Feriadão, romaria e procissão: cada coisa no seu lugar

Diário de um desespero – ou quase – LXXXI

João Carlos Pereira

Em tempos normais, a imprensa estaria dando destaque para o engarrafamento nas rodovias por causa do que se convencionou chamar de “feriadão”. Uma data facultada entre a terça-feira ou a quinta motiva o enforcamento do expediente, sobretudo nas repartições. Como a cultura da folga no serviço público e, também, em algumas empresas privadas, deitou raízes profundas na sociedade, agora é difícil arrancar esse costume. A desculpa de que “ninguém” vai trabalhar depois de um feriado é furadíssima. Se houvesse controle do expediente normal, após a folga, duvido que esse hábito fosse mantido.

Depois de tanto tempo “enforcando”, as pessoas nem reparam mais o que motivou a “forca”. Hoje, para os católicos, é um dia muito especial, porque nele celebramos o Corpo de Cristo. Com o país quase dividido ao meio entre católicos e não-católicos, ficaria complicado dizer: olha, o feriado é só para quem é católico. O restante trabalha. Aí feria para todo mundo. Nunca um ecumenismo foi tão bem-vindo ou tão largamente aceito.

O grande evento de hoje seria a procissão de “Corpus Christi”, com a Hóstia Consagrada, eixo da fé católica, colocada num ostensório e solenemente conduzida pelas ruas, sob adoração do Arcebispo, foi cancelado. Não há como reunir muita gente na rua. Por isso as homenagens ficaram restritas aos templos. Numa ou noutra cidade a ordem foi ignorada, mas, no geral, a Igreja cumpriu a lei. Não dá para brincar com o corona vírus.

Verdade que a procissão de hoje não arrasta multidões, como o Círio ou Nossa Senhora de Fátima, mesmo assim é arriscado. É a primeira vez, desde o século XIII, que a procissão deixa de acontecer. Em Belém, o culto ficou restrito às igrejas, com lotação reduzida.

Os fatos que deram origem a “Corpus Christi” remontam ao século XIII e são considerados milagrosos nas duas pontas. A visão de uma freira e uma Hóstia sangrando com tanta intensidade, como se fosse uma hemorragia, que chegou a empapar um pano do altar. Foi assim que tudo se deu. Se não foi, pelo menos a História registrou os acontecidos desta maneira.

Há mais ou menos 700 anos, o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège, na Bélgica, depois feito papa Urbano IV, recebeu o segredo da freira Juliana de Mont Cornillon acerca das visões de teve de Cristo. A religiosa disse que o Senhor desejava que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque.

Na cidade de Bolsena, próxima a Orvieto, na Itália, onde estava instalada a corte papal, por volta de 1264, aconteceu um milagre que inauguraria a tradição. Um sacerdote presidia a santa missa, quando a Hóstia Consagrada começou a verter sangue. O sangramento era tanto, que o pano conhecido como “corporal” ficou empapado.

Sabendo do fato, já conhecido com “o milagre de Bolsena”, o Papa determinou que todos os objetos milagrosos fossem levados até ele, numa grande procissão, ocorrida no dia 19 de junho de 1264 para, depois, enviá-los à catedral de Santa Prisca, em Roma.

A solenidade de “Corpus Christi” foi descrita na bula “Transiturus”, de 8 de setembro de 1264, 529 anos antes da realização do primeiro Círio. Ela prevê que a concretização do desejo do próprio Cristo aconteça na quinta-feira, depois da festa da oitava de Pentecostes, que vem a ser a semana seguinte à festa da Santíssima Trindade.

Uma curiosidade a respeito da história desse fato histórico é o belo Ofício entoado para dar mais solenidade e brilho à celebração de “Corpus Christi”. Cantado até os dias de hoje, ele recebeu o nome de “Louva Sião”, ou Lauda Sion, e foi composto por ninguém menos do que São Tomás de Aquino.

Nesta quinta-feira, teríamos, a rigor, a única procissão da Igreja Católica. As demais são romarias. Quando há o Santíssimo, é procissão. Sem o Santíssimo, romaria. Mas a fala do povo misturou tudo e, por exemplo, se chama procissão para o Círio, quando o certo seria romaria. Na hora da emoção, vale tudo.

Ajoelhado, em oração, de modo silencioso, D. Alberto iria adorando, como recomenda o Código Canônico, o Cristo Eucarístico pelas ruas de Belém. Esse gesto ensina uma lição preciosa. Os católicos não praticam a idolatria. Aos santos, grandes modelos de virtudes, prestamos veneração. Olhamos para as imagens com respeito e amor, como se estivéssemos diante da foto de um parente amado. Fazemos veneração. Adoramos apenas o Santíssimo Sacramento.

Acho que todo mundo sabe, ou deveria saber essas coisas. Mas nunca é demais falar delas e deixar tudo bem explicadinho.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: José Antônio da Silva — Procissão, 1948.

Crônica

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