Deus Trindade: circularidade-encontro-amor

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele

Jo 3,17

A festa do Deus Trindade e o evangelho deste domingo nos impulsionam a ir além dos conceitos doutrinários elaborados pela teologia para buscar de novo o rosto do Deus comunhão de Pessoas; não se trata de quebrar a cabeça para entender o “mistério” da Trindade, mas de abrir nosso coração e nossa vida para acolher o Deus Uno e Trino que se comunica a nós e nos põe em relação com Ele, com os outros e com suas criaturas; “mistério” que nos convida a um esvaziamento de nosso ego, da desapropriação de nosso querer e da doação para avançar na dimensão fraternal e comunitária.

Se aceitamos o convite de nos deixar guiar pela Trindade, encontraremos o Amor que esvazia o “meu’ e o “teu”, cria comunhão entre nós e com nosso Deus, nos define e plenifica, dá sentido e solidez à nossa vida, nos faz felizes. Assim nos aproximaremos da verdade de Deus e da nossa própria verdade.

Sabemos que no Amor não há solidão; se “Deus é Amor”, é comunhão de Pessoas. Criados à imagem e semelhança da Trindade amorosa devemos deixar transparecer esse mesmo amor nas relações com os outros. Somente corações carregados de amor acreditam no Deus Trindade; somente corações solidários creem no Deus comunhão de Pessoas.

A fé na Trindade muda não só nossa visão de Deus, mas também nossa maneira de entender a vida. Confessar a Trindade de Deus é crer que Deus é um mistério de comunhão e de amor; não é um Deus fechado e impenetrável, imóvel, indiferente e impassível. Sua intimidade misteriosa é só amor e comunicação. Consequência: na profundidade última da realidade, dando sentido e existência a tudo, só há Amor. Tudo o que existe vem do Amor, é transparência do Amor.

Uma teóloga norte-americana (Sandra Schneiders) diz, com ironia, que temos reduzido a Trindade a um ancião, um homem jovem e um pássaro. Trata-se de recuperar uma experiência de Deus mais profunda para que aflore sua extraordinária riqueza. É preciso captar qual é a experiência fundamental que está escondida na afirmação cristã de que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Esta perspectiva crítica não significa menosprezo de nosso passado cristão que, apesar das limitações e condicionamentos humanos, tentou explicitar as relações intra-trinitárias, que se visibilizam nos atributos de justiça, bondade e misericórdia presentes na humanidade e na criação inteira.

A teologia trinitária afirma que toda realidade é comunhão – dar e receber dons -, porque tem sua fonte e seu sustento no amor Trino eterno descrito por teólogos com o termo “perichoresis”, um abrir espaço dentro de si para que o outro seja: relação trinitária, comunhão de amor, em relação circular “em espiral no ritmo pericorético” (dança ao redor). Pericorésis-Kénosis-Ágape.

A leitura dos textos dos Padres da Igreja nos oferece uma maneira de compreender os passos desta “dança trinitária”, para que saibamos escutar a música do Espírito, viver a identificação com o Filho e deixar-nos conduzir pela Graça providente do Pai; à medida que o Deus Trindade vai infundindo seu amor em nós, nossas vidas se convertem em acontecimentos de graça, pois a vida de Deus se expressa e se expande em cada um de nós.

Isso significa que nada na Criação existe por si só ou para si só. As criaturas e toda a humanidade são marcadas, do início ao fim, pela necessidade de relação, de proximidade, de acolhida do diferente.

Se o mundo é nomeado como criação, e a criação narrada de uma maneira trinitária, o movimento do mundo deve sempre ser entendido e avaliado em termos do “movimento” entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Porque é da natureza do amor divino “abrir espaço” para que outros sejam e floresçam. O amor se plenifica em um mundo que contribui para o bem e a beleza da vida.

Se Deus cria um mundo, Deus também comunica seu próprio amor trinitário como base e meta da vida criada. Isso significa que, se queremos saber o que é a vida das criaturas, o que ela significa e para que serve, precisamos olhar para a vida do Deus Trino.

