nós… ou, melhor ainda, em perceber que, aos olhos de Deus, não há diferenças, porque todos somos amados. Embora viva um relacionamento homossexual, acredito verdadeiramente que o sinal de Deus na minha vida foram os dons que Ele me deu de fidelidade e coragem, necessários para construir uma vida de fé e serviço compartilhados com meu marido. Meu casamento, em sua constância e compromisso, é uma oportunidade real de dedicar nosso tempo e energia aos outros. É isso que temos feito, dia e noite.
O poder curativo da comunidade: A família do meu marido, embora amorosa, transformou a sua realidade num tabu. Ele é intérprete de libras e trabalha alguns domingos por mês a interpretar missas em Fátima. É verdadeiramente uma pessoa feita de amor pelos outros, pela família e pela natureza. Mas foi profundamente magoado pela sua família, que não foi capaz de demonstrar amor e empatia pela sua realidade, acreditando, com base na palavra de Deus, que ele vivia uma vida de pecado. Só quando a família começou a testemunhar que éramos cristãos ativos no nosso dia a dia, notando também os sutis sinais de apoio e amor à comunidade homossexual vindos da Igreja na sua pequena cidade portuguesa, é que os seus corações começaram a se abrir. Esta experiência demonstra que até os gestos mais discretos de amor e aceitação por parte da comunidade cristã são cruciais para a cura familiar e para uma maior aceitação social.
Introdução, tradução e edição: João Melo
Imagem: Ismael Nery — O Luar (Dois Irmãos), 1925. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.
Comunidade de Vida Cristã (CVX) Igreja LGBTQIA+ Homoafetividade Homossexualidade masculina pertença eclesial Sexualidade Sinodalidade
João Melo Visualizar tudo →
Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).
