A santa nas mãos de um Papa que viraria santo

João Carlos Pereira

Num dia como hoje, há 40 anos, por essas horas (escrevo pouco antes da hora do almoço), Belém já estava num pé e noutro. João Paulo II ainda não havia chegado, mas se aproximava. No relato a seguir, todos os passos do Papa que se tornou o João de Deus, em terras paraenses. A reportagem faz parte do primeiro volume, ainda inédito, da coleção que preparo sobre o Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Pode, à primeira vista, parecer que não há ligação com o tema, mas, quando a obra for publicada, o leitor encontrará os nexos.

Em 1982, quando comecei a trabalhar no jornal “O Liberal”, ainda se falava, na Redação, – e se falaria por muito mais tempo – sobre a dimensão da cobertura da visita do papa São João Paulo II a Belém, dois anos antes. Os colegas lembravam que a empresa havia autorizado os repórteres e cinegrafistas escalados para acompanhar os passos de Sua Santidade, nas horas em que esteve na cidade, a ir àquela que, à época, era a maior (e mais cara) loja de roupas da capital, a “Visão”, e escolhessem todas as peças de que precisassem. Não deviam se limitar ao conjunto paletó e gravata. Podiam solicitar também sapato, meia, lenço, cueca, o que quisessem. O protocolo do Vaticano exigia que os profissionais de imprensa estivessem bem vestidos. Considerado um dos homens mais elegantes (e igualmentemais generosos da cidade), Romulo Maiorana não queria que seus funcionários fizessem má figura diante da comitiva papal. E abriu a mão.

O quesito roupa era um detalhe, mas o que importava era o empenho da equipe para registrar um momento histórico: a primeira visita de um Papa, também chamado de Vigário de Cristo na Terra, do Bispo de Roma, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Primaz da Itália, Arcebispo Metropolitano da Província Romana, Soberano do Estado da Cidade do VaticanoServo dos Servos de Deus, à Belém do Grão-Pará. O resultado foi primoroso. Graças, sobretudo, às informações dos jornais que circulavam em Belém, as de “O Liberal”, particularmente, foi possível reconstituir aquilo que não pude ver, na visita do Chefe da Igreja. Na época, com 21 anos, eu ainda não era jornalista.

Com alguns dias de antecedência, o matutino pedia que as pessoas não cruzassem o caminho do Papa e chegou a publicar um mapa, mostrando por onde a comitiva passaria e anunciou que São João Paulo II ocuparia aposentos modestos, no prédio onde funcionava o Arcebispado. Horas antes da chegada, aconteceu uma vigília de orações e a cidade ficou enfeitada com bandeiras amarelas e brancas, as cores do Vaticano, e toalhas brancas colocadas nas janelas. Havia faixas nas ruas, um dos hábitos mais cafonas que a cidade cultivou e, felizmente, abandonou, saudavam a chegada do Papa.

No Colégio “Gentil Bittencourt” foi montado o centro de imprensa para atender jornalistas brasileiros e estrangeiros. As irmãs da Congregação “Filhas de Sant´Ana”, responsáveis pela escola, disponibilizaram 18 salas de onde seriam mandadas notícias para o Brasil e para o mundo, através dos correspondentes credenciados.

Quando o Boing Presidencial – VC 2115, que trazia o Papa, desceu em Belém, às 12h40 (quinze minutos depois da hora prevista), do dia 8 de julho de 1980, o calor era de rachar: fazia 38 graus à sombra e as autoridades, metidas em paletós, suavam desesperadamente. Coube ao chefe do cerimonial do Governo do Estado, o pintor Benedicto Mello, apresentar o Chefe do Estado do Vaticano ao governador do Pará, coronel Alacid da Silva Nunes. O momento foi tão marcante, que a viúva de Alacid, dona Marilda de Figueiredo Nunes, mantém, numa das salas de seu apartamento, a fotografia em que o casal aparece ao lado do Papa, hoje Santo da Igreja Católica. Antes, o governador da Arquidiocese, Dom Alberto Gaudêncio Ramos, recebeu um caloroso aperto de mão do Pontífice.

