Maria Madalena: Apóstola dos apóstolos

Simone Furquim Guimarães

Em Mc 16,1-7 temos explícito quem foi a primeira receptora da Ressurreição e da ordem de anunciar. Por causa desta passagem, até o ano 1200 d.C., Maria Madalena era considerada a Apóstola dos Apóstolos pelas comunidades cristãs.

Era venerada e seu ícone representava-a com um manto azul, simbolizando o poder; vestido vermelho, simbolizando a vida; segurando numa mão um ovo, simbolizando a portadora do anúncio da ressurreição e, na outra mão uma luz, simbolizado a vida.

Infelizmente, a misogenia entrou forte na Igreja e Maria Madalena foi interpretada como sendo “a pecadora”, a prostituta, a mulher adúltera, seus ícones passaram a representá-la como prostituta ou pecadora, maltrapilha, segurando uma caveira em uma das mãos. Os primeiros padres traduziram demônios, considerado doenças de cunho desconhecido, por pecados e a identificaram como a maior das pecadoras, como uma prostituta. Ser prostituta na Lei judaica era ter um grande pecado. Por ser mulher, supõe-se que Maria Madalena também tenha sofrido várias discriminações e rejeições pela sociedade da época.

Mas, no Movimento de Jesus, Maria Madalena foi uma das líderes, era reconhecida pelo nome, não era conhecida como sendo filha, mãe ou esposa de algum homem, mas originária de uma cidade. Isto demonstra que tinha status de liderança. Ela era “uma por si mesma” e não por outro, por um homem, por um marido ou filho. Tudo isso, pode ter afrontado a hierarquia cristã nos primeiros séculos.
No entanto, Mc 16,8 tem uma lacuna na narrativa que termina de forma abrupta e misteriosa. Este verso contradiz com todo o Evangelho sobre a atuação das mulheres. Podemos aí levantar a seguinte suspeita – uma vez que é uma contradição a todo o livro de Marcos: como as mulheres que seguiram, serviram, subiram, foram exemplos de fé e perseverança, podem “fugir e ter medo” diante da presença de Jesus ressuscitado e se negar a anunciar o Evangelho?

Para esta resposta, o rodapé da Bíblia de pesquisa (Bíblia de Jerusalém, por exemplo) nos informa que os próprios manuscritos originais são controversos. Diz ser difícil admitir que o v. 8 tenha terminado de forma tão abrupta. Donde a suposição que o final do v. 8 desapareceu por alguma causa por nós desconhecida e de que o atual acréscimo (Mc 16,9-20) foi escrito para preencher a lacuna. Apresenta-se como um breve resumo das aparições do Cristo ressuscitado, cuja redação é sensivelmente diversa da que Marcos habitualmente usa, concreta e pitoresca. Informa que o final que hoje conhecemos (vv. 9-20) era conhecido, já no século II por Taciano e santo Ireneu, e teve guarida na imensa maioria dos textos massoréticos (manuscritos) gregos e outros.

Quando ousamos suspeitar e, aqui no caso, suspeitar de textos obscuros, é porque pretendemos investigar o que existe por trás das palavras. E aqui, no caso, queremos descobrir ações de mulheres, a sua voz.
Pudemos perceber no Evangelho de Marcos que as mulheres tiveram atuações importantes, decisivas, reveladoras do projeto de Deus. Por isso, não podemos aceitar o fato de mulheres importantes no Movimento de Jesus ter simplesmente “fugido” (v. 8).

A pesquisa revela que os vv. 9-20 do capítulo 16 não fazem parte do escrito original, é um adendo. Percebemos um corte na narrativa entre o v. 8 e o v. 9, é uma espécie de segunda narrativa da ressurreição de Jesus. Suspeita-se que esta segunda narrativa tenha sido acrescentada posteriormente ao texto para justificar que Jesus delegou poderes para “os onze” para anunciar e fazer prodígios (Mc 16,11.15.20). E por esta narrativa, os primeiro padres consideraram que haveria somente 12 apóstolos, pois o primeiro já havia sido consagrado apóstolo e líder da igreja, que era Pedro (Mt 16,18ss). Além disso, nesta narrativa, os primeiros doutores deslegitimam o poder de Maria Madalena, bem como de qualquer outro/a que seguiram Jesus, com base nos infrutíferos êxitos de seus anúncios (Mc 16,11.13). Estes anunciaram, mas não convenceram a quem os ouvia.

Devemos suspeitar, olhando o contexto das primeiras comunidades cristãs, por volta do final do sec. I e sec. II. Temos neste período muitos conflitos entre lideranças na igreja, que debatem a hierarquia. Temos aí, os efeitos da misogenia (aversão à mulheres) na cúpula desta liderança. Nas cartas deuteropaulinas, como cartas a Timóteo e Tito, que são escritos destes períodos, as mulheres são consideradas pecadoras porque Eva foi quem introduziu o pecado no mundo e por isso, as mulheres foram silenciadas, perderam a liderança na comunidade cristã (1Tm 2,12-15).

Mas se queremos ouvir as vozes e ver as atuações destas mulheres cristãs, podemos ousar e reescrever o versículo 8, assim: … e fugiram do túmulo porque temiam a perseguição do poder religioso e político, mas foram até os/as outros/as seguidores/as de Jesus e anunciaram alegremente a sua ressurreição. Então creram e continuaram a proclamar seus ensinamentos.

Nós cristãos/as somos testemunhas desta ressurreição porque carregamos conosco a fé no Cristo libertador! Daquele que ensinou um projeto de inclusão de todos/as na pertença à filiação divina, à salvação, à equidade de gênero, à prática da solidariedade, da justiça social. Por isso, muitas mulheres e homens feministas, em sua missionariedade, anunciam esse Jesus libertador, mesmo que enfrentando incompreensões e julgamentos sumários que impedem a voz e a vez dessas pessoas.
Simone Furquim


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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