Duas histórias curiosas do quase governador Avertano Rocha

João Carlos Pereira

Entre 1960 e 1962, o poeta Mario Faustino trabalhou no Departamento de Informação da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque. Um dia precisou encontrar uma lavanderia próxima à sua casa e recorreu à lista telefônica. Antes de achar o que procurava, deparou-se com o anúncio de uma frenóloga. Mário, que era um brincalhão, não sabia que frenóloga é uma advinha capaz de conhece presente, passado e futuro do consulente, valendo-se do curiosíssimo método de passar a mão na cabeça, para conhecer o formato do crânio. Uma consulta com tal criatura seria uma distração e tanto.

Mario esqueceu a lavanderia e ligou para frenóloga. A voz que atendeu no outro lado tinha nas mãos um baralho que, naquele momento, ficou branquinho. A advinha, assustada com o fenômeno nunca acontecido antes em seu consultório, disse ao homem que a procurava que tinha coisas importantíssimas a lhe revelar. Pediu que fosse imediatamente ao local de atendimento e não se preocupasse com a sala de espera lotada, porque ele passaria na frente. Para mostrar que não se tratava de um golpe publicitário, avisou que consulta seria uma cortesia e não mais precisaria retornar.

Mais empolgado com a possibilidade de mangar do sobrenatural do que com a chance de conhecer o que o futuro lhe reservava, o poeta foi até lá e, de fato, a sala estava lotada. Passou na frente de todos e ouviu da frenóloga uma advertência: não deveria viajar de avião num período preciso. O passado e o presente ela acertou. Mas o futuro? Mario não deu a menor bola e, em novembro de 1962, precisou voltar a Nova Iorque, para assumir o cargo de correspondente internacional do “Jornal do Brasil”. Mario se despediu dos amigos, organizou a vida bancária e embarcou no vôo 810, da Varig, que jamais chegou ao seu destino. O avião colidiu com uma cadeia montanhosa – cerro de Las Cruzes – no Peru e explodiu. Mário contava apenas 32 anos.

Muitas décadas antes desse episódio, começo dos anos 20 do século XX, um homem conhecido como “seu” Lili, morador de uma área ainda hoje muito pobre, o bairro do Paracuri, na área da vila de Icoaraci, então chamada de Vila do Pinheiro, foi procurado por um dos homens mais ilustres de Belém, o professor Octávio* Avertano Rocha, que havia casado pela segunda vez e desejava saber o que destino guardava para seu primogênito, também chamado de Octávio* Avertano. Não sei exatamente para onde “seu” Lili olhou, se foi para um baralho, para uma mesa de búzios, para uma bola de cristal, para a borra de café coado ou para as entranhas de uma ave, mas o certo é que conseguiu enxergar o por vir do pequenino.

Octavio* Avertano de Macedo Barreto da Rocha foi abençoado pelo bom destino. Seria brilhante em tudo. Conheceria a glória como orador, professor, escritor, poeta e advogado. Seria uma espécie de ícone, a marca de sua geração. Isso previu o adivinho. Os bons ventos lhe trariam, numa bandeja dourada, o governo de um Estado brasileiro. Não disse qual seria, mas garantiu que Avertano seria governador.

Os anos se passaram e, na época do governo Geisel, o penúltimo general a dirigir o Brasil, Avertano era um dos mais prósperos advogados do país. Corria, em Belém, a fofoca de que possuía um chalé na Suíça. Vontade de ter uma casa nos Alpes nunca lhe faltou, mas o dinheiro não dava para tanto. Um dia, chegou em casa e encontrou dois recados: deveria procurar, com urgência, os ministros Danilo Venturini e Golberi do Couto e Silva, respectivamente chefes da casa Militar e Civil da Presidência da República. Os dois desejavam que aceitasse o convite de Geisel para ser o primeiro Governador do recém-criado Estado de Mato Grosso do Sul.

Avertano Rocha pediu um tempo para pensar e, talvez menos pelo fato de nem saber direito onde ficava a capital do Estado que poderia administrar. Um pormenor da previsão do “seu” Lili o levou a recusar a distinção. Quem acertou em tudo, não erraria num detalhe. Após assumir o Governo, seria assassinado. Pelo sim, pelo não, preferiu continuar vivo.