Deus está sempre presente no mundo como o sopro ou Espírito que o mantém, levando as criaturas para a plenitude da vida. Deus assumiu a carne das criaturas na pessoa de Jesus de Nazaré, para que nossa carne pudesse conhecer e participar da própria vida de Deus. A Trindade proporciona os contornos de uma visão do que as relações entre as criaturas devem ser.

Deus Trindade significa, portanto, a fonte de nosso ser, a profundidade última de nossa existência, a inspiração, a consciência… No mais profundo de si mesma, cada pessoa se experimenta como uma abertura de seu “eu” a um “tu” e ao “nós” que surge desse encontro. Assim trazemos impressa, na profundeza de nosso ser a imagem da Trindade. O que percebemos e sentimos em nós é um pálido reflexo de Deus, somos seus filhos e filhas e carregamos um sinal que é trinitário. “Nós não geramos a Luz, somos somente os raios desse grande Brilho” (K. Gibran). Fomos criados à imagem do Deus Trindade e, por isso, carregamos impulsos de comunhão, de proximidade, de compaixão…

Tudo isso nos afasta da tentação de “criar” um Deus de acordo com nossa medida, nosso capricho, para que não nos complique a vida, que não questione nossos próprios critérios, nossas crenças…

Deus Trindade é vida, movimento plural. Não é um conceito abstrato, distante de nossa realidade, de nossos desejos mais profundos, não é um “ser” estático, imóvel. Não é um ser separado, mas Mistério inefável que perpassa tudo com sua Presença, habita em tudo e em tudo se manifesta com seus atributos de bondade, misericórdia, amor, justiça…

Criados à imagem de Deus, a Trindade nos revela o mais profundo de nós mesmos, nossas aspirações e desejos, inclusive aqueles dos quais não somos ainda conscientes, porque nossa realidade não se esgota em nós mesmos, nos transcende e nos configura com o mesmo Deus.

E isto é magnífico, porque esse dogma, incompreensível e aparentemente estéril, se torna em algo decisivo para nós, porque este conhecimento de Deus orienta nossa vida, nos permite caminhar pela senda da verdade e, como consequência, é fonte de segurança e estímulo.

Descobrir Deus dentro de nós como um processo de geração, de aspiração, de emergência da Trindade no seu jogo de amor: isso é o céu.

Conforme esta compreensão, a Trindade aparece como Fonte da comunidade perfeita e dessa forma oferece um modelo de comunhão social para o mundo, ou seja, para os homens e mulheres, os idosos e as crianças, todos no grande baile da Vida. Partindo de sua participação no mistério divino, em gesto de fé, através do Espírito Santo, os cristãos devem construir uma sociedade que responda a esta dança doadora de vida e geradora de amor.

Por isso, a festa que celebramos hoje não é um “mistério incompreensível” para nossa mente sobre Deus Uno e Trino; é uma celebração de nossa capacidade infinita de ser comunhão na diversidade, de viver rodeados de um amor que não tem limites e de participar neste momento da história dessa identidade de filhos e filhas, que nos faz irmãos e irmãs de todos.

Texto bíblico: Jo 3,16-18

Na oração: Deus é o Amante do mundo e de toda a humanidade; para Ele, nós não somos “seres de experimento”, mas meta de seu amor, porque Deus é Amor. O Amor é a realidade fundante, absoluta; o Amor rege o universo, o cosmos, a vida.
Somos chamados e ser “diáfanos”: pura transparência do Amor trinitário nas relações com as pessoas e no cuidado da Casa Comum (morada da Trindade).
– Que gestos e atitudes assumir no cotidiano da vida para ser canal transmissor do Amor trinitário.


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.

Podcast Rezando o Evangelho | Textos do Pe. Adroaldo

Ano A — Santíssima Trindade


Imagem: Luís Henrique Alves Pinto

Padre Adroaldo Palaoro, SJ Palavra de Deus

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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