Encantar a Política (I)

Simone Furquim Guimarães

O Evangelho de hoje (Mt 6,24-34) provoca-nos a pensar sobre as consequências de nossas opções de vida. Estamos dando mais valor ao ser ou ao ter, aos bens deste mundo ou aos bens do céu (que são as coisas de Deus)?

Jesus começa exortando para olhar para a criação de Deus: “Olhai as aves do céu…observai os lírios do campo”. Depois nos adverte: Tenha fé (v.30), Deus sabe de nossas necessidades (v.32). E nos conclama: antes de tudo, busque o Reino de Deus e a justiça de Deus que tudo que precisa acontecerá e vos será acrescentado (v.33).

O texto repete por seis vezes a palavra “preocupar-se”, pois Jesus quer nos alertar que quando nos preocupamos excessivamente com o que comer, beber, vestir, consumir; tudo isso vira consumismo, individualismo. Passamos a servir à Mâmon (termo que significa dinheiro, deus da riqueza). Jesus adverte desde o início: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mâmon).

É por servir ao deus Dinheiro que hoje a riqueza está acumulada nas mãos de poucos; e, em detrimento disso, dois terços da população vive na pobreza e na miséria.

É por servir ao deus Dinheiro, que pudemos ver com clareza nesta pandemia da COVID 19 que os países onde seus governantes fazem opções de privilegiar os mais ricos, foram os países que mais mataram, pois não se preocuparam com políticas públicas eficazes para o resto da população.

Jesus conclama hoje, a todos os cristãos: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (v.33).

Quando buscamos a justiça, todas as pessoas terão vida plena, com dignidade; terão o que comer, vestir, morada para dormir.

A leitura de hoje está em consonância com as diretrizes da Campanha “Encantar a Política”, promovida pela CNBB e entidades parceiras, que nos ajuda a pensar a política neste ano de eleições.

No capítulo primeiro, que diz respeito sobre a “Universalidade do amor cristão”, as diretrizes seguem o pensamento do Papa Francisco, expresso na Carta Fratelli Tutti, que vai dizer que a política organizada e eticamente comprometida é aquela que amplia sua atuação para atingir todas as pessoas, buscando então construir o Reino de Deus aqui e agora.

O documento nos alerta contra o deus Mâmon: “para que nosso próximo não caia na miséria, é preciso que o Estado o proteja da ganância do sistema capitalista”. E nos mostra sobre a justiça de Deus: “Criar, defender e implementar políticas públicas que promovam a distribuição de bens e não deixem pessoas desvalidas na miséria são formas sublimes de Caridade, já diziam os Santos Paulo VI e João Paulo II”.

Se a justiça de Deus acontece, a fé e a política caminharão juntas, haverá justiça social de distribuição de renda, de democratização da riqueza, todos terão acesso aos bens necessários para uma vida digna.


Ouça no Podcast Ignatiana


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatina.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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