Jesus Cristo, sacramento do Pai

Pe. Manuel E. Iglesias, SJ

Pode-se falar de Jesus como “sacramento do Pai”, no sentido de que Jesus conduz ao Pai e revela o seu rosto. Todo sinal aponta para “algo mais”.

Uma característica do sinal é deixar a pessoa em liberdade para acompanhar o sinal ou para se negar a segui-lo. Não basta a credibilidade da pessoa sinal. É necessária uma abertura de espírito para entrar em sintonia com ela. Essa sintonia normalmente vem de longe e a pessoa já percorreu um longo caminho, sensibilizando-se com certos valores.

O salto da fé humana na vida para a fé em Deus é um dom recebido de Deus como graça. São inúmeros os caminhos que conduzem a Deus, pois cada pessoa é única e tem a sua própria experiência.

A cultura judaica em que viveu Jesus, uma teocracia, nem discutia a existência de Deus; a questão que se levantava era se os sinais realizados por Jesus eram obra de Deus ou de Belzebu. As autoridades religiosas do seu tempo optaram pelas trevas, pois a luz de Jesus contrariava os seus interesses. O Deus da Aliança, era, na prática, suplantado pelos ídolos do poder e do dinheiro. Isso explica a reação violenta de Jesus arrojando os comerciantes do Templo, onde o rosto de Seu Pai era desfigurado aos olhos dos pobres.

A cultura pós-moderna em que vivemos é muito diferente e Deus não é um dado indiscutível. Ao lado do pluralismo religioso existe uma multidão de pessoas indiferentes religiosamente, outras agnósticas e muitas impregnadas de um ateísmo teórico ou prático. As pessoas -sinais, de fato, continuam despertando a fé na vida e na dignidade humana, o que é fundamental. O dom da fé em Deus percorre mais de um caminho no qual a fé é transmitida e acolhida em liberdade.

O encontro com pessoas-sinais costuma levantar perguntas: Quem é você? Por que você age de tal maneira? O que dá sentido a sua vida? Qual a fonte de sua alegria? É perceptível como, no nosso tempo, é primordial o valor do testemunho das pessoas e das comunidades.

Como pessoa-sinal, Jesus suscitava perguntas. A sua credibilidade abria as portas das pessoas para o desejo de estar com ele, aprender dele uma vida nova e uma disponibilidade para serem enviadas em missão. Esse é o caminho do discipulado, no qual o discípulo terá oportunidade de, na sua convivência com Jesus, decidir, livremente, a sua entrega total.

– “Quem é este homem?” (Mc 4,41). Esta pergunta perpassa o evangelho de Marcos e só obterá resposta justamente pela boca de um pagão: “quando o centurião, que estava em frente dele, viu que Jesus assim tinha expirado, disse: “Na verdade, este homem era Filho de Deus”  (MC, 15,39).

A pergunta Quem és tu? aparece quatro vezes no evangelho de João (1,19;8,25;10,24;18,33). Só não é mais feita após a experiência da ressurreição de Jesus, naquela refeição com “153 peixes grandes”, símbolo da comunhão de todos os povos: “Jesus disse-lhes: ‘Vinde comer’. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem ele era, pois sabiam quem era o Senhor” (Jo 21,12). Aqui não há dúvidas, pois agora eles sabem que Jesus continua sendo para sempre “aquele que serve”: 

– “Jesus aproximou-se, tomou o pão e o deu a eles. E fez a mesma coisa com os peixes “(21,13).

Os evangelhos mostram como os discípulos foram, pouco a pouco, conhecendo o mistério de Jesus e a sua relação com o Pai. O rosto do Pai é bem diferente do que lhes foi apresentado pelas autoridades religiosas de Israel. Jesus, aos 12 anos, deixa perplexos seus pais no Templo, com esta pergunta: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é do meu Pai?” (Lc 2,49).

O segredo da felicidade de Jesus está na intimidade com o Pai. A experiência de ser amado por ele ressalta em dois momentos importantes da sua vida. No Batismo:

“E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu filho amado; em ti está meu pleno agrado” (Lc 3,22).

Na Transfiguração:

“Ainda estava, Pedro falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E, da nuvem, uma voz dizia: “Este é o meu filho amado, nele está meu pleno agrado: escutai-o” (Mt 17,5)

“Aquele que me enviou é verdadeiro e o que ouvi dele é o que eu falo no mundo”. Os judeus, porém, não compreenderam que lhes estava falando do Pai. Por isso Jesus continuou: “Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então sabereis que ‘eu sou’ (Jo 8,26-28)

Os judeus perguntaram: “Onde está o teu Pai?” Jesus respondeu: “ Vós não conheceis nem a mim, nem a meu Pai. Se me conhecêsseis, conheceríeis o meu Pai” ( Jo 8, 26 – 28).

Jesus ora ao Pai em momentos de alegria e até de angústia no Horto e na Cruz:

“Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos “(MT 11,25)

“Pai chegou a hora. Glorifica teu filho, para que teu filho te glorifique.” (Jo 17,1)

“Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste”. ( Jo 17,3)

Jesus retrata o rosto do Pai nas belas parábolas da misericórdia (Lc 15). Para os discípulos não foi fácil conhecer o Pai de Jesus.

“Felipe, há tanto tempo estou convosco, e não me conheceis? Quem me vê, vê o Pai.” (Jo, 14,9)

“Crede-me; eu estou no Pai e o Pai está em mim .”(Jo14,11)

“Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome, e o farei conhecer ainda, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu mesmo esteja neles.” ( Jo 17,25-26)

“Eu saí do Pai e vim ao mundo. De novo deixo o mundo e vou para o Pai”. (Jo16,28)

O mistério da Trindade, Jesus o vai deixando transparecer com naturalidade. As experiências do batismo e da transformação são nitidamente trinitárias.

– Se me amais, observareis os meus mandamentos. E eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará outro Defensor, que ficará para sempre convosco; o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê, nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele, permanece junto de vós e está em vós (Jo 14,15 – 17).

“Um dia, Jesus estava orando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos, pediu-lhe: ‘Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1).

Foi este um momento esperado e importante para todo discípulo, Isso porque o modo de rezar era o que caracterizava a identidade da escola de cada mestre em Israel. O modo de orar reflete a relação e a imagem de Deus que cada escola tem. Os discípulos ficaram admirados quando Jesus disse:

“Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. Não sejais como eles, pois o vosso Pai sabe o que precisais, antes de vós o pedirdes. Vós, portanto, orai assim:

Abbá  nosso… (Mt 6,713)

A oração do discípulo de Jesus é, por um lado, de imensa confiança no Pai querido (Abbá) e, por outro lado, de fraternidade universal, incluindo todos os irmãos e irmãos no nosso.

A oração de Jesus contém a essência do evangelho e constitui o clima que deve rodear e impregnar a oração e a vida toda do cristão.



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