O Papa cumprimentou uma a uma as autoridades que foram recebê-lo. Do aeroporto, seguiu para o Seminário São Pio X, onde almoçou frango desfiado com salsicha e azeitonas. Jamais alguém se atreveria a propor um cardápio com pratos típicos da cozinha paraense, feita de comida pesada, capaz de jogar o Papa doente, por dias,sobre uma cama. Só um doido ousaria sugerir uma provinha de maniçoba, iguaria feita com folhas de mandioca moídas e fervidas por sete dias, para retirar o veneno nelas contido, depois do quais se acrescentam todo os ingredientes da feijoada. Tampouco pato assado e mergulhado no molho extraído da mandioca, chamado tucupi. Isso arruinaria os intestinos papais, nunca submetidos a tanto exotismo gastronômico. Na dúvida, um franguinho desfiado acabou sendo a melhor opção. Estanho mesmo foi o complemento: salsicha. Na sobremesa, serviram-lhe sapotilha, uma fruta amazônica, cujo sabor apreciou e associou ao de uma nativa de sua terra natal, a Polônia. Bebeu água e suco de laranja.

Depois de abençoar a pedra fundamental do Carmelo que surgiria no município de Benevides, área metropolitana da grande Belém, São João Paulo II foi ao banheiro (sim, Papas também precisam ir ao banheiro) e rumou para a segunda etapa da visita: uma colônia de hansenianos, onde um interno, chamado Adalúcio, saudou-o, sentado em sua cadeira de rodas. Do palanque modesto, construído com madeira da região e pintado de branco, o Papa acompanhou, emocionado, as palavras de um homem consumido pela lepra. O povo repetia refrões incompreensíveis para alguém que ainda se familiarizava com o idioma. Aquele senhor de batina branca, que na juventude havia sido poeta, ator, professor e teatrólogo, tentava comunicar-se com seu rebanho, improvisando um bordão que, com muito boa vontade, produzia alguma rima: “Oi, oi, oi, Marituba é muito sol”. Era notável o seu esforço para se comunicar numa língua que não dominava totalmente. Mas quem queria saber de rima perfeita, quando a frase saia dos lábios do Papa?

Depois de despedir-se dos que viviam reclusos na colônia, voltou para Belém, onde, numa avenida larga, que anos depois teria seu nome mudado de “1º. de Dezembro para João Paulo II”, presidiu uma missa para cerca de um milhão de pessoas. Ele chegou às 18h30, no Papamóvel, e ao longo do trajeto abençoou uma multidão de fieis que o aguardava, depois de muitas horas de espera, nas calçadas. Eu esperei por mais de quatro horas para ver o Papa passar e valeu a pena.

Sobre um altar montado pela Prefeitura, ornamentado com dois mil crisântemos, trabalho das senhoras Adília Sampaio, Leá Costa e Déa Castro, ele celebrou a primeira missa em solo amazônico. As flores foram compradas com dinheiro de uma coleta organizada pela senhora Terezinha Bandeira Pinto, que conseguiu arrecadar 48 mil cruzeiros. Monsenhor Geraldo Menezes proclamou o Evangelho. Ele estava visivelmente cansado e precisou trocar de roupa num trailer-bus. A liturgia exigia alguma camadas de mantos e, apesar de já ser de noite, o calor não dava trégua. Muita gente desmaiou e o celebrante sofreu com a alta temperatura. O Papa, que conhecera o começo do inverno do hemisfério sul, vindo do sul e do sudeste do país, também suava. Ao final da missa, em questão de minutos, as pessoas levaram todas as flores, deixando o altar vazio. Os tubolões de concreto, usados como sustentação do altar, foram aproveitados em obras de saneamento da Prefeitura.

Depois de abençoar o povo, tomou o papamóvel e embora o programa previsse uma parada em frente à Basílica Santuário, onde veria a imagem original da Padroeira dos paraenses e seria saudado por um coral de crianças, o carro não parou. O todo-poderoso monsenhor Paul Marcinkus, que ficou conhecido pelo semblante constantemente aborrecido, pelas atitudes grosseiras, todas “justificadas” em nome da segurança do Pontífice, e por não obedecer às ordens de ninguém, inclusive às do chefe, que vinha a ser o Papa, mudou, por conta própria, a programação.

Se houve algum responsável pela frustração geral, esse algum atendia pelo nome de Paulius Casimir Marcinkus, morto aos 84 anos, depois de haver presidido o Banco do Vaticano e deixado um rombo de 250 milhões de dólares na instituição. A Justiça italiana chegou a indiciá-lo neste caso, mas o Arcebispo americano, que apesar dos problemas de saúde não dispensava um bom charuto, teve sua honestidade defendida por São João Paulo II e assim escapou da lei. Na época, o vigário de Nazaré, padre Brambilla, acusou, injustamente, o Arcebispo D. Alberto Ramos de haver impedido a homenagem. Falou-se, inclusive, de um improvável atentado a bomba contra o carro de São João Paulo II. Paranoia completa. Nem, D. Alberto, nem ninguém, teve responsabilidade sobre a decisão solitária do autoritário Marcinkus, que deixou este mundo com o nome manchado pela corrupção e infeliz por jamais haver sido indicado para o cardinalato. Morreu Arcebispo. E São João Paulo II sabia bem o porquê de não lhe haver concedido o barrete de Cardeal. Sua presença num conclave colocaria em risco a história do papado.

Quando o papamóvel se aproximou da Catedral, o imponente relógio da praça em frente à doca do Ver-o-Peso, diante da qual se abre a baía do Guajará, que, à época, ainda funcionava bem, marcava 21h20. O Papa estava exausto. Mesmo assim, visitou a Catedral, onde rezou e beijou duas crianças. Na saída, viu um tapete feito com serragem coloridae barro, por jovens da cidade de Capanema, onde há tradição de confecção desses enfeites, preparados para a procissão de “Corpus Christi”. No desenho, havia os brasões do Vaticano e da Arquidiocese de Belém, um cálice com hóstias e cinco velas. Um coral cantou “Cristo Reina” e o papa fez um comentário que provocou risos. Qual, não se soube. Antes, ouviu uma saudação em língua Guarani, própria dos indígenas do sul da América do Sul e dos paraguaios. Como não entendesse uma palavra, confessou, cheio de humildade: “preciso tomar lições para aprender esta língua”. João Paulo II falava, fluentemente, polonês, latim, grego, italiano, francês, espanhol, português, inglês, esperanto e alemão. Tinha conhecimentos básicos de tcheco, lituano, húngaro, japonês, filipino e algumas línguas africanas. Guarani, contudo, não conhecia.

De uma das 24 janelas do prédio onde o Arcebispo trabalhava e morava, todas enfeitadas com flâmulas brancas e amarelas, o Pontífice puxou um refrão: “bem, bem, bem, a cidade se chama Belém” . Todosderretiam-se de encantados por São João Paulo II. Logo depois, um novo versinho animou os presentes: “bem, bem, bem, Jesus Cristo nasceu em Belém”. O Papa estava inspiradíssimo. Às 21h25 uma chuva fina, que no Pará se chamade “chuvisco”, começou a cair. O papa deu uma bênção em latim e disse duas vezes em bom português: “basta de poesia…basta de poesia”. E se despediu, desejando “boa noite!”.

Naquela noite, Belém perdeu seu maior historiador: Augusto Meira Filho. No caminho que Papa percorreria, os três cinemas próximos à Basílica exibiam títulos que, com certeza, não seriam apreciados pelo visitante ilustre: “As Nazistas Taradas”, no Cine Nazaré; a pornochanchada brasileira “Convite ao Prazer”, no “Iracema”; e “Black Emmanuelle”, no “Ópera”, o único que sobreviveu e mantém programação pornô. Os funcionários contaram aos jornalistas que desejaram retirar os letreiros compostos com letras de madeira pintadas de vermelho, mas não obtiveram autorização. Sorte deles. O trajeto oficial havia sido mudado em segredo.

No dia seguinte, depois de dormir num quartinho calorento, e suado em bicas, a ponto de manchar a roupa de cama, São João Paulo II levantou-se às seis da manhã. A praça em frente, chamada “D. frei Caetano Brandão”, estava lotada de gente que queria se despedir de João de Deus. À sua disposição havia ônibus de turismo e três carros da marca Gálaxie, o mais caro disponível no mercado.

Às sete da manhã, quando uma brisa fresca, dependendo da maré,costuma varrer a área, o padre David Larêdo chegou à janela e, usando as mãos, como se fossem um megafone, anunciou que o Papa daria uma bênção. Impossível acreditar ninguém tivesse tido a ideia demontar um sistema de som no local. A impressão era a de que, em Belém, ainda não havia microfones.

A praça se movia, inquieta. Às 7h22, o arcebispo D. Alberto Ramos chegou à janela e, usando do primitivo sistema de bater palmas, como se estivesse em uma sala de aula, anunciou a chegada do Papa. A multidão delirou. O bispo-auxiliar D. Tadeu Prost entrou na cena da janela, se aproximou de seu pai espiritual, (na tradição da Igreja, os bispos são filhos do Papa e os cardeais, seus irmãos), o Bispo de Roma, lhe entregou a imagem original, a do achado, de Nossa Senhora de Nazaré. Horas antes, ela havia ficado nas mãos de um frustradíssimo padre Luciano Brambilla, à espera de que Sua Santidade, ainda que sem entender a importância da peça sagrada para o povo do Pará, parasse um momentinho e a ela rendesse homenagens. Como já foi dito, Paul Marcinkus impediu que isso acontecesse.

Pela segunda vez na história do século XX, a estátua da Senhora foi retirada de seu nicho, no Glória, veio para perto do povo e chegou às mãos de um Papa. Improvável que até o Arcebispo tenha tido chance para explicar a São João Paulo II o valor daquela escultura, encontrada em 1700, naquela época contava 280 anos, sobre o solo do Maranhão e Grão-Pará. Nascido numa terra que cristianizou-se em 966, Karol Wojtyka deve ter visto e tocado em imagens bem mais antigas do que aquela, talvez vindas do começo da Idade Média, ao lado das quais a que recebia de D. Tadeu não passava de um “bebê”. Para os paraenses, isso não tinha a menor importância. A padroeira estava sendo tocada pelo Papa. Ou melhor: ela tocava as mãos de um romano pontífice. Foi bom para ele.

Num gesto de carinho, beijou a imagem, acenou para a multidão e devolveu-a D. Tadeu Prost, tão americano como Paul Marcinkus, mas em tudo, exceto na nacionalidade, diferente do homem que arruinou as finanças da Santa Sé. D. Tadeu passava temporadas nos Estados Unidos, proferindo palestras e arrecadando dinheiro (dólares, é bom lembrar), muito dinheiro, para ajudar a manter a Arquidiocese da qual era Bispo Auxiliar. D. Tadeu Henrique Post, cujo nome religioso era frei Jude Prost, não se afastava da batina marrom, com uma cordinha presa à cintura, e fazia questão de lavar o carro que usava, jamais foi suficientemente lembrado e homenageado nesta cidade. Se essas referências a seu nome e ao seu trabalho pastoral valerem de alguma coisa, já me sentirei justificado por tê-las feito. Ele morreu no dia 2 de agosto de 1994, aos 78 anos, na cidade de Chicago, onde nasceu em 1915, ao lado de seus irmãos franciscanos.

A breve aparição da santa teve uma repercussão inimaginável. A cidade inteira se sentia abençoada por João de Deus, quando acolheu em suas mãos o maior de todos os ícones da mais importante procissão católica do mundo. Foi a melhor homenagem que o Papa polonês poderia ter prestado aos paraenses. Se tivesse descido do avião e, da porta da aeronave, houvesse abençoado a cidade com a santinha, a comoção da visita não caberia no coração dos fieis.

Diante de tantas opções de veículos, o Papa (ou teria sido Marcinkus?) escolheu um ônibus de turismo, com largo campo de visão, onde podia ser visto ao lado do motorista. Com a rota alterada, os moradores das ruas por onde a comitiva passaria, descrevendo um plano alternativo, acordaram assustados com a nenhuma movimentação de carros e a quantidade de policiais fechando todos os cruzamentos. Por volta de nove horas, sirenes abriam um caminho já totalmente desimpedido. Nesse dia, o Papa esteve diante da casa de meus pais e conseguimos vê-lo bem de perto, em condições infinitamente melhores do que as do dia anterior. Eu contava apenas 21 anos e jamais esqueci aquela tarde ensolarada de 9 de julho de 1980, quando um santo, ainda habitando o corpo de um homem com a pela mais alva que já vi, desfilou diante de nós e acenou. Até meu pai, Joel Pereira, que não era católico, se comoveu.

A essa altura, a imagem já havia retornado ao Glória da Basílica e nunca se conheceram os detalhes sigilosos que envolveram a logística de transporte, tanto de ida, como de volta, da Padroeira. O que se sabe é que tudo aconteceu com autorização e sob o comando do arcebispo D. Alberto Gaudêncio Ramos.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Catholic News Service – Joe Rimkus Jr.

Crônica

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