O primeiro governador do MS foi o engenheiro Harry Amorim Costa, que teve o mandato decepado no primeiro ano. Talvez esse tenha sido o “assassinato” que “seu” Lili viu. Talvez não. O certo é que Octávio* Avertano decidiu não apostar na fama. Embora tenha diploma de suplente de senador, Avertano nunca mais meteu-se em aventuras políticas.

A outra história vem de terras africanas. Depois que Luanda tornou-se um país livre, foi convidado para ser professor na Universidade de lá. Um dia, um dos alunos avisou que não poderia ir à aula, na semana seguinte, porque estaria sem sapatos.

As regras da instituição eram rígidas e os estudantes, apesar da pobreza, precisavam usar o chamado “fato”. Mesmo velhinho, mesmo surrado, o paletó era obrigatório. Diante desse aviso, o professor quis saber a razão de o aluno saber que ficaria sem sapatos. O motivo era de meter pena. Na família, apenas ele tinha sapatos e um dos irmão precisaria ir a lugar onde os sapatos também eram obrigatórios.

Avertano tentou conseguir junto à direção a liberação do traje completo e, excepcionalmente, o direito do jovem de assistir às aulas descalço. A resposta foi não, não e não. Como não restava alternativa, mandou avisar que, se não liberassem a entrada do aluno, ele próprio iria sem sapatos. Caso fosse barrado, voltaria para o Brasil no dia seguinte.

A pressão deu certo. O aluno pode ir à Universidade ostentando sua pobreza e o professor continuou no país até o final do contrato. Usando sapatos, é claro. Nesse dia, o professor brasileiro poderia ter inventado um novo ditado: em terra de homens descalços, quem tem um par de sapatos, se não é rei, pelo menos tem a força.

9 de setembro de 2020.



Enfiando o pé na jaca

P.S. de 14 de setembro de 2020.

Nesta crônica meti o pé na jaca e engoli papel duas vezes.

Primeiro, disse que o pai do meu confrade e querido amigo se chamava Octávio. Ele, educadamente, não corrigiu, mas sua prima Mízar Bonna foi ao ponto. Era Raimundo. Seu enterro teve dimensões cinematográficas. Era um homem tão querido, que virou nome de rua.

D. Mízar me disse que o professor Avertano-pai não era chegado a coisas de adivinhação, mas o filho mais velho, do primeiro casamento, médico respeitado, estudioso, de renome, era. Foram os dois ao “seu” Lili. Essa informação me foi dado próprio Avertano-filho, ou Avertano I, como ele gostaria de conhecido, imagino. Não fosse assim, não teria registrado o filho como Octávio Avertano II.

Com essa explicação, reponho o trem nos trilhos.


Mas o pé entrou com vontade na jaca, que veio até o meio da canela, quando disse que Luanda era um país. Minha querida amiga, prima e ex-professora de francês Nazaré (Naná) Lourenço Coiq, foi quem deu pela burrada. Eu queria escrever terra livre e lasquei país. Com certeza pensava em Angola, cuja capital é Luanda.

Claro que sei que Luanda está localizada na costa atlântica da África e é não apenas o principal porto, como o centro econômico do país. Foi fundada a 25 de janeiro de 1576 pelo nobre português Paulo Dias de Novais e recebeu o nome de “São Paulo da Assunção de Loanda”. Seu último censo, o de 2018, registrou 2,5 milhões de habitantes, o que a colocou na sétima posição na lista de sétima cidade lusófona mais populosa do mundo.

Poderia dizer, igualmente, a meu favor, que meus ouvidos e meu coração estão habituados à cidade de Luanda, sua formação e sua história, porque, em primeiro lugar, sempre achei essa palavra sonora e linda. Depois que meus amigos Amarília Tupiassu, a Lila, a nossa Lila, e o querido Netuno Villas tiveram uma filha e colocaram nela esse nome, a palavra entrou definitivamente na minha geografia sentimental.

Às vezes me acontece de pensar no particular e escrever no geral. Poderia dizer, para me safar, que usei a parte pelo todo. Mas não foi. Foi leseira mesmo. Um pé na jaca digno de aparecer no Fantástico.

Como castigo, vou escrever 100 vezes que Luanda é uma cidade, não um país. Mas, na minha cabeça, Luanda continuará a ser uma pátria livre.

João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

Série Diário de um desespero – ou quase
Todas as crônicas publicadas no Ignatiana

Imagem: Wega Nery — Composição nº 5, 1953. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

Crônicas de João Carlos Pereira

Ignatiana Visualizar tudo →

IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: