Padre Bruno na casa dos santos

Diário de um desespero – ou quase – LXXI

João Carlos Pereira

Quase três décadas antes que uma faixa aberta na praça de São Pedro, no Vaticano, pedisse que João Paulo II fosse feito santo rapidamente, o Papa, no começo de seu pontificado, havia declarado que o mundo precisava de santos usando jeans e tênis. A imagem da modernidade e a prática da santidade tinham a ver com um conceito novo, que aproximava criaturas comuns de um tipo de vida especial, centrado no amor e na bondade.

Naquela época, Bruno Sechi contava pouco mais de cinqüenta anos e há vinte havia iniciado uma jornada de santidade entre as crianças e os jovens muito pobres das periferias de Belém. A República de Emaús era o altar da santidade em vida do padre Bruno. Na sexta-feira, sem que precisasse passar pelo burocrático e longo processo de canonização, partiu deste mundo e foi morar com os santos, seus colegas.

A proposta de espiritualidade humanizada que o padre Bruno abraçou, por livre deliberação e única opção de vida, precede o conselho de São João Paulo II. Ele não escolheu ser santo. Simplesmente era. A bondade que habitava aquele corpo magrinho foi forte o suficiente para edificar uma república livre das marcas que transformaram a República brasileira de hoje em qualquer coisa indigna desse nome. A República de Emaús, ou do Pequeno Vendedor, só pensava e agia em nome do amor e da solidariedade.

Quando criou a “grande coleta”, realizada uma vez por ano, tocou profundamente o coração da cidade. Em todos os lares, as famílias se mobilizavam para doar não entulhos, coisas inservíveis, mas o que poderia ser reaproveitado e vendido por um preço acessível aos que necessitassem. No imenso galpão de Emaús, surgia uma loja de departamentos com todos os itens necessários ao bom funcionamento de uma casa.

Quem precisasse de um liquidificador barato, usado, mas funcionando bem, por exemplo, podia adquirir lá. Depois de recuperadas, todas as peças ficavam à venda e o que se obtinha era revertido para ações em favor dos mais pobres. Não havia lucro, mas divisão. Como nas primeiras comunidades cristãs, todos tinham tudo em comum e dividiam seus bens com alegria. Por um certo tempo, Belém, a chamada “casa do pão”, aprendeu a partilhar.

Por causa da bondade e da tolerância, Bruno Sechi, um italiano transformado em belemense dos subúrbios, cujas dores ajudou a aplacar, soube construir pontes entre pessoas de diferentes credos. Dialogava com tranqüilidade e acolhimento com que quem não pensava como ele. Homem que acreditava nos homens, na ciência que produziam e na fé em que se sustentavam, foi um exemplo acabado de um apostolado sem fanatismo e de total entrega aos irmãos. Era a esse tipo de compromisso que João Paulo II se referia, quando apelava à necessidade de santos de jeans e de tênis.

A República de Emaús acaba de completar 50 anos e passa por seu pior momento. Padre Bruno antevia tempos difíceis, mas confiava nAquele que lhe deu a missão e pedia: “jamais nos deixe perder a esperança”.

Do céu, sem dúvida alguma, continuará a ajudar a obra de toda sua vida.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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