Um cartaz feito de luz, cor, flores e vento. Uma proposta para o Guiness.

Diário de um desespero – ou quase – LXXIII

João Carlos Pereira

Mais do que esperança, o cartaz do Círio 2020 deu alma nova à cidade. De um dia para o outro, Belém parece que colocou um sorriso no rosto, como se houvesse florescido. O sentimento de felicidade foi tão grande e, ao mesmo tempo, tão suave, que me deu a sensação de que, indo à sacada, encontraria uma orquídea branca com muitos botões abertos e outros tantos por abrir por abrir. Como se trata de Nossa Senhora de Nazaré, substituo a imagem da orquídea pela dos lírios igualmente brancos e infinitamente mais perfumados.

A simples ideia de que o Círio está em curso, diria o poeta Manuel Bandeira, justamente por ser Bandeira, embandeirou-nos a alma inteira. Agora, ninguém mais parece centrado no pessimismo, embalado pela dúvida de que não haverá Círio, ou pelo medo que ele aconteça virtual ou simbolicamente, ou não aconteça. O grande sinal de que se pensa e, sobretudo, de que se trabalha para isso, é o cartaz. Não importam a forma, ou a plataforma. Mas o Círio 2020 não passará, nem literalmente, nem de modo figurado, em brancas nuvens. Graças ao cartaz, 2020 já tem a marca do seu Círio. Há uma palavra que pouco uso, porque foi criada para ser preservada e tirada de seu cristal somente em momentos especiais. O que eu senti, quando vi a peça, foi algo semelhante a um alumbramento, que vem a ser uma espécie de sopro criador, uma revelação, uma inspiração.

O cartaz de 2020 foi um alumbramento.

Sempre que se fala em cartaz do Círio, a imagem da romaria aparece, de súbito, iconografada. No passado, eram muito enfeitados, mas traziam informações preciosas. Graças a eles, sabemos, hoje, o nome de todos os organizadores da Festa e, de modo especial, de seus Juízes, uma categoria que deixou de existir.

Com o tempo, o cartaz foi ganhando novos desenhos, diferentes configurações. Alguns eram mais descritivos, outros, nem tanto. Houve uma época em que o grafismo dominou o espaço, até que, finalmente, a Mendes Comunicação definiu o padrão que se transformou em história e referência: sobre a página branca, a foto da imagem peregrina e algum cenário. Quanto menos elementos, mais limpo, mais claro, mais bonito. O desde ano está excepcionalmente formoso. Fugiu do clássico, fugiu do comum, abraçou a singeleza com a elegância que apenas a singularidade pode fornecer. Por isso tornou-se um alumbramento.

Acho que, se ainda não está, o cartaz do Círio deveria ser inserido no livro dos recordes, o Guiness Book. Caso alguém conheça resposta diferente, que não esteja diretamente ligada ao nosso Círio, peço o imenso favor de responder. Qual festa religiosa, no planeta, possui um cartaz com tiragem que beira o milhão? Que outro evento, religioso ou não, possui uma tradição de preparar cartazes tão antiga quanto a nossa? Que outro santo merece um cartaz, nas dimensões do nosso, espalhado pelos quatro cantos do planeta? Qual produto é colocado num cartaz com tiragem minimamente parecida à nossa? Alguma loja de departamentos ousou chegar aos pés do nosso, em proporções, beleza ou quantidade? Está difícil, viu?

A responsabilidade de produzir uma peça nova a cada ano, e todo ano mais bonita que a do anterior, me parece um desafio que eu hesitaria em aceitar. Ou melhor: não aceitaria. Um padrão foi criado e deveria ser incluído entre os ícones do Círio, porque leva o próprio Círio para aonde quer que chegue. Seja na porta de uma casa paraense, do outro lado mar, qualquer que seja o mar, ou na morada de um ribeirinho, nas margens mais escondidas da Amazônia.

O cartaz do Círio é um Círio desenhado em papel, sempre à espera de ser substituído pelo do ano seguinte. O cartaz do Círio é a nossa folhinha sem o registro dos meses. É um calendário apenas do ano. É o registro do tempo entre um Círio e outro Círio. É, de alguma forma, a visita da Senhora e sua constante presença entre nós.

De todos os cartazes, o que mais me marcou foi o do jambeiro. O deste ano, porém, há de figurar na lista dos mais belos. E quando alguém se referir a ele, dirá: é aquele cartaz dourado, com santinha dentro de uma berlinda quase invisível, feita de flores e de vento. Será, para sempre, o cartaz dourado.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
Facebook
| Blog

Crônica

Ignatiana Visualizar tudo →

IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: