Lições de um poema que falava

João Carlos Pereira

Para a professora Celeste de Brito Magno Camarão Proença, haver nascido em Muaná, no Marajó, era um motivo de glória. Por isso se apresentava como “marajoara de papo amarelo, com muito orgulho!”. Esse sentimento, que nada tem a ver com soberba, o seu significado menos nobre, não combinava com o jeito simples de dona Celeste, mas a acompanhou, no sentido mais generoso, em tudo que construiu na vida: a profissão, a família, os amigos e, de forma especial, a arte. “Eu vivi e vivo pela cultura e pela arte. Essa sempre foi a minha vida”, me disse, numa entrevista concedida numa manhã de sábado – qual delas, meu Deus? – em 2016.

Aluna do tradicional colégio “Progresso Paraense”, por onde se formou Professora – “era o que tinha de mais chique para mulheres, naquela época…” – aprendeu inglês, francês e espanhol, mas sua grande paixão foi a língua portuguesa. “Português ninguém decora. A gente compreende”, orientava a professora, uma das pioneiras no ensino do idioma e de técnicas de redação. “Há 40 anos eu dou vida ao Centro Cultural Celeste Proença”, uma instituição formada por ela própria e sua grande vocação para o magistério. Durante esse tempo, foi umas das referências no setor. Passar por suas mãos era quase garantia de aprovação nos vestibulares, numa época em que a redação do vestibular mostrava quem sabia ou quem não sabia escrever, bem diferente de agora, receita de bolo, fórmula pronta. “Naquela época, só eu ensinava redação. Eu cheguei a ter 200 alunos por período”.

A vida profissional de dona Celeste começou, quando os filhos – Edgar Augusto, Edyr Augusto, Janjo, Celina Claudia e Ana Carolina – formaram sua as próprias famílias. Um dia, andando pela rua, encontrou uma amiga que havia se mudado para a Bahia e acabara de voltar para Belém. Desesperada na busca por uma professora para o filho mais velho, conseguiu que aceitasse o rapaz, ao menos para avaliar-lhe o nível. Na hora marcada, ele apareceu com mais dois colegas. A partir daí, o curso não parou de crescer. “Posso dizer, agora, que, no começo, eu mesma não confiava em mim”. Aos 93 anos, como uma ligeira redução na capacidade auditiva, mas com uma memória primorosa, continuava dando aula e fazendo aquilo de que mais gostava na vida: escrever.

A caligrafia firme de dona Celeste não denunciava sua idade. “Eu não tenho aquela letra tremida dos anciãos”. Seus poemas eram produzidos a mão e, depois, datilografados por ela própria, numa antiga máquina Olivette, da qual falava com tanto carinho, que parecia tratar-se de um ser humano. O computador existiu, sim, em sua vida, mas não gostava da tecnologia, porque “mata o pensamento original e a emoção da gente”. Lições de uma poeta de alma muito romântica.

Quando tinha 14 anos, já apaixonada por Santo Antônio, entrou no asilo que tinha o nome do santo. Foi recebida por uma senhora que, achando bonito uma mocinha se interessar por idosos, com tamanha religiosidade, a convidou para participar do grupo que administrava a instituição, a qual esteve ligada até o último minuto de sua existência. No “Pão de Santo Antônio” exerceu todas as funções, menos a da Presidente, por absoluta falta de tempo. Seu corpo foi velado na Capela do asilo. “Era uma senhora muito simpática, chamada Celina”. Anos mais tarde, conheceu o filho de dona Celina, Edyr, com quem casou e foi o grande amor de sua vida. “O Edyr foi tudo para mim. Era muito mais que um marido, era meu amigo, um moleque, um grande músico, meu parceiro em dezenas de canções e um grande violeiro”. Quando falava de Edyr de Paiva Proença, seus olhos se enchiam de saudade. Ela uniu as mãos, olhou para o alto e disse, pausadamente: “havia um grande afeto entre e nós. Ele me chamava de Celi”.

Poeta como a irmã Adalcinda; e cantora como as outras irmãs – Gracinda (casada com Heriberto Pio, um dos fundadores da PRC-5) e Camila, ambas formadas em canto clássico, atravessou a vida a bordo da música. “Eu fui a maior intérprete de (Gentil) Puget. Na juventude, ao lado do marido e de amigos, integrou o “Bando da Estrela”. “ Carmen Miranda tinha o Bando da Lua e nós, o da Estrela, uma referência à estrela que vinha bordada na nossa farda”.

O grupo do qual fazia parte era composto por profissionais de vários setores profissionais, todos amigos, que se reuniam para cantar e alegrar reuniões familiares. “Nossos encontros festivos varavam a madrugada, na casa do Lago Azul. Depois, quando se aposentou, o Edyr criou o Clube do Camelo, porque ninguém bebia álcool. Era tudo feito na base da alegria verdadeira”.

Dona Celeste tinha muita história para contar. Bastava puxar a perninha de um tema, que ela desenrolava um novelo inteiro. Viajou o mundo todo, criou os filhos, teve 11 netos e dois bisnetos. Na cozinha, só entrava se fosse necessário, porque desenvolveu alergia a temperos. Em alguns momentos, ao longo da entrevista, parecia ausentar-se do tempo presente, fazia breve silêncio e retomava a fala a partir de uma frase para compor um poema. Muitas vezes, sem querer e sem perder a naturalidade, desenhou poemas inteiros, que se perderam no ar.

Em 2010, os filhos recolheram vários textos e, sem que soubesse, produziram um livro – “Tempo de saudade” – cujo lançamento foi marcado, na base do absoluto sigilo, para a noite do seu aniversário. Quando chegou à Estação das Docas, havia uma legião de amigos para os autógrafos.

Com as unhas pintadas numa tonalidade bonita de branco, os cabelos arrumados e discreta maquiagem no rosto, dona Celeste possuía uma elegância natural, uma distinção rara. O brilho verdadeiro, contudo, vinha dos gestos e da maneira terna de olhar as pessoas e a vida.

Celeste Proença deixou de ser, há muito tempo, um nome. Não foi a morte, no dia 12 de fevereiro de 2018, que a transformou-se numa legenda. Ela era superior ao fim. Em vez de morrer, transformou-se num verso de amor.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

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Imagem: Alex Vallauri (1949-1987) — O Mágico. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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