A voz do profeta

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho proposta pela igreja hoje é Mc 6,17-29. Nela, Herodes manda matar João Batista durante um banquete em seu palácio. Temos aqui um relato de cunho político em torno da conveniente morte de João Batista, considerado profeta pela multidão. Na verdade, Herodes quis calar a voz do profeta.

O Evangelho de Marcos diz que Herodes, governo local, tinha medo de João Batista, mas ao mesmo tempo gostava de escutá-lo. Já no Evangelho de Mateus, temos uma crítica maior, pois revela que Herodes queria matar João Batista, mas tinha medo da multidão (Mt 14,5). E Flávio Josefo, conhecido historiador judeu daquela época, informa que o motivo da prisão de João Batista era o medo que Herodes tinha de um levante popular.

João Batista causava perturbação para a estabilidade do poder de Herodes (administrador de quatro regiões da Galileia). Herodes queria mais poder, queria a posse da tetrarquia do irmão Felipe. Por isso, tomar Herodíades como esposa era tornar-se influente naquele reino.

O banquete de Herodes simboliza as mesas fartas, com convidados influentes: Magnatas, oficiais e grandes personalidades da Galiléia (v.21). É nessa mesa que são decididas medidas sociais e econômicas responsáveis pela exploração, pela fome e morte dos pobres; simboliza o poder dominante nas mãos de um judeu (Herodes). Esse banquete, portanto, simboliza a produção de morte.

A atitude de Herodes nos remete há muitos governos e poderes na sociedade que se sentem incomodados com as críticas e denúncias dos profetas e profetisas de hoje. Os Herodes de hoje fazem banquetes, reúnem-se para decidir medidas que expoliam cada vez mais os direitos do povo, expoliam cada vez mais os direitos dos pobres; tudo isso para enriquecimento cada vez maior dessa elite. E quando os profetas criticam essas tomadas de decisão, são violentamente agredidos com palavras e ameaçados nos direitos de expressar.

Há muitos Herodes querendo matar os profetas na nossa sociedade, nas nossas igrejas: “querem calar a voz dos profetas”. Mas profecia não deve calar!


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).

Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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