Édson Franco e a trágica consciência do finito

Diário de um desespero – ou quase – XCIII

João Carlos Pereira

Nos quase trinta anos em que trabalhei com o professor Édson Franco, apena duas coisas não aprendi com ele – e isso, até hoje, conta rindo: a ser pontual e a ganhar dinheiro. De resto, descortinou tanta coisa diante dos meus olhos que, numa certa fase de nossa convivência, já nos entendíamos até pelo olhar. Quando estávamos fazendo cerimônia de colação de grau, um simples levantar de sobrancelha indicava o que era para ser feito.

Muito devo a Édson Franco, o dr. Édson, que falava sobre educação como quem possuía – e possuía mesmo – enorme intimidade com a matéria, especialmente sobre o que sei sobre ensino superior. Nesse item, o homem colocava qualquer um no bolso. Em muitos outros também. Fosse alguém lhe fazer um pedido, era capaz de negar e a criatura ainda saía de sua sala agradecido. Uma vez, cai na besteira de reivindicar um espaço maior para o setor que eu coordenava, na Unama. Antes de dizer não, contou que, quando dirigiu o departamento de fascículos (ou seria de livros?) da Editora Abril, sua sala talvez tivesse dez metros quadrados, se tanto. Seu talento não precisa de mais do que isso para revelar ao Brasil a força da Abril Cultural.

Para mostrar que tamanho não era documento – literalmente – lembrou que, certa vez, o dono da empresa, seu amigo Victor Civita, pediu um parecer sobre um livro a ser editado. Virou a noite e escreveu um texto quase tão grande quanto o trabalho que devia analisar. Ao entregar para o chefe, ouviu dele uma lição que nos repassava, com os devidos créditos: “para que tudo isso? Apenas uma folha bastava. Sua opinião é suficiente. Presta, ou não presta. Somente”.

Se eu fosse contar tudo que aprendi com ele, ia precisar escrever uma nova série de cem crônicas – ou mais – e ainda ia ficar devendo coisa. Sua lição mais recente veio na forma de uma frase, no meu celular. Como quase sempre faz um comentário às crônicas que publico, sempre seguindo o laconismo “victorcivitiano”, anotou, a propósito da crônica 48, sobre Van Gogh: “o certo, João, é que somos finitos”.

Me valho dessa frase para completar o raciocínio proposto ontem, sobre aquilo em que acreditamos e no que nos fizeram acreditar. Parei quando ia refletir sobre o que há e o que não há, quando, na hora fatal, a gente esquece a cor dos olhos da vida, como disse Mário Faustino, e vai. De preferência sem saudade, pena ou ira.

Não sei exatamente no que acredito, se o assunto é a vida depois da vida. Os espíritas falam com tanta convicção em colônias funcionando com vida de verdade, que é quase impossível não crer. O problema é que eu moro no quase. Também não aceito a idéia de que vamos, como os anjos, passar a eternidade fitando a face do Senhor. Ela lá precisa desse tipo de platéia? Do mesmo modo, acho que não ficaremos bestando em algum plano espiritual, seja superior, com os justos; seja inferior, levando chibatada do maligno e tomando mingau feito de fezes, num calor, literalmente, do cão.

Para ser absolutamente verdadeiro, nem imagino o que se passa depois de fechar os olhos para sempre. Pior é pensar que nada se passa e que a gente vira pó, juntamente com o cadáver. Melhor sorte terão os que se transformarem em passarinhos transparentes ou encantarem-se à luz das estrelas. Esse destino é tão incerto que procuro nem me ocupar dele. O que tiver de ser, será. Só espero que não seja agora. Nem nos próximos anos.

Cansada de tanto estar reclusa, uma de minhas filhas começou a falar numa coisa absolutamente estranha, que escutou em seu local de trabalho, chamada arrebatamento. Ela ouviu a explicação para esse fenômeno e relata, em tons apocalípticos, como será o acontecimento. Se vierem quatro pessoas num carro e chegar o instante da colheita das alma, o perigo é apenas o motorista estar pronto para ser arrebatado. Suas roupas ficarão no veículo desgovernado e será levado ao toque da trombeta. O destino dos demais passará longe da salvação. Quem será arrebatado? Somente os escolhidos de uma igreja que não sei qual é. Nem desejo. Seguramente, eu estarei fora desse momento de resgate dos bons. E mesmo que meu nome aparecesse na lista, declinaria. Ia ser muito chato viver com gente tão especial, tão perfeita, tão completa em méritos.

Escuto falar tanta coisa mais doida do que esse procedimento de salvação, que gostaria de não saber de mais nada. Nem se há, nem se não há. Preciso, quando passar a pandemia, viver a aventura da vida de modo tão inconsequente, me valendo de Manuel Bandeira para repetir que “Joana, a louca de Espanha, Rainha e falsa demente, vinha a ser contraparente, da nora que nunca tive”.

Diante do mistério da vida e da morte, o professor Édson Franco haverá de ter uma saída para não se engasgar com a dúvida. Aceitar a finitude, como me recomendou, é sinal de muita sabedoria. A questão é que, para chegar lá, ainda vou ter que penar um bocado. E entre saber e não saber, prefiro… não prefiro nada.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Niobe Xandó — sem título, 1983

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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