Os sonhos que ficarão para outra oportunidade

João Carlos Pereira

Aprendi a gostar de rádio com meu pai. Funcionário da Rádio Clube, da Cultura e, depois, da Rádio Liberal, ele me ensinou apreciar as radionovelas e os programas apresentados nas emissoras AM. O rádio era sua vida. Com autorização de Edyr Proença, transformou as manhãs de domingo num tempo de pesquisa na discoteca da PRC-5, onde garimpava preciosidades da música brasileira e gravava fitas K-7. Muitos dos discos ainda eram os feitos com goma laca, na base de 78 rotações. Chiavam mais do que armador de rede sem óleo. Papai achava isso o máximo da autenticidade.

Meu pai era um sujeito extraordinário. Sua cultura musical era vastíssima e diversificada. Possuía dois grupos de amigos, que dividia em turma A e turma B. A turma A escutava música erudita, curtia ópera em altíssimo volume, o que lhe valeu uma certa deficiência auditiva e a ira dos vizinhos. Ele não conhecia limites. Ouvia tanta ópera, que sabia de cor as falas inteiras de alguns personagens. Além disso, sem ser regente, sumulava o controle da orquestra. Com a turma B, o repertório era MPB da antiga. As duas turmas jamais se encontraram, a não ser no dia de seu velório. Eram realidades bastante diferentes, entre as quais transitava com igual intimidade.

No seu velho, potente e muito querido rádio Transglobe Philco, conseguia pegar emissoras do mundo todo. Mas a recepção nem sempre era boa. Estou falando dos anos 70 do século XX. Meu pai morreu em 1984, depois de haver gravado o programa que iria ao ar na mesma noite, na Rádio Liberal. Se não me engano, se chamava “Noites de Seresta”. Se vivesse hoje, o mundo do rádio estaria aos seus pés e não duvido que teria a própria emissora virtual, onde comentaria as grandes óperas e tocaria MPB de todos os tempos. Ele não alcançou esse momento.

Durante muito tempo sonhei em ter minha própria emissora. Ela se chamaria Rádio Sonata e a programação seria música clássica de ponta a ponta. Haveria jornalismo e programas educativos. Uma rádio com poucos anunciantes, porque o público que compra panela, colchões e fogões a preços populares não iria sintonizar a minha Sonata FM. Não se trata de preconceito, deixo claro, antes que me acusem da racista ou de elitista. Mas de mercado entendo um pouco. Nem que seja o do Ver-o-Peso.

Fico feliz, quando vejo o Theatro da Paz lotado, com filas imensas nas bilheterias, na época do festival de ópera. É sinal de que estamos avançando na estrada do bom gosto. Mas será que esta turma pararia na Sonata FM para curtir um programa sobre Bach, por exemplo? Tenho muitas dúvidas.

De todos a quem falei desse sonho, ouvia apenas palavras de desestímulo. Para conseguir autorização para montar uma FM, fornecida pelo Ministério das Comunicações, eu deveria ter um padrinho político muito forte, porque os políticos, quase sempre, raspam o tacho das concessões. Hoje, qualquer um pode ter a sua web rádio. A facilidade chegou tarde demais. Meu ideal de possuir uma emissora virou fumaça. Como quase todos que acalentei, aliás. Entre eles, lembro o de ter um restaurante especializado em peixes, uma faculdade, uma loja de especiarias, uma livraria e uma galeria de arte.

Comparo minha vontade de possuir uma rádio com meu projeto de fazer doutoramento em vinho. Nessa época, minha mulher participava do doutorado na Universidade de Buenos Aires e era colega, em turmas de diferentes, dos paraenses Leonam Cruz Jr. e Octávio Avertano Rocha. Enquanto ela assistia às aulas, eu vasculhava os antiquários de San Telmo, conhecia Museus e aprendia a andar de ônibus pela cidade, me valendo da tarifa social que a viúva Kirchner aplicara ao transporte coletivo, barateando o bilhete.

Em Buenos Aires, o preço da passagem varia da distância entre o ponto em que a pessoa sobe no ônibus e o lugar em que descerá. Me parece muito justo. Aqui, o valor é mesmo, tanto faz que se apanhe o coletivo no Ver-o-Peso e pare em Nazaré, ou no final da linha, em Icoaracy, por exemplo. Como de besta nem a cara ela possui, mandou colocar, em cada recibo entregue pelo motorista, a informação de que o valor era reduzido, graças à bondade da viúva. Era a piada pronta: a viúva bancava os feitos da viúva, diria o Elio Gaspari, que só se refere ao tesouro como sendo “a viúva”. A madame Kirchner, pelo menos, era viúva de verdade.

Cansado dessa vida fácil, resolvi aproveitar meu tempo na Argentina fazendo algo mais útil. Descobri que poderia ser doutor em vinho e fui atrás do meu novo projeto de vida. Cheio de moral, porque iria ser referência em vinho, o primeiro, o maioral, o único entre os profundos conhecedores de safras, aromas, sabores, rolhas, rótulos, capazes de identificar uma levíssima gota de petróleo, lá no fundo, em vinhos da África do sul, por exemplo, me coloquei no balcão da UBA e pedi informações. Eu lia e me sentia em casa, deitado na minha rede, aproveitando o vento da noite, enquanto ouço, pela internet do telefone, a rádio Smoooth, emissora portuguesa que transmite para Lisboa e para o Porto uma programação maravilhosa, feita basicamente de jazz, blues e soul.

Depois de me encantar com a amabilidade da atendente que, quando eu me atrapalhava no espanhol, me socorria em língua francesa, comecei a sonhar acordado com as disciplinas: produção de rótulos, visita a vinícolas, degustação, harmonização, tipos de uvas, safras, clima, solos, até que levantou-se diante de mim uma muralha maior do que as paredes do mar que Moisés abriu para os hebreus passarem, fugindo do Faraó. Ela atendia pelo nome de química orgânica.

Como eu, considerado por mim próprio, no auge da baixa-estima, o pior aluno que o Colégio Moderno teve, em 100 anos, na disciplina Química Orgânica, poderia ultrapassar aquele Himalaia? Seriam apenas poucos meses, estudando o que jamais consegui entender. Teria a sorte de conhecer um professor tão piedoso como Norma da Costa Mendonça, que gostava muito de mim e aproveitava qualquer besteira que escrevesse, para não me reprovar, mas as chances eram remotas. Tentaria colar, mas cadê coragem? Tentaria aprender de verdade, mas seria inútil. Que grande doutor a Universidade de Buenos Aires poderia ter produzido, não fosse a química orgânica.

Quando vejo as sumidades pronunciarem-se sobre o assunto, com a autoridade de quem bebe vinho há pouco tempo, me pergunto. E a química orgânica, tão necessário ao saber absoluto da matéria, conhecem? Como fujo das sapiências de qualquer espécie – e Belém é um celeiro de sábios em várias áreas – prefiro abrir uma garrafa do vinho de que gosto e pelo qual posso pagar, a encarar qualquer discussão “profissional”, digamos assim. Em poucos lugares da Terra sabe-se mais sobre vinho, azeites e harmonizações, entre outros temas, do que aqui. Quando uma novidade em matéria de vinho aparece em Paris, já há pós-doutores entre nós.

Conformado com a impossibilidade de ser doutor em vinho, passei no supermercado perto de nosso apartamento, comprei um rótulo nacional e tomei sozinho. A mesma coisa se deu com a minha rádio. Desisti logo na primeira investida. Rádio é para quem tem votos. Não é para mim.

Entre o título de doutor e o vinho, preferi, conformado, o vinho, claro. E entre minha rádio e uma emissora via internet, não tenham dúvida de que estou com a segunda opção. E se vale uma sugestão, busquem na internet a rádio Smooth. Vai ser paixão à primeira ouvida e para sempre.

Pena que a emissora não deposite um pobre eurozinho na minha conta, por causa dessa publicidade gratuita e desinteressada, feita sob efeito de um vinho português, cujo nome não revelo, porque de “merchand” gratuito já basta o da emissora.

Saúde, meus irmãos de copo e cruz.

Belém, 30 de setembro de 2020.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

Série Diário de um desespero – ou quase
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Imagem: Edward Steichen — O Girassol, 1920. National Gallery of Art.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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