Crônica de Pentecostes: a criação como instrumento da ação divina
Clara Boing Marinucci
Pela manhã, sentei-me à beira do Paranoá. No balanço do vento e no som das águas, senti a presença do divino, que aplaca as angústias e dissolve as preocupações, eternizando os instantes que usualmente nos escapam. É a Trindade que se manifesta não apenas na natureza em si, mas no lago criado pelas mãos do ser humano — fruto e copartícipe da criação, intermediário de Deus no mundo.
Nossa relação com o divino é marcada pelo recebimento da dádiva da criação — que inclui nós mesmos e nossos irmãos — e da missão de cuidarmos dela, sendo nosso princípio e fundamento agirmos como meio da ação divina. Cremos em um Deus que criou o mundo e viu que era bom, a quem pedimos que traga a nós Seu Reino. Somos cristãos por acreditarmos em Cristo como Deus encarnado, que foi igual a nós em tudo, exceto no pecado; festejamos sua encarnação como um ato de amor, sua vida como modelo de existência terrena. No Pentecostes celebramos o espírito de amor, que nos transpassa e transforma, fazendo-nos intermediários da vontade divina, construtores do Reino.
Contudo, na prática, basta-nos pouco para abandonarmos o amor pelo mundo tangível e clamarmos por um Deus que intervenha diretamente neste plano, livrando-nos das situações a que a realidade nos subordina: as orações pelos números da loteria, pela vitória do time, pela resposta da prova. A situação se agrava nas preces desesperadas em leitos, cemitérios ou naqueles lugares mais simples, mas que nos despertam a vontade de arrancar do tempo a vida, os momentos e as pessoas que ele nos roubou. A Sua obra-prima parece-nos insuportável.
Por mais que creiamos em milagres e na intercessão dos santos, eles não podem substituir a ativa ação humana na história como intervenção indireta de Deus. O agarramento a tal expectativa, a qual muitas vezes não se concretiza, tira-nos a paz e a esperança que ela momentaneamente nos traz — faz-nos sentirmo-nos abandonados pelo Todo Poderoso; buscar culpados entre o Senhor, nós mesmo e os demais.
Porém, há um elemento mais devastador: a crença em um Deus que simplesmente abra os céus e solucione nossos conflitos nos impede de enxergar sua ação ordinária na Terra. O amigo que nos é fortaleza, o desconhecido que nos estende a mão; a criança que nos sorri e a natureza que, apenas por existir, nos enche a alma — tudo isso passa despercebido no anseio por um socorro sobrenatural.
Os meios de Deus são um mistério para mim — deixo tal tarefa aos teólogos, como meu querido pai. Penso que a teologia depois de Auschwitz, dimensão de um Deus que nos dá liberdade e sofre conosco suas consequências, e os raciocínios de Amaladoss¹ nos tragam alguns elementos. Talvez isso transcenda o nosso próprio entendimento. Assim, mais do que buscar explicações extraordinárias para as causas e soluções de nossas desolações, acredito na força de encontrarmos e promovermos consolações no dia a dia, iluminados pelo Espírito Santo. Tal reforma do nosso modo de ver Deus, e consequentemente a vida, é fonte de reconciliação com nossos irmãos e conosco.
De um lado, despi-nos da vaidade, fazendo com que enxerguemo-nos todos como filhos e filhas do Pai. Se as mãos de Deus são, majoritariamente, as nossas, deixamos de creditar a Ele nossa fortuna e a “prosperidade”, entendendo as conjunturas em que estamos inseridos como um resultado de relações humanas que muitas vezes não espelham Sua vontade. Com isso, não nos sentimos superiores aos que padecem pela fome, pelas guerras e pelo luto, visto que tais condições não derivam do (de)mérito perante os Céus, de uma punição que não nos foi infligida. Em vez de considerarmo-nos mais amados ou mais merecedores da graça, somos vocacionados a sermos os mensageiros de paz dos quais essas pessoas necessitam.
Por outro lado, tal visão é a profilaxia de uma vida ensimesmada e sem sentido. Ela nos chama a aproveitar a vida não por não crermos naquela eterna, após a morte, mas por entendermos que esta é o privilégio de desfrutarmos da criação divina e de seus desdobramentos (como a voz do Milton Nascimento). E especialmente: por entendermos que esta é a oportunidade de sermos transmissores do amor de Deus a nossos amigos, familiares, desconhecidos e às futuras gerações; de não passarmos, com sorte, oitenta anos presos em nós mesmos sem nos abrirmos, nem criarmos memória. Por não resolver em um piscar de olhos os nossos problemas, Ele nos permite sermos faróis uns dos outros, criando laços de empatia e orientando nosso amor e serviço às obras terrenas; sendo nós mesmos a “paz de Cristo” que desejamo-nos mutuamente.
Portanto, o fim do tempo pascal não é o abandono do Cristo ressuscitado que não se faz mais presente neste plano. É o Pentecostes que nos recorda de ver “Deus em todas as coisas e em todas as coisas Deus”, percebendo-o através dos sentidos; que nos inspira a sermos como Ele e propagarmos seus ensinamentos, o que nos aproxima, inclusive, de nossos semelhantes que não professam esta fé, mas compartilham desses valores. Dessa forma, deixamos de esperar passivamente a vida por vir e passamos a buscar a “transcendência no imanente”², a sermos e percebermos o que de concreto se sustenta para além do tempo, vencendo cotidianamente a morte, assim como Ele o fez.
Notas
¹AMALADOSS, Michael. O conflito criador: meditações teológicas. São Paulo: Loyola, 2001.²Conceito do filósofo francês Luc Ferry, ateu cujas reflexões dialogam com essa temática. FERRY, Luc. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Tradução de Vera Lúcia Bittencourt. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
Clara Boing Marinucci é leiga, estudante de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Integra a comunidade do Centro Cultural de Brasília (CCB) e é professora voluntária do Cursinho Pré-Loyola.
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
