Pedro e Paulo: duas “rochas vivas”, um só Fundamento
Pe. Adroaldo Palaoro, SJ
E vós, quem dizeis que eu sou?
Mt 16,15
Há indicações históricas de que já no séc. IV se celebrava uma festa em honra a São Pedro e São Paulo. Não é fácil descobrir as razões que levaram aqueles primeiros cristãos a unir em uma mesma celebração litúrgica duas figuras humanas tão diferentes. O mais provável é porque os dois foram martirizados em Roma durante a perseguição de Nero e quase ao mesmo tempo. Pode ser também porque suas sepulturas estivessem juntas durante muito tempo. É também provável que muito cedo se descobriu a complementariedade desses dois homens. De qualquer forma, são um claro exemplo de que personalidades tão diferentes, que inclusive discutiram duramente aspectos importantes da primitiva fé cristã, pudessem ser dois seguidores autênticos de Jesus.
Mas, desde sempre, Pedro e Paulo foram considerados como as colunas da Igreja. No caso de Paulo é tão evidente que alguns estudiosos chegaram a dizer que ele foi o verdadeiro fundador da Igreja, enquanto organização. Pedro é o personagem mais destacado em todo o NT. Mesmo assim, sabemos muito pouco de sua vida. Pelo contrário, Paulo é a pessoa mais bem documentada. É o único apóstolo do qual podemos fazer uma biografia quase completa.
O texto do Evangelho da festa de hoje nos ajuda a reler nossa vida. Ali afirma-se nossa identidade: temos um nome, que carrega algo sólido, firme, resistente, que não se desfaz com as adversidades existenciais (crises, fracassos…). A identidade nos é dada por aquilo que é consistente, seguro… no nosso interior e não pelo nome em si.
Nos evangelhos sinóticos, a pergunta sobre a identidade de Jesus ocupa um lugar destacado. Ela nos oferece as respostas do povo e da comunidade de discípulos, personalizados em Pedro.
Como seus seguidores, devemos continuar a nos perguntar “quem é Jesus?”. Aqui não se trata do conhecimento externo da pessoa de Jesus: quando e como viveu, quem são seus pais, em que cultura viveu, qual era seu entorno social e religioso; nem sequer se trata de conhecer e aceitar sua doutrina.
Nosso seguimento está fundamentado no Jesus que encarna o ideal do ser humano querido por Deus, Aquele que nos revela, ao mesmo tempo, quem é Deus e quem é o ser humano. Por isso, a pergunta que devemos responder é: “que significa Jesus, para mim?”
É preciso deixar muito claro que não se pode responder a essa pergunta se não nos perguntamos ao mesmo tempo: “quem sou eu?”. O encontro com a identidade de Jesus des-vela nossa própria identidade.
Na realidade, a pergunta pela identidade é a mais importante de todas aquelas que podemos nos fazer: “Quem sou eu?” A rigor, essa é a primeira e essencial pergunta. A resposta adequada à mesma nos liberta da ignorância, da confusão e do sofrimento. Faz-nos livres e nos possibilita viver na luz.
Porque o objetivo de nossa vida não pode ser outro que o de viver o que somos. E isso não é algo que devemos “alcançar”, “conseguir” ou “conquistar” …, mas, simplesmente, reconhecer. Trata-se de cair na conta ou compreender quem somos. Ao compreender isso, emerge a plenitude, a sabedoria e a alegria.
Dito de outro modo: a causa de muitos sofrimentos existenciais é a ignorância ou desconhecimento de nossa identidade profunda. O grande místico cristão do séc. XIII, Mestre Eckhart, repetia essa expressão contundente: “Meu solo e o de Deus são o mesmo”. Em outras palavras: a Rocha é o divino que nos habita.
No caminho do Seguimento de Jesus vamos tirando os véus que bloqueiam e obscurecem nossa visão, permitindo que aflore resplandecente nossa radiante identidade.
Como seguidores(as) de Jesus Cristo, é no encontro com Ele que é “des-velada” (tirar o véu) nossa identidade verdadeira; a humanidade d’Ele faz emergir o que é mais nobre em nós: nossa humanidade.
Todo ser humano, para além de uma identidade externa, traz em si uma identidade não contaminada, uma identidade iluminante, uma identidade que se revela como reserva de bondade, amor, compaixão… Jesus dá o nome de “Rocha”, o fundamento sobre o qual se constrói uma vida.
Assim aconteceu com os dois grandes personagens que estamos celebrando neste domingo: Pedro e Paulo.
Duas identidades diferentes, uma única missão: prolongar e fazer chegar ao conhecimento de todos o modo de ser e de viver de Jesus. Para isso foi preciso que eles se encontrassem com a verdadeira identidade de Jesus. Ao mesmo tempo, o ser verdadeiro de Jesus fez transparecer o ser verdadeiro de cada um deles. Houve inclusive uma troca de nomes: Simão/Pedro e Saulo/Paulo.
Seus antigos nomes revelavam identidades atrofiadas: “petros” significava pedregulho, pedras que se esfarelam e não servem para o fundamento de uma casa; “Saulo” era um fanático cumpridor da lei judaica e perseguidor dos primeiros seguidores de Jesus.
A missão do cristão de ser “rocha” significa: ser um humilde servidor da comunidade, livre de poderes, despojado de privilégios e honrarias, irmão(ã) maior entre os demais irmãos, laço de unidade entre os membros da comunidade, mensageiro de paz, defensor dos pobres, protetor dos excluídos, testemunho de simplicidade e exemplo de diálogo. Só assim será a “rocha” de verdade sobre a qual Jesus poderá edificar uma nova igreja.
Não podemos continuar pensando que Jesus transmitiu um “poder” a Pedro. Jesus não exerceu poder porque o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano (seja poder político, religioso, ou qualquer outra expressão de poder).
Jesus esvaziou-se de todo poder; Ele tinha autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas”. Quem tem “poder”, o centro está em si mesmo; por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, decide pelo outro… A autoridade deve ser exercida no marco da visão de Igreja que o Vaticano II nos deixou, ou seja, potenciar a comunhão. É urgente que o exercício da autoridade na Igreja vá assumindo os traços característicos de uma Igreja-comunhão, Igreja-sinodalidade, Igreja-participação, Igreja-samari-tana e servidora…, se quisermos ser fiéis ao “modo de proceder” de Jesus.
A Igreja é Comunidade “Sinodal” igualmente em seu “caminhar com a totalidade de seus membros”, construindo o Reinado do Pai; ninguém é excluído, ninguém é de segundo nível. Cada um dos seguidores de Jesus é tido em conta e participa ativamente. Todas as pessoas que são membros da Igreja o são em virtude do sacramento do Batismo.
Este sacramento confere a quem o recebe o dom da filiação divina, a mais alta dignidade que um ser humano pode ter. Ninguém é superior a um filho ou a uma filha de Deus. São irmãos e irmãs entre, no nível de igualdade. Se na Igreja há alguma diferença em dignidade, se alguém crê ser superior a outros, essa Igreja não é “sinodal”, é infiel a Jesus, é uma contradição ao Evangelho. Se alguma diferença em dignidade é admitida como válido, é um abuso que é preciso suprimir.
Igreja Sinodal não é simplesmente uma Igreja que faz Sínodos, reuniões. A Igreja é Sinodal pois a totalidade de seus membros, todos e todas “caminham com Jesus” no mesmo caminho, que é a construção do Reinado do Pai.

Texto bíblico: Mt 16,13-19
Na oração: A oração é o caminho interior que faz a pessoa chegar até o próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo da pessoa, mas o mesmo Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde a pessoa “mergulha” no silêncio à escuta de todo o seu ser.
Coloque-se diante da verdade de Deus, na verdade de si mesmo:
– que resposta você daria, agora, se um repórter lhe entrevistasse e lhe perguntasse: “quem é você?”
– o que você colocaria na sua carteira de identidade que lhe diferenciasse de todas as outras pessoas? quais seriam os seus sinais digitais mais originais? Quais os seus sinais digitais divinos? (as “marcas” de Deus);
– o que em você é “rocha” consistente, fundamento inabalável?
Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.
Podcast Rezando o Evangelho | Textos do Pe. Adroaldo
Ano A — Santos Pedro e Paulo, apóstolos
Imagem: Luís Henrique Alves Pinto